Achados & Perdidos (2) – Jackson de Figueiredo


Meu querido A.

O privilégio da alegria, que tem sido de alguns santos, não será talvez o maior dos privilégios de que gozam, em cada ordem, as almas mais vivas e, portanto, mais amadas de Deus. Eu, por exemplo, meu amigo (e talvez seja o amor de mim próprio o que me leve a falar assim), eu, por exemplo, nem antes nem depois de ter entrado os umbraes da Igreja, jamais deixei de sofrer, e sofrer tremendamente, sobretudo da luta comigo mesmo, inclusive com a minha miserável capacidade de criar e matar entusiasmos. Sou um homem, já lhe disse, em quem a consciência só procede bem quando procede tiranicamente, quando traz sob o guante das mais rudes indignações os surtos líricos do espírito, os vôos passionais do coração, as nuanças poéticas da sensibilidade. E V. sabe que não há julgos tirânicos sem interrupções, o que quer dizer: sem lutas temíveis. Sim, meu caro A., jamais foi a fé, para mim, essa iluminação, ou essa plenitude de paz que V., em luta com os segredos da sua alma, parece julgar característicos da existência de quem encontrou a verdade. Não e não. Principalmente para nós, os filhos da revolução e da anarquia, não da revolução e da anarquia na ordem política somente, mas desta, bem mais larga e mais profunda, da intimidade das consciências e dos corações.

Note que esta revolução já se verificava antes do Cristianismo. Ela já era, como é hoje, a tendência do homem para substituir a hierarquia que Deus imprimiu às coisas do mundo, o vago ou o tumultuoso domínio das paixões, de que a mais forte é, justamente, a liberdade: a expressão puramente natural de um favor divino e que jamais deverá mover-se senão em perfectibilidade, isto é, em busca da sua perfeição, que só está em Deus. Daí não haver contradição quando certos filósofos ousaram dizer que não há nem pode haver liberdade para o mal.
É evidente que só o mistério da queda aclara tudo isto. E a sugestiva imagem de Chesterton – a única luz que não podemos fitar é a luz pela qual tudo vemos – mais uma vez acha aplicação no mundo moral.

Mas seja como for, após a revelação de Jesus Cristo, isto é, após ter-se tornado, e para sempre, possível a reconciliação, em base de sacrifício, do homem com a sua primitiva ou verdadeira natureza – se a liberdade ganhou em força para o bem, a sua ´figura` instintiva, a sua contrafação pelo orgulho e a sensualidade se fez, ao mesmo tempo, mais violenta e imperiosa.

Esta hora é a dos resultados fatais de uma sublevação geral dessas forças negativas, no império do homem. E ante o número dos males, perturba-se-nos a consciência, pois que também é quase fatal em nós o esquecermos que um só ato bom tem mais significação e valia do que todos os maus, pois que, para os lados de Deus, é o infinito da vida, e para os lados do mal, tudo se resolve em nada. Mas, realmente, se é assim possível fazer frente filosoficamente a tantas agonias do espírito, não é possível deixar de senti-las, de temê-las, e lastimar a cada passo, a cada momento da vida vivida, que se vai vivendo…

E não é V. só, meu caro A., quem sofre destas oposições entre a consciência, que lhe impõe o valor da Fé, e a sensibilidade, cansada ou demasiadamente trepidante, que a distância dessa sensação de conforto, que verá corresponder à posse da verdade.
Mas basta imaginar que só intuitivamente limitamos ou sentimos o geral, ao passo que o particular (e o erro, e a dor estão sempre neste caso), esse, nos toca diretamente. Não é a vida normal aquela de que melhor temos consciência. É das moléstias, das falhas, do que externa e internamente nos perturba.

Ah! meu caro A., se eu lhe contasse a minha vida, mas a contasse em seus detalhes – caso V. entrasse em meus subterrâneos, descesse às minhas furnas, contornasse as minhas geleiras, atravessasse as minhas dunas espirituais, pudesse dar-lhe uma representação mais viva da minha paisagem interior – certo V. veria que tenho bem mais do que V. o que esconder e sepultar, e que o meu orgulho tem tido mais vezes do que o seu, ocasiões de curvar-se em atitudes bem menos dignas que a da prece.

Mas nada disto invalida a força da Fé, a força da verdade da consciência. Não é verdade que Jesus Cristo tivesse prometido a felicidade aos povos e aos indivíduos. A salvação é coisa muito diversa do que geralmente ideamos como felicidade. Não, Ele, o que veio atestar foi o valor das almas no espantosos horror deste mundo decaído. Ele, o que veio atestar foi a existência de uma saída para a luz, de dentro destes muros de treva. Ele, o que veio foi mostrar que o difícil caminho da humildade e do sacrifício é o caminho certo para a glória da ressurreição na vida real. Não; não é preciso ser feliz para sentir o valor da fé, isto é, o valor da existência como coisa que tem sentido, é conforme à nossa limitada razão.

A hora em que vivemos ambos é, além disso, uma hora terrível, ainda mais desorientadora que as horas em que o mal parecia dominar tudo. O que vemos é como uma cheia, uma inundação, cobrindo, aplanando, confundindo tudo, límpidos rios de doutrina e córregos de infâmia, amazonas de hipocrisia e sofismas, caudalosos rios da dúvida e puros mananciais da verdade.
(…)
Você não avalia como ando adoentado e incapaz. Só para esta correspondência com V. é que me sinto com coragem, pois cada vez lhe quero mais bem, e a consciência, não menos que o coração, me diz que V. tem sido, desde que o encontrei, uma das mais altas provas da bondade de Deus para comigo. Pois é raro, meu caro A., é raro, no acidentado terreno da vida, uma sombra tão larga e tão carinhosa de confiança e amizade.
Seu
Jackson.

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Fonte: Correspondência, Jackson de Figueiredo, Ed. ABC, carta de 9-8-1927, pág.89-96. (A. é de Alceu Amoroso Lima).

2 comentários em “Achados & Perdidos (2) – Jackson de Figueiredo

  1. Olá, Beto!

    Sim, sim, o Cinema Elegante não será mais atualizado. Fecharei definitivamente suas portas quando diminuir a frequência de visitantes, ainda considerável.

    Bom saber que voltou a escrever.

    Grande abraço.

    Curtir

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