Meia semana carioca


Por uma semana incompleta, a janela do meu quarto de hotel enquadrará algumas árvores e uma nesga do céu do bairro do Flamengo. Entre visitas comerciais e reuniões que o trabalho me obriga a conduzir, devo encontrar amigos e curtir parte de minha dose anual obrigatória do iodo que emana gratuitamente das praias cariocas.
Afinal, hora de trabalhar, pernas pro ar (nem que seja um pouco), porque ninguém é de ferro, como diria o velho poeta pernambuco Ascenso Ferreira.
Se encontrar tempo e coragem devo postar aqui algumas impressões que a semana for depositando em minhas retinas cansadas.
Pretendo garimpar alguns livros em sebos do Rio e bater o ponto no pôr-do-sol enquadrando os Dois Irmãos, com uma água de coco ajudando a digerir as agruras do comércio – que espero sejam mínimas nessa semana e, para tanto, adotarei a jornada inglesa.
Hoje, acordei cedo e caminhei na praia, com o contato raríssimo dos pés com a areia e a água fria da praia do Flamengo. O aterro recebia sua freguesia de costume, tudo caminhava em aparente calma, enquantos os aviões pousavam em Santos Dumont  – corrige-me o bom amigo português (JM) do erro constante de me referir ao velho aeroporto carioca como se fosse Congonhas, erro que até os taxistas cariocas já me alertaram várias vezes – Santos Dumont, sr! Estamos no Rio… -, o Cristo velava pela cidade e o bondinho começava sua jornada ávido por carregar turistas incautos. Minhas retinas fixam os dois morros nessa primeira manhã e numa prece silenciosa peço por uma semana de paz e êxito no trabalho.
No avião e no quarto de hotel, uma só leitura disponível por ora (além do Novo Testamento, das gavetas de hotel), meu inseparável Julien Green (que minha mulher costuma dizer que é o porta-voz de desgraças imensas) e que eu prefiro pensar (como Jackson de Figueiredo), como sendo aquele que dá voz aos demônios da poeira e da mediocridade.
Pra começar a semana, nada melhor que refletir sobre essas duas pequenas passagens:

De quel secours la raison était-elle jamais dans les grands moments de la vie?
S’il fallait se déplacer toutes les fois qu’on est malheureux, les compagnies de chemins de fer ferait fortunes
Bien de fois elle avait remarqué aussi que l’avenir changeait toujours d’aspect lorsqu’il devenait le présent, soit qu’il donnât moins qu’il n’avait promis, soit qu’on commît une erreur sur la qualité du bonheur escompté, et qu’on obtînt des pauvretés à la place de ce que l’imagination avait entrevu. N’était-il pas plus sage de faire en soi le silence et d’accepter docilement ce que les heures apportent d’ennui ou de plaisir sans dépenser par avance l’ennui et le plaisir de demain?”
+++
Fonte: Julien GREEN, Léviathan (roman), Fayard, Paris 2007.

3 comentários em “Meia semana carioca

  1. Caro amigo,
    Boa estada no Rio. Bons negócios e retorne em paz. Se for possível, um abraço na Marisa, não tão pertinho de você, mas um pulinho de taxi. Ela certamente irá gostar de te rever.

    Farterno abraço

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  2. Carissimo:

    Muito bonito, gostoso de ler seu texto. Como eu disse em outra ocasião, estás escrevendo cada vez melhor.

    Abraços e boa estadia no Rio!

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  3. Buena semana, Beto!! Certamente haverá anjos em volta de ti, iluminado que és. A luz atrai a luz e, bondosa e meiga, sempre que permitido, se debruça sobre a sombra de que também somos parte. O Rio é belo, inspirador, marítimo. Tu, esritor inspirado. Mais luz ainda,mais inspiração é o que te deseja, Si.

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