A Oração (1)


Uma confissão de Santa Teresa d’Ávila, doutora da Igreja, na abertura de um de seus mais belos livros me chamou a atenção quando pensei em escrever este post:

De todas as ordens recebidas, poucas se me afiguraram tão difíceis como a de escrever sobre assuntos de oração”.

Ter sido uma grande orante ajudou, certamente, a que Santa Teresa vencesse um tamanho desafio. De minha parte – eu, sinto muitas vezes que preciso muito rezar, encaro a dificuldade multiplicada por mil rezando, seja diante de dificuldades comezinhas como escrever no blog, seja diante de desafios mais significativos da vida. Fica evidente porque a sabedoria popular cunhou a velha máxima popular se aplica tão bem. diante disso, “só rezando…

Por considerar o texto de Santa Teresa como mandato bem cumprido, apego-me a ele como um bom começo desta estrada. Tenho lido muitos textos de outros orantes famosos (como o místico San Juan de la Cruz, ou o padre-professor irlandês John O’Donohue), que muito me ensinam sobre a oração, mas só eu mesmo posso praticá-la.

Santa Teresa tinha propósito claro e nos indica de pronto, ao falar sobre a prece:

“Quem me mandou escrever disse que essas monjas dos nossos mosteiros de Nossa Senhora do Carmo têm necessidade de que lhes esclareçam algumas dúvidas em matéria de Oração”.

Talvez por espelhar-se na necessidade do Outro é que Santa Teresa tenha aceitado tal mandato com humildade e dele se saído bem. Sinto que Teresa era como um físico de experimentos que deixasse o laboratório para teorizar, na penumbra, sobre um aspecto de seu estudo sobre a luz.

Nosso Senhor não me fará pequena mercê se isto servir a alguma delas, para louvá-lo um pouquinho mais…”, diz Teresa ao receber de Deus a inspiração necessária e o magnífico presente da metáfora cristalina, ao considerar poeticamente uma mirada privilegiada da alma do cristão – a alma do orante, sintetizado nessa frase:

Nossa alma (é) como um castelo, feito de um só diamante ou limpíssimo cristal” (cfme. pág. 19 de Castelo Interior e Moradas).

E ao imaginar uma porta para adentrar a esse ‘castelo interior’, ela encontra a chave:
A porta para entrar neste castelo é a Oração e a Meditação…

(pág. 23, Castelo Interior e Moradas).

A oração foi considerada por Alceu Amoroso Lima como a 4ª. dimensão de nosso mundo interior. A oração é considerada como vital ao desenvolvimento desse edifício interior que todo cristão está chamado a construir. Ao lado da oração, vem a evocação do passado, a antecipação do futuro (que nem de longe é adivinhação!) e a profundidade (ou meditação). Há, segundo Alceu, duas formas de oração: a oração implícita e a oração explícita.

A oração implícita é o espírito com que vivemos em todos os sentidos, tanto em nossa vida interior, em qualquer das dimensões, como em nossa vida operativa (exterior). Tudo o que sentimos, tudo o que pensamos, tudo o que fazemos, deve ser sentido, pensado, e feito em espírito de oração. Tudo o que é sentido, pensado ou feito com perfeição é uma prece, é um meio implícito de união com Deus. E só nos unimos a Deus pela oração…

Reforça citar a carta apostólica sobre meditação cristã (1989) que define: “a oração é dom de Deus e requer a mobilização das faculdades do homem, o silêncio, o recolhimento, a leitura dos livros sagrados…”

Essa talvez a razão de muitas vezes se encontrar o sentido mais expandido da oração, considerada por muitos como um trabalho (e vice-versa): “laborare est orare…

A oração explícita, por sua vez, é a forma de falarmos com Deus, como ressalta Alceu em seu livro “Meditação Sobre o Mundo Interior” e a prece coletiva sua expressão mais clara de praticar a oração explícita.

Se para bem cumprirmos os mandamentos da Lei de Deus e os preceitos da Igreja, necessitamos do auxílio e graça de Deus, seria a oração um dos exercícios mais importantes, pois é por meio dos Sacramentos e da Oração que evoluímos como cristãos. De todas, a mais excelente oração que podemos dirigir a Deus é a que se chama Oração Dominical ou o “Pai Nosso”.

Ao lado do “Pai Nosso”, rezo também a “Ave Maria”. Aprendemos na Doutrina que “cumpre venerar todos os santos que estão no céu, como a servos e amigos de Deus; porém, invocando-os e venerando-os, não os adoramos, e fazemos sempre grande diferença entre Deus e as criaturas. Rogando aos santos não os olhamos nem consideramos senão como nossos intercessores para com Jesus Cristo, que é o Medianeiro que nos remiu com seu sangue, e por quem podemos ser ouvidos e alcançar a salvação.

“É mais racional e mais útil ser a nossa devoção de preferência entre todos os santos, com a Virgem Santíssima, Mãe de Jesus Cristo; por isso que a devemos considerar como Mãe nossa. A mais excelente oração que podemos dirigir à Virgem Santíssima é a que se chama Saudação Angélica ou Ave Maria.

Afora as orações particulares, devemos assistir as orações públicas da Igreja, principalmente na nossa paróquia. A mais excelente destas orações é o santo sacrifício da Missa, a qual devemos assistir com respeito e atenção, e unir-nos ao sacerdote que preside a Missa, porque oferece este santo sacrifício em nome de toda a Igreja

(Manual Portuguez da Brevíssima Instrução Religiosa – Doutrina da Igreja Católica, Lisboa, 1858).

Para finalizar este post, destaco que em seu “Comentário ao Pai Nosso”, Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, ensina que:

Entre todas as orações, o Pai-Nosso ocupa manifestamente o principal lugar, pois contém as 5 qualidades mais importantes requeridas para toda oração, que deve ser: confiante, conveniente, ordenada, devota e humilde”.

A fórmula Tomista, sintetizada do estudo acima, é absolutamente perfeita para uma meditação sobre a Oração.

Anoto algumas leituras e meditações que Tomás enrique com a simples fórmula “C-C-O-De-Humi” (não pude deixar de me lembrar dos velhos tempos de vestibular). A oração deve ser:

Confiante – Hb. 4, 16 – Tiago 1, 6 – Cl. 2,3 – Sl.91,15.

Conveniente – Tg. 4,3 – Rm. 8,26 – Lc.11,1.

Ordenada – Mt. 6,33 –

Devota – Sl.63,5 – Mt.6,7.

Humilde – Sl.101,18 – Lc.18,9-15 – Jd.9,16.

+++++

Fontes: Catecismo da Igreja Católica – ”A Oração na Vida Cristã”, Sta. Teresa d’Ávila “Castelo Interior e Moradas”, Alceu Amoroso Lima “Meditação Sobre o Mundo Interior”, Santo Tomás de Aquino “Comentário ao Pai Nosso”.
Post-post: Passado algum tempo, volto aqui por circunstâncias deste período de Quaresma – em que tanto necessitado estou da Oração. E eis que encontrei este texto no Formspring de um ex-Blogueiro dos mais inspirados – Felipe Ortiz, ex-Wunderblogs. Vale a pena ler.

6 comentários em “A Oração (1)

  1. Muito bom teu texto Adalberto, vou enviar para uns amigos (com créditos, posso?). São tantos ruídos externos e internos (até nas Missas), ore-se e viva-se em espírito de oração com um barulho desses! rsrsrs Abraço.

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  2. Lelê,
    Fique à vontade, sempre é bom saber que um texto agradou um(a) amigo(a) leitor(a).
    Amitiés,
    Beto.

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  3. Pingback: A voz do dono do blog « Adalberto de Queiroz

  4. Nossa Senhora das Dores concede inúmeras graças de forma surpreendente e infalível. Repita esta oração durante sete dias com bastante fé e veja o q acontece em seguida.
    Misericordiosa Mãe de inesgotável paciência e justiça, Nossa Senhora das Dores, que tantas dores suportastes, só TU, MÃE AMOROSÍSSIMA, é capaz de compreender as angustias, tristezas e decepções que me afligem, por isso peço, humildemente a misericórdia de (pedir a graça). Amém. Rezar 3 Ave-Marias logo em seguida. A ÚNICA COISA QUE NÃO ACONTECERÁ É VC NÃO SER ATENDIDO/A.

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  5. Pingback: ~O Rabi e o Yoghi: 2 estórias~* | Adalberto de Queiroz

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