Rivalidade mimética


Essa foto publicada na capa do principal jornal diário de Goiânia me leva a romper com o propósito de não voltar ao tema religião.

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Há uma série de temas na cabeça, confesso: aviões (excluído), futebol (irascível), política (deprimente), resenhas (adiáveis), humor (excluído pela inabilidade do autor), resenhas de livros (adiadas), cinema (tantos diretores amados que se foram) etc.

Entanto, a capa do diário me lembra uma leitura de Agostinho e da minha lista de galicismos d´alma (Tolentino, 2001)… E assim o tema venceu.
Que me perdoem os 5 leitores (e, principalmente, meu dileto amigo Chico Escorsim autor de um dos mais afetuosos comentários que minha caixa de comentários em 3 edições de blogs, desde 2003, jamais testemunhou!).

Quedo-me, no entanto, ao tema religioso olhando para a realidade do dia-a-dia – lendo jornais quando os livros teriam a melhor das soluções. E tento fazer o link entre essas duas saídas do pensar; e, aos costumes, digo nada, pois que não me parece que exista interpretação mais fantástica que esta advinda da leitura antropológico-religiosa de René Girard e sua releitura de Santo Agostinho.

Há os gêmeos que caem na disputa – o que é a “rivalidade mimética” (Girard) e que me caem na rotina deste primeiro dia de agosto como uma evidência objetiva da teoria-prática – fato comezinho, que pode ter passado despercebido ao normal dos leitores (tanta arte na foto de Cristina Cabral): foto-legenda perfeita para episódios imensos de nossa rotina de pecados como o velho (e sábio) texto de Agostinho (neste que é o dia de São Inácio de Loyola, um homem de Oração).

Ouve-me, Senhor! Ai dos pecados dos homens! É um homem que assim fala; e dele te compadeces, porque és o seu Criador, e não o autor do seu pecado. Quem me poderá lembrar os pecados cometidos na infância, já que ninguém há que diante de ti seja imune ao pecado, nem mesmo o recém-nascido com um dia apenas de vida sobre a terra? Quem, senão um pequerrucho, onde vejo a imagem daquilo que não lembro de mim mesmo? Qual era então o meu pecado? Seria talvez o de buscar avidamente, aos berros, os seios da minha mãe? Se mostrasse hoje a mesma avidez, não pelo seio materno, é claro, mas pelos alimentos próprios da minha idade, seria justamente escarnecido e censurado. (…)

Com o crescer dos anos, extirpamos e atiramos fora tais defeitos, e nunca vi ninguém que, para cortar o mal, rejeitasse conscientemente o bem! Ou seria justo, mesmo tendo em conta a idade, exigir chorando o que seria prejudicial, indignar-se com a violência contra os homens adultos e de condição livre, e contra os pais e outras pessoas sensatas que não aceitavam satisfazer a certos desejos?

(…)

Portanto, a inocência das crianças reside na fragilidade dos membros, não na alma. Vi e observei bem uma criança dominada pela inveja: não falava ainda, mas olhava, pálida e incitada para seu irmão de leite. Quem já não observou esse fato? Dizem que as mães e amas têm não sei que remédio para eliminar tais defeitos… sem dúvida, não é inocente a criança que, diante da fonte generosa e abundante de leite, não admite dividi-la com um irmão, embora muito necessitado desse alimento para sustentar a vida.”

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Fonte: Confissões“, S. Agostinho, pág. 24, Ed. Paulus, 17ª. Ed., 2004.

 

Um comentário em “Rivalidade mimética

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