Lucchesi, Drummond e adeus! ano velho…

A tendência do cronista, já disse, é fazer o que todos fazem, mas as listas abundam em redor, melhor fazer um levantamento poético-afetivo do ano que finda. E para isso, as musas me concederam lembrar de dois poetas – Lucchesi, tradutor e escritor e do poeta Carlos Drummond de Andrade, que em sua receita de ano novo, constata que há muitos que insistem em sonhar com o champanhe e a birita para desvelar o que só o interior pode revelar: a fórmula de um bom Ano Novo.
**************Clique na figura abaixo para ler a crônica na íntegra!****************

Destarte 28 DEZ 2017.PNG

Ainda (e sempre!) Emily Dickinson…

 

Um poema de Emily Dickinson
e duas traduções de Paulo Henriques Britto.

 

Original – poem 185* Trad. “A” Trad. “B”
“Faith” is a fine invention Quando se pode enxergar A “Fé” é um ótimo invento
When Gentlemen can see A “Fé” tem conveniência; Quando se enxerga a contento;
But Microscopes are prudent Mas Microscópios convêm Mas numa Emergência, não:
In an Emergency. Em caso de Emergência. Tenha um Microscópio à mão.

(*) Poema 185 na edição de Thomas H. Johnson (Emily Dickinson: The Complete poems, p.87). As traduções estão no livro de P.H. Britto “A tradução literária”, Civilização Brasileira editora, Rio de Janeiro, 2012, nas pág . 134-145, incluindo os didáticos comentários do tradutor, que trarei em um próximo post.
Por ora, fica a pergunta:
Qual a tradução mais lhe agrada, dileto Leitor?

 

Seven-Sided Poem, Drummond in English

UMA DAS excelentes descobertas destas férias na América é (tem sido) a poetisa Elizabeth Bishop.


Comecei lendo-a em nota de Hirsch – em “How to Read a Poem and Fall in Love with Poetry” -, onde o professor Edward Hirsch fala sobre (e transcreve) o poema “One Art” – leia o post com a tradução de Nelson Ascher.

Encontrei em “Uma certa Arte” a magia estudada de Elizabeth – um trabalho laborioso sobre uma forma franco-italiana, adotada pela Poesia norte-americana (villanelle).

Soube depois que Elizabeth vivera no Brasil, onde escreveu muito, entrosou-se na cultura e na vida política e viveu um grande amor, apaixonada que foi pela arquiteta Lota de Macedo Soares (responsável pelo paisagismo do Aterro do Flamengo).

Mesmo confessando nunca ter aprendido a bem falar o português, Elizabeth lia os jornais, livros e conversava com um círculo de amigos de alta cultura no Brasil, onde também recebia amigos e jornalistas norte-americanos, interessados na “imigrante” afetiva. Ela chegou a ter uma casa em Ouro Preto, cidade da qual participou e “palpitou”- p.ex., até mesmo sobre assuntos comezinhos, como a necessidade de a cidade implantar um sistema de esgotos…

E do Rio, sabe-se que Bishop falava mal da falta de infra-estrutura e do mal funcionamento dos mais banais serviços – como elevadores nos prédios de então – isso aparece em suas cartas e até mesmo em Poemas:

Ó, turista,
então é isso que este país tão longe ao sul
tem a oferecer a quem procura nada
[menos
que um mundo diferente, uma vida
[melhor?
**** No original:
“Oh, tourist,
is this how this country is going to answer you
and you immodest demands for a different world,
and better life, and complete comprehension
of both at last, and immediately,
afeter eighteen days of suspension?
“Chegada em Santos”, 1952, tradução de Paulo Henriques Britto

Mas voltemos ao foco deste post que o Poema das Sete Faces do poeta Carlos Drummond de Andrade. Elizabeth Bishop encontrou soluções interessantes para o difícil (e quase intraduzível) quinteto drummondiano:

“Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mas vasto é meu coração.
(CDA).

Pois bem, de forma criativa e ‘imaginosa’, Bishop faz de Raimundo um Eugene, de mundo, Universe; e mantém a rima no estilo próprio, com o acento anglófono – com um bom resultado:

“Universe, vast universe,
if I had been named Eugene
that would not be what I mean
but it would go into verse
faster.
Universe, vast universe,
my heart is vaster.”

No entanto, ciente das limitações que sua versão podia conter, transcreve o quinteto em português, permitindo ao leitor tirar suas conclusões.
Abaixo, transcrevo o poema na versão inglesa, na íntegra:

SEVEN-SIDES POEM (Poema das 7 faces) – Carlos Drummon de Andrade, vertido ao inglês por E. BISHOP.DrummondandBishop

When I was born, one of the crroked
angels who live in shadow said:
Carlos, go on! Be gauche in life.

The houses watch the men,
men who run after women.
If the aftrnoon had bee blue,
there might have been less desire.

The trolley goes by full of legs:
white legs, black legs, yellow leg.
My God, why all the legs?
my heart asks. But my eyes
ask nothing at all.

The man behind the moustache
is serious, simple and strong.
He hardly ever speaks.
He has a few, choice friends,
the man behind the spectacles and the moustache.

My God, why has Thou forsaken me
if Thou knew’st I was not God,
if Thou kenw’st that I was weak?

Universe, vast universe,
if I had been named Eugene
that would not be what I mean
but it would go into verse
faster.
Universe, vast universe,
my heart is vaster.

I oughttn’t to tell you,
but this moon
and this brandy
play the devil with one’s emotions.
****
FONTE: Livros das fotos acima e blogs, sobretudo em blog-revista Escamandro, onde mais (e aprofundadamente) se pode ler sobre Elizabeth Bishop, seguindo este link (traduções Escamandro).  Deixei de transcrever o poema original de Drummond, por ser de domínio público. (AQ).

No mínimo…dia #8

PIERRE RONSARD (1524-1585), traduzido ao português por Mário Laranjeira.

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Pierre Ronsard

Da série de posts “No mínimo, um poema ao dia”  – Dia 8.

À Cassandre A Cassandra
Mignonne, allons voir si la rose Querida, vamos ver se a rosa
Qui ce matin avait déclose Que esta manhã abriu garbosa
Sa robe de pourpre au soleil Ao sol seu purpúreo vestido,
A point perdu cette vêprée Não perdeu, da tarde ao calor,
Les plis de sa robe pourprée, De sua roupa a rubra cor,
Et son teint au votre pareil. E o aspecto ao vosso parecido.
Las! Voyez comme em peu d’espace, Ah! Vede como em curto espaço,
Mignonne, elle a dessus la place, Querida, caiu em pedaços,
Las! Las! Ses beautés laissé choir! Ah! Ah! A beleza que tinha!
O vraiment marâtre Nature, Ó mesmo madrastra Natura,
Puis qu’une telle fleur ne dure Pois que uma flor assim não dura
Que du matin jusques au soir! Senão da manhã à tardinha!
Donc, si vous me croyez, mignonne, Então, se me dais fé, querida,
Tandis que votre âge fleuronne Enquanto a idade está florida
Em as plus verte nouvautée, Em seu mais viçoso verdor,
Cueillez, cueillez votre jeunesse: Colhei, colhei, a mocidade:
Comme à cette fleur, la vieillesse A velhice, como a esta flor,
Fera ternir votre beauté. Fará murchar vossa beldade.

Este poema de Ronsard é tão famoso que até versão para piano possui. Veja a partitura e o video no link abaixo:

Ronsard_Pianomignonne-allons-piano
 

Fonte: “Poetas Franceses da Renascença”, Seleção, apresentação e tradução de Mário Laranjeira. S. Paulo: Martins Fontes Edit., 2004; p.72/73. Crédito da foto em destaque: ilustração tirada ao blog Blue Lantern, de  (c) Paul Serusier – Mignonne, allons voir si la rose, Fondation Bemberg, Toulouse. Leia Mais em Jane Librizzi.

No mínimo um poema ao dia (dia #3)

No mínimo, um poema ao dia (3)  
Walt Whitman trad. Rodrigo Garcia Lopes
(1819-1892).

Song of Myself (trechos)

EU CELEBRO a mim mesmo,GravuraEmMetal_WhitmanBySamuelHollyer
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você.
Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade . . . . observando uma lâmina de grama do verão.
Casas e quartos se enchem de perfumes . . . . as estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também, mas não deixo.
A atmosfera não é nenhum perfume . . . . não tem gosto de destilação . . . . é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre . . . . estou apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.
A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros . . . . raiz de amaranto, fio de seda, forquilha e
Minha respiração minha inspiração . . . . a batida do meu coração . . . . passagem de
O aroma das folhas verdes e das folhas secas, da praia e das rochas marinhas de cores
videira,
sangue e ar por meus pulmões,
escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz . . . . palavras disparadas nos
redemoinhos do vento,
Uns beijos de leve . . . . alguns agarros . . . . o afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar . . . . apito do meio-dia . . . . a canção de mim mesmo se
erguendo da cama e cruzando com o sol.

***

Tradução de Rodrigo Garcia Lopes em “Folhas da Relva” (ed. Iluminuras); que, segundo IVO BARROSO, “no 150º aniversário da publicação de As Folhas de Relva, a Editora Iluminuras nos oferece os doze poemas iniciais (que compunham a primeira edição), traduzidos por Rodrigo Garcia Lopes, trabalho que embora ainda não ponha o leitor brasileiro diante da obra poética conjunta do bardo americano, pelo menos contribui com uma significativa amostragem dela, acrescida de longo estudo crítico sobre sua importância literária e a vida do autor, que dispensa navegações pela Internet.” (Ler mais poemas de Whitman, na trad. de Ivo N. B.)
Fronstispício da edicao de 1867 de Folhas da Relva_WhitmanLink para o poema no Original inglês.
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Capa_Whitman_Rodrigo

No mínimo, um poema ao dia (I)

Chansons – Canções

De Clément MAROT (1497-1544). clément marot por corneille de lyon (c. 1537)
Tradução de Mário Laranjeira.*

De la rose Da rosa
   La belle Rose, à Venus consacrée,     A bela rosa, a Vênus consagrada,
L’oeil et le sens de grand plaisir pourvoir; Ao olho e olfato tanto prazer dá;
Si vous dirai, dame qui tant m’agrée. Assim direi, senhora que me agrada
Raison pourquoi de ruges on en voit. Por que razão tantas vermelhas há.
 
    Um jour Vénus son Adonis suivait     Vênus um dia acompanhava, à toa,
Parmi jardin plein d’épines et branches, Adônis, num jardim cheio de espinhos,
Les pieds sont nus et les deux bras sans                                                         [manches, De pés descalços, nus os dois bracinhos,
Dont d’un rosier l’épine lui méfait; E da roseira o espinho a magoa;
Or étaient lors toutes les roses blanches, Eram brancas então todas as rosas:
Mais de son sang de vermeilles en fait. Seu sangue as faz vermelhas, gloriosas.
    De cette rose ai jà fait mon profit     Desta rosa tirei o meu proveito
Vous étrennant, car plus qu’à autre chose, Por mais que tudo vos fazer ditosa,
Votre visage en douceur tout confit, Pois vosso rosto, de doçura feito,
Semble à la fraîche et vermeillette rose. Parece a fresca e vermelhinha rosa.

*FONTE: Poetas Franceses da Renascença, seleção, apresentação e tradução de Mário Laranjeira – S. Paulo, Martins Fontes, 2004, p. 22/3.