Notas de leitura (V.Frankl)

“TODO ser Humano procura (ou tem a tendência a procurar) SENTIDO naquilo que faz, SENTIDO na própria VIDA.”
Sem isso, não nos ajustamos ao que fazemos nem à própria vida; sem isso, caímos na tendência a funcionar de forma desajustada (quebrada), sentindo um mal-estar permanente.
A expressão desse desajuste pode ser sentido no aumento das neuroses do tempo hodierno, nas doenças psíquicas, no caos mental. Sintomas desse mal do século: violência, vícios e suicídio…
Por tudo isso, melhor é PROCURAR um SENTIDO para a Vida.
O fim-de-ano é propício a refletirmos ainda mais sobre isso…

Eric Voegelin, by Michael Federici

No meu anseio de aprofundar o conhecimento do pensamento de Eric Voegelin, adquiri novos livros nessa minha jornada no Arizona (dez, 08/jan, 09). Devo como sempre mais à Amazon do que a Barnes & Noble. A primeira acha o que não tem em estoque e te entrega, com rapidez e exatidão. A segunda, por seu turno, mirrou sua prateleira de bons filósofos e adotou a prateleira de filosofia miúda, i.e., Filosofia = Ateísmo.  Sorry about that, guys. Na B&N você encontrará o mesmo e bom café da Starbucks, mas a filosofia…(what a shame) com f minúsculo.

Pois bem, foi na Amazon que encontrei esta magnífica introdução ao pensamento de Eric Voegelin. A atendente ilustrada mas apática  da Barnes sequer sabia pronunciar e jamais tivera notícia do nome de Voegelin!

O livro de Michael Federici é da excelente coleção da ISI Books (Wilmington, Delaware), ed. 2002, intitulada “Library of Modern Thinkers” e tem entre outros escritores os ilustres nomes de Ludwig Von Mises, Robert Nisbet, Wilhelm Röpke, Jouvenel e Richard Weaver.

Como ainda não tenho uma resenha do livro, uso a idéia de transcrição de trechos como uma isca para que você, ao contrário da nada simpática atendente da B&N de Surprise (Az), se interesse por Voegelin.

Library of Modern Thinkers, ISI Books, 2002
Library of Modern Thinkers, ISI Books, 2002

Caracterizando a Crise da “Western Civilization” como um “processo que vem de um século e meio atrás” e que talvez persista por mais um século, Voegelin levanta o que chama de “Western disorder“,  elaborando a genealogia que exige “thinkers, ideas and historical experiences that often have been given scant or improper attention by scholars be put in their proper context“. Um exemplo desse tipo de gente é Augusto Comte (1798-1857). Voegelin o caracteriza como “is the first great figure of the Western crisis” and referes to him as “a spiritual dictator of mankind“. E lista outras figuras ao longo do séc. XVIII como d´Alembert, Voltaire, Diderot, Bentham e Turgot. Esses autores, juntos, são responsabilizados por “have mutilated the idea of man beyond recognition“.
Essa mutilação é descrita por Voegelin (de acordo com Federici) como “reduction of man and his life to the level of utilitarian existence” – ´an attitude that is ubiquitous in contemporary Western culture.  This mutilation included the loss of the Christian understanding of mankind`.
Segundo Voegelin, citado por MF:

“There arises the necessity of substituting for transcendental reality an intrawordly evocation which is supposed to fulfill the functions of transcendental reality for the immature type of man. As a consequence, not only the idea of man but also the idea of mankind has changed its meaning. The Christian idea of mankind is the idea of a community whose substance consists of the Spirit in which the members participate; the homonoia of the members, their likemindedness through the Spirit that has become flesh in all and each of them, welds them into a universal community of mankind. (cit. de “Enlightening to Revolution – FER”, Duke Univ. Press, 1975, pág. 95-96).

Individuos como Turgot, Voltaire, Diderot e Bentham transpõem essa ideia clássica e cristã do homem para um modelo que deprecia a natureza espiritual do homem, afirma Federici. E assim, transpõem a comunidade de indivíduos (a fraternidade cristã) em uma massa total e anônima, presa apenas por um ideal. Essa “masse totale” é o que se chama de construção ideal de Turgot. A visão utilitária em que seres humanos são contados como o valor que dão à construção do ´progresso`.  O positivismo contribui assim para a corrupção espiritual, numa clara crise que é, no final, de caráter existencial.

Se existe uma restauração possível – e ao autor não parece uma tarefa tão rápida – essa seria recobrar a consciência dessa “masse totale” , o que não é difícil apenas nas sociedades totalitárias mas também em países de tradição cristã como os EUA, diz Federici, interpretando Voegelin.  Nos EUA, Voegelin nota que esforços de restauração da Ordem terão que enfrentar “the soul-killing pressure of the progressive creed” (FER, 102), assinala Federici. Mas Voegelin é firme em sua posição e dá-nos uma lição digna deste dia de São Brás (em que escrevo este post):

No one is obliged to take part in the spiritual crisis of a society; on the contrary, everyone is obliged to avoid this folly and live his life in order
(Science, Politics and Gnosticism, Chicago, Regnery Gateway, 1968, p.22-23, apud Federici).

Paz e Bem!

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Fonte: Federici, Michael P. “Eric Voegelin: the restoration of order“/ 1st. ed. – Wilmington, Del.: ISI Books, 2002.

(1) scant – adj. escasso, raro; limitado, reduzido; estreito; deficiente.

Post-post:

Voegelin, Eric, 1901-1985

Hitler e os alemães / Eric Voegelin; introdução e edição de texto
Detlev Clemens e  Brendan Purcell; tradução Elpídio Mário Dantas Fonseca.

– São Paulo: É Realizações, 2007. –

(Col. Filosofia Atual)

Título original: Hitler and the Germans

ISBN 978-85-88062-49-8

CDD-943.086092

Índice do catálogo sistemático: 1.Alemanha : Chefes de estado : Período do 3º Reich :

Biografia 943.086091

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Voegelin, Eric, 1901-1985

Reflexões autobiográficas / Eric Voegelin; introdução e edição de texto Ellis Sandoz ; tradução Maria Inês de Carvalho ; Notas Martim Vasques
da Cunha. – São Paulo: É Realizações, 2007. –

(Col. Filosofia Atual)

Título original: Hitler and the Germans

ISBN 978-85-88062-50-4

CDD-193

Índice do catálogo sistemático: 1.Filósofos Alemães : Biografia e obra 193

Biografia 943.086091

Rivalidade mimética

Essa foto publicada na capa do principal jornal diário de Goiânia me leva a romper com o propósito de não voltar ao tema religião.

capa-popular.jpg

Há uma série de temas na cabeça, confesso: aviões (excluído), futebol (irascível), política (deprimente), resenhas (adiáveis), humor (excluído pela inabilidade do autor), resenhas de livros (adiadas), cinema (tantos diretores amados que se foram) etc.

Entanto, a capa do diário me lembra uma leitura de Agostinho e da minha lista de galicismos d´alma (Tolentino, 2001)… E assim o tema venceu.
Que me perdoem os 5 leitores (e, principalmente, meu dileto amigo Chico Escorsim autor de um dos mais afetuosos comentários que minha caixa de comentários em 3 edições de blogs, desde 2003, jamais testemunhou!).

Quedo-me, no entanto, ao tema religioso olhando para a realidade do dia-a-dia – lendo jornais quando os livros teriam a melhor das soluções. E tento fazer o link entre essas duas saídas do pensar; e, aos costumes, digo nada, pois que não me parece que exista interpretação mais fantástica que esta advinda da leitura antropológico-religiosa de René Girard e sua releitura de Santo Agostinho.

Há os gêmeos que caem na disputa – o que é a “rivalidade mimética” (Girard) e que me caem na rotina deste primeiro dia de agosto como uma evidência objetiva da teoria-prática – fato comezinho, que pode ter passado despercebido ao normal dos leitores (tanta arte na foto de Cristina Cabral): foto-legenda perfeita para episódios imensos de nossa rotina de pecados como o velho (e sábio) texto de Agostinho (neste que é o dia de São Inácio de Loyola, um homem de Oração).

Ouve-me, Senhor! Ai dos pecados dos homens! É um homem que assim fala; e dele te compadeces, porque és o seu Criador, e não o autor do seu pecado. Quem me poderá lembrar os pecados cometidos na infância, já que ninguém há que diante de ti seja imune ao pecado, nem mesmo o recém-nascido com um dia apenas de vida sobre a terra? Quem, senão um pequerrucho, onde vejo a imagem daquilo que não lembro de mim mesmo? Qual era então o meu pecado? Seria talvez o de buscar avidamente, aos berros, os seios da minha mãe? Se mostrasse hoje a mesma avidez, não pelo seio materno, é claro, mas pelos alimentos próprios da minha idade, seria justamente escarnecido e censurado. (…)

Com o crescer dos anos, extirpamos e atiramos fora tais defeitos, e nunca vi ninguém que, para cortar o mal, rejeitasse conscientemente o bem! Ou seria justo, mesmo tendo em conta a idade, exigir chorando o que seria prejudicial, indignar-se com a violência contra os homens adultos e de condição livre, e contra os pais e outras pessoas sensatas que não aceitavam satisfazer a certos desejos?

(…)

Portanto, a inocência das crianças reside na fragilidade dos membros, não na alma. Vi e observei bem uma criança dominada pela inveja: não falava ainda, mas olhava, pálida e incitada para seu irmão de leite. Quem já não observou esse fato? Dizem que as mães e amas têm não sei que remédio para eliminar tais defeitos… sem dúvida, não é inocente a criança que, diante da fonte generosa e abundante de leite, não admite dividi-la com um irmão, embora muito necessitado desse alimento para sustentar a vida.”

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Fonte: Confissões“, S. Agostinho, pág. 24, Ed. Paulus, 17ª. Ed., 2004.

 

A piscina do Sagrado

domingo, 8 de outubro de 2006
A piscina do sagrado

Sonho proteína
Leite condensado
Caio na piscina
Do Sagrado
”(*)

Avalanche de informações, embates na rua, na tv – quem lê tanta notícia? e mais tantos reclames que rondam a cabeça, assim a cabeça roda num mundo cheio de alarido. São Tiago me proteja, ouço, calado e cabisbaixo, seu exemplo na igreja dos santos e dos mártires – há muito barulho no mundo, ruído, roído, o espaço pequeno em volta da mesa, a mesa tão rara, a conversa real sumida, puída – queria castrar o adjetivo e não posso ou preciso do facão do Mourão, da esgrima do Tolentino, da pena o Lima – eu, estou agora só, diante da (minha) Nossa Senhora de Aparecida à beira da cama, e só assim consigo conciliar sono e descanso e paz, e repouso, depois do beijo da mulher amada quando é tarde e o corpo arde – rima sem solução, raimundo, raimundo aquele do vasto mundo, em busca da rima e pobre de inspiração.

Tem o homem esse buraco no peito, por isso mesmo não basta “nomear todos os animais dos campos e todas as aves do céu” – é preciso que tenha a seu lado, “osso dos seus ossos, carne de sua carne” para se sentir inteiro, ah, os filhos de eva, somos todos nós, ora bradamos: queremos o retorno ao sagrado. Ah, a cosmogonia, ah a biblioteca de nossos sonhos, ah, divino altar, onde o sacrifício de Cristo é rememorado, do nascer ao pôr-do-sol…se o sagrado nos falta, aproximamo-nos, céleres de um abismo. E a idéia, donde vem, e a inspiração que contem?
– “De Deus é que vem a idéia”, prega Levinas. E hei de um dia encontrar-me pronto para compreender, como sonham entender no versículo: “de seu ventre brotarão fontes de água viva”. Ah, a poesia sem medo da ciência, a poesia que se faz calda, na moeda do pensar, a poesia de um são Jorge de Lima. Eis uma fonte d´água fresca que reconforta:

“Debruça-te sobre tua voz para escutá-la:
tua voz existiu antes de tua forma.
Se o alarido do mundo não te permite entendê-la,
vai para o deserto,
e então a ouvirás com a inflexão inicial das palavras do Verbo
e com a fecundidade do Gênese ante o Fiat do Pai.
Ouve a tua voz sobre a montanha para que o divino eco
atravesse os milênios
e reboa dentro de ti que é o tempo de Deus!

“Ouve a tua voz entre as massas humanas
que como o mar se tornarão fecundas
e espalharão a palavra do Livro
pelas águas e pelos continentes.”

Oh, desejo supremo de ser ventríloquo do divino Pai Eterno. Oh, desejo santo, desejo de santificar a vida – há santos entre nós e não os enxergamos – Ah, Bendito seja o desejo de Sabedoria: “para que a poesia tenha a tua marca, Senhor”.
A idéia de Deus, do Deus em mim, não fui eu quem a inventou e não assisti ao congresso em que os filósofos se reuniram para criar a idéia de Deus. Eu digo com Jung que “naturalmente é impossível provar a Sua existência. De que maneira – pergunto em meio às águas da piscina do sagrado:
– “De que maneira uma traça que se alimenta de lã da Austrália poderia demonstrar às outras traças que a Austrália existe?”
E por isso consigo o sono azul na azulíssima piscina do sagrado. Azul é a cor de teu manto, minha Mãezinha, azul é o mundo que sonho na paz e na doçura. Eu te saúdo, ó Rainha, para dormir em paz, no silêncio da paciência que não pede demonstrações.
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Fontes: Péricles Cavalcanti, Levinas, Jorge de Lima, Carl Jung, S.João 7,38.

Escrito e publicado em 08/10/2006, no Verbeat, às 10:49 | Poesia Brasileira, Religião | Ouse dizer! (0)

Julián Marías

“A felicidade é para as pessoas o que a perfeição é para os entes”.

Com esse pensamento-síntese, idéia “arrancada do grande rincão que é a obra de Leibniz“, poderíamos sintetizar o livro de Julian Marías*.
Marias

Sempre que termino a leitura de um livro dessa grandeza, penso em como a literatura, em seus diversos estilos e gêneros, pode ajudar-nos – sem cair na prateleira ostensiva do termo auto-ajuda! – a enxergar melhor, a ser melhores, convivendo com mais integração com o mundo à nossa volta; e com nossos semelhantes em nossa caminhada como cristãos.

Livros, filmes, discos, relatos, conferências podem abrir-nos rumos para a nossa busca da felicidade – dentro da “realidade projetiva” que somos, pois, afinal, como bem conclui Marías: “nossa vida consiste no esforço por alcançar parcelas, ilhas de felicidade, antecipações da felicidade plena”.

Dia desses recebi um dessas mensagens iluminadas de um dos meus brilhantes amigos, que ainda escrevem em blogs para exaltar o Bem, o Belo e o Verdadeiro (seus posts são comentados por muito poucos, pois, a maioria prefere o ruído vazio do sensualismo e da exaltação dos ‘valores’ da modernidade descrente de tudo). Pois bem, este amigo me dizia sobre seu ofício de comentarista:

O que desejo é não me transformar em um Hans Castorp.

A referência é sofisticada, fala do personagem de Thomas Mann (em “A Montanha Mágica”) e está naturalmente coberta de significado, trazendo o condão de afirmar o propósito de desenvolver uma certa pedagogia no seu blog. Hoje, mais do que nunca, é urgente que tenhamos propósitos didáticos indicando através das leituras, dos comentários de audições musicais, na apropriada escolha dos temas, enfim, rumos da verdade num mundo cada vez mais dominado pela mentira, pela empulhação e pela desfaçatez.

Eis o propósito que me move a escolher essas citações de Julián Marías. Espero que isso motive o leitor a procurar o livro do pensador espanhol, discípulo de Ortega Y Gasset.

O que se fala nesse livro – que não é de auto-ajuda ressalte-se mais uma vez – ajuda o leitor porque é a meditada e madura reflexão de um homem sábio. Os trinta capítulos que correspondem a 30 conferências em um curso no Instituto de Espanha, com o mesmo título, examina a fundo o significado de felicidade, do passado filosófico aos nossos dias, passando pela mística cristão, o utilitarismo, o reducionismo do ´welfare state` até a antropologia metafísica e à intimidade da vida de cada um.

No fim e ao cabo, torna-se, pois, um livro de auto arazoamento, de convite à reflexão, de convite ao exercício do pensar sobre a felicidade – e, pois, se pode dizer da vida humana, daí porque não é uma referência à felicidade dos cães ou dos animais de criação, mas da Criação por excelência na terra – fala-se da Felicidade Humana.

Num mundo que exalta a infelicidade, um livro assim pode ser um roteiro de pensar como retornar ao projeto original de se continuar procurando a felicidade – esse alvo móvel.

Muitas pessoas deixam a felicidade se perder sem que isso seja inevitável; às vezes, por desgraça o é; mas muitas vezes se a dá por perdida quando o que se perde é algo que, a seu lado, quase não tem importância. Por que isso acontece? Porque não se dá atenção ao que é a condição mesma da vida“.

A felicidade conclui Maríás em um dos mais importantes capítulos (XIX) do livro “é a vida mesma: quando alcança sua plenitude, é felicidade”.

O autor consegue demolir alguns equívocos do pensamento atual que identifica a felicidade com a acumulação de riquezas, a dissipação de si mesmo nos prazeres ou nas atividades sociais, o reducionismo de felicidade como ´bem-estar` e a limitação do horizonte da felicidade à vida terrena (sem a esperança cristã da vida eterna).

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Post originalmente publicado no Verbeat em 29/08/2006.
Fonte: “A Felicidade Humana”, Julián Marias, Ed. Duas Cidades, 1989.