Poesia Metafísica (2)

Poesia Metafísica
Cenas de poesia explícita em Antologia da Poesia Metafísica.
Poesia Metafísica
Uma Antologia.
Organização, tradução, introdução e notas de
Aíla de Oliveira Gomes

>>AQUI AMOSTRAS DO AMOR “Sensous Thought” na Poesia Metafísica.<< Áudio de Naxos Poetas Metafísicos (em inglês) Retiro outros poemas e outro trecho do TRABALHO CAPRICHOSO feito por minha tradutora predileta – D. Aíla de Oliveira Gomes -, de quem divulgo há muito tempo as traduções impecáveis de Emily Dickinson (devo ainda em breve dedicar-me às traduções de Gerard Manley Hopkins feitas por D. Aíla) – aqui, agora, o foco é em “Poesia Metafísica”. Recorro, ainda, às anotações de leitura de anos atrás. Já havíamos ressaltado o “pensamento e a sensibilidade” advindas da prática da meditação cristã na obra dos poetas desta “escola”. A profundeza da concepção cristã da vida e o forte pendor espiritual que os aproxima da poesia medieval, ainda que composições datadas dos “Seiscentos”. O segundo aspecto ressaltado pela organizadora do volume citado é o “sensous thought em uma aura de wit”. Leia mais

Poesia Metafísica (1)

CEREBRAL e de profunda espiritualidade, eis a Poesia Metafísica, reabilitada para os leitores modernos.
CENAS POÉTICAS DA ANTOLOGIA organizada por Aíla de Oliveira Gomes.

Poesia Metafísica
Uma Antologia, org., trad. introd. e notas de                          D. Aíla de Oliveira Gomes

TRABALHO CAPRICHOSO da minha tradutora predileta – D. Aíla de Oliveira Gomes que já conhecíamos de traduções impecáveis de Emily Dickinson e Gerard Manley Hopkins – agora selecionou, organizou, traduziu e, ainda mais, brindou-nos com uma introdução magnífica deste volume de 1991, pela Schwarcz Editora (Cia das Letras).

Retiro o volume da estante com as anotações de 1993, feitas à época sob o influxo dos estudos que eu fazia e que me foram úteis à minha própria visão de mundo e do fazer poético.

Se T.S. Eliot compôs um clássico ensaio (“The metaphysical poets”) sobre a chamada poesia metafísica do séc. XVII, D. Aíla, com sua introdução a essa Antologia, alcança o mérito de nos situar nessa releitura de Eliot, como um guia seguro do leitor moderno que se aventura a viajar nesta “amálgama muito típico de paixão e pensamento“.

Pensamento e Sensibilidade
Tomamos gosto e passamos a apreciar essa “unificação do pensamento e sensibilidade” que entre os poetas metafísicos foi favorecida e exercitada pela prática da meditação sobre os temas religiosos fundamentais, muitas vezes desenvolvida na forma de oração mental.
A meditação cristã tem raiz em santo Inácio de Loyola (Exercícios Espirituais, 1548), relata-nos dona Aíla. John Donne, de família e formação católica muito enraizada, recebeu influência de seu tio, missionário jesuíta, que, ao que consta, morreu como mártir da Fé católica. Robert Southwell, poeta jesuíta e fervoroso adepto da meditação, teria sido o iniciador do movimento poético de “sensous thought” (Marz).
Três estágios são observados na meditação jesuítica:
i) Composição do cenário;
ii) Súplica ou análise de uma situação;
iii) Tentativa de comunicação com a divindade ou “exortação do devoto a si próprio, no sentido de um compromisso com seus bons propósitos.
São Francisco de Sales preconizava a prática da meditação cristão, à qual fora introduzido por Nicholas Ferrar, piedoso anglicano de Little Gidding. O livro de S. Francisco de Sales – “Introdução à vida devota” (1609) é inspiração para os católicos do séc. XVII na Inglaterra. Seria, segundo dona Aíla, “de natureza mais suave que a recomendada por Loyola em “Exercícios Espirituais”.

“A profundeza da concepção cristã da vida e o forte pendor espiritual entre os poetas metafísicos  – o humano, para eles, estando indissoluvelmente ligado ao divino – aproxima-os em sua inspiração, mais da poesia medieval (naturalmente em outra ambiência cultural) que da elisabetana; com esta, seus pontos de contato consistem no cunho erudito da arte que praticavam, na adoção frequente de certas formas poéticas – mormente o soneto -, no gosto pela imagística de navegação e descoberta de novas terras, no tema do efêmero da vida.” (Aíla de Oliveira Gomes).

Dois Poemas de Poesia Metafísica

1) John Donne – Preleção sobre a Sombra

Espera, que uma preleção eu vou te ler,
Amor, sobre o amor e sua filosofia.
Nessas três horas de nosso lazer,
Aqui vagando, um par nos precedia
De sombras, que eram por nós mesmos projetadas;
Ora o sol está a pino sobre nós, tu vês,
E nossas sombras, sob nossos pés;

E tudo se reduz à brava claridade.
Assim, ao que nosso amor infante crescia,
Nossas sombras, o nosso disfarce, sumia
De nós e nossos medos; mas avança o dia.

Nenhum amor atinge o seu mais alto grau
Enquanto a vista alheia teme, como um mal.

A menos que o amor no zênite haja parado,
Produziremos novas sombras do outro lado.
Se as primeiras servem a nos ocultar,
Aos outros cegando; estas, a atuar
Atrás de nós, é qual a nós mesmos cegar.
Se nosso amor definha e declina  no poente.
Tu a mim e eu a ti, falsamente,
Nossas ações deixamos se disfarcem
Entre nós. As sombras da manhã se desfazem;
Estas crescem sempre mais, todavia,
Pois, ai! se o amor se esvai, curto é o dia.

O amor é uma luz sempre crescente e constante;
Seu primeiro minuto após meio-dia é noite.

2) Henry Vaughan – Instante.

INSTANTE, poema de Henry Vaughan
Instante – poema de Henry Vaughan, trad. Aíla de Oliveira Gomes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:


(1) Seg. Louis L. Marz, cit. by Aila de Oliveira GOmes.
(2) Poesia Metafísica / William Shakespeare…[et alli]; seleção, tradução, introdução e notas Aíla de Oliveira Gomes. – S. Paulo: Companhia das Letras, 1991.
1.Poesia Inglesa – Coletâneas I.Shakespeare, William, 1564-1616. II. Gomes, Aíla de Oliveira.
ISBN 85-7164-198-6.


Emily Dickinson, a natureza e suas cores…

Sunset (c) foto Webshots.com, by Kevin McNeal
Sunset (c) foto Webshots.com, by Kevin McNeal


Emily Dickinson

A Natureza raro usa o amarelo,
Antes prefere outros tons;
Reserva-o todo para o pôr-do-sol;
Azul, gasta aos borbotões.

Como a mulher abusa do carmim,
Mas o amarelo – esta cor
Com parcimônia a seleciona, – assim
Como palavras de Amor.

+++++

Fonte: DICKINSON, Emily. “Emily Dickinson: Uma Centena de Poemas”, tradução de Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Editora/USP, 1985. p. 128/9.

Emily Dickinson (“uma centena de poemas”)

QUÃO SABOROSAS SÃO AS MANHÃS DE SÁBADO… Tanto mais quando as completamos com poesia.

ABRO “Uma Centena de Poemas”(*) ao acaso, como quem abrisse um breviário. E me vem este presente:

Trad., introd. e notas de Aíla de Oliveira Gomes
Trad., introd. e notas de Aíla de Oliveira Gomes

Dizem, ‘com o tempo se esquece’,
Mas isto não é verdade,
Que a dor real endurece,
Como os músculos, com a idade.

O tempo é o teste da dor,
Mas não é o seu remédio –
Prove-o e, se provado for,
É que não houve moléstia.
(686)
School

E virando a página:

“Um pensamento me veio hoje à mente
Que já antes me ocorreu.
Não o concluí; foi tempo atrás; que ano
Não lembro corretamente;

Nem para onde foi, nem porque veio
A mim por segunda vez;
Nem, em definitivo, o que ele era
Tenho a arte de dizer.

Mas – em algum canto – em minha alma – eu sei
Que já encontrei Coisa assim –
Foi só um relembrar – foi tão somente –
E já não mais veio a mim.
(701)

 

+++++
Fonte: DICKINSON, Emily. “Uma Centena de Poemas”. Trad., introd. e notas por Aíla de Oliveira Gomes. T.A. Queiroz/USP, S.Paulo, 1984, p. 100/103.

Ver também os poemas no original:
606
They say that “Time assuages” –
Time never did assuage –
An actual suffering strengthens
As Sinews do, with age –

Time is a Test of Trouble –
But not a Remedy –
If such it prove, it prove too
There was no Malady –


701
A Thought went up my mind today –
That I have had before –
But did not finish – some way back –
I could not fix the Year –

Nor where it went – nor why it came
The second time to me –
Nor definitely, what it was –
Have I the Art to say –

But somewhere – in my Soul – I know –
I’ve met the thing before –
It just reminded me – ‘twas all –
And came my way no more –
© Emily Dickinson, trad. AÍLA DE OLIVEIRA GOMES.

Emily dickinson: Uma centena de poemas

Tie the Strings to my Life, My Lord
279
Tie the Strings to my Life, My Lord,
Then, I am ready to go!
Just a look at the Horses—
Rapid! That will do!
Put me in on the firmest side—
So I shall never fall—
For we must ride to the Judgment—
And it’s partly, down Hill—
But never I mind the steeper—
And never I mind the Sea—
Held fast in Everlasting Race—
By my own Choice, and Thee—
Goodbye to the Life I used to live—
And the World I used to know—
And kiss the Hills, for me, just once—
Then—I am ready to go!”
——emily-dickinson-photo1
Este poema na tradução de dona Aíla de Oliveira Gomes, ficou assim:
Ata-me as cordas à Vida, Senhor,
Ata-me as cordas à Vida, Senhor,
Pronto, já posso partir!
Só um olhar à montaria,
Rápido! Podemos ir!
Põe-me do lado seguro
Para eu não me desprender –
Pois p’ra o Juízo rodamos
E há ladeiras a descer.
Mas não me importa o mar –
Segura, na última rota –
Escolha nossa – a encetar.
Adeus, Vida que vivi
E mundo que conheci!
Beijai por mim as colinas –
Pronto, já posso partir!
‘/.
Fonte: DICKINSON, Emily. “Uma Centena de Poemas”, tradução, introdução e notas por Aila de Oliveira Gomes. S.Paulo, T.A.Queiroz/Ed. USP, 1984. pág.

Emily Dickinson, ainda uma centena de poemas

Are Friends Delight or Pain?
Could  Bounty but remain
Riches were good –,

But if they only stay
Ampler to fly away
Riches are sad.
++++++++++++++++++++

Amigos são dor ou ventura ?
Durasse sua fartura
A riqueza era boa.
Se eles, porém, só se demoram
Cobrando força p’ro vôo –
A riqueza é agrura.

++++

Poema 1199, p.136/7, “Emily Dickinson: Uma Centena de Poemas”, Edit. T.A.Queiroz/USP, S.Paulo, 1984. Tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes.
Nota da tradutora:
“A medida curta, tercetos de 6-6-4 sílabas, com 3-3-2 acentos, foi substituída por outra, de 8-7-6 sílabas, com os mesmos números de acentos tônicos (forçado, uma vez, na primeira estrofe). As liberdades tomadas quanto ao esquema rítmico não só encontram respaldo no encontro  ‘sad’ e ‘good’ (Vs. 3 e 6 do original) como são compensadas por todos os finais de versos mantidos numa área vocálica constante, entre /u/ e /o/.
“Amor e amizade, nos poemas de Emily Dickinson, estão sempre ligados à separação. A miséria, para a abelha, é a sua separação da rosa” (cf. 620).
Provavelmente, dona Aíla queira se referir a (211), assim traduzido:
“Chega apressada à flor,
Zumbe em volta a sua alcova
Avalia o néctar,
Entra – e se afoga em bálsamos (211).

No original inglês:
(Reaching late his flower,
Round her chamber hums –
Counts his nectars –
Enters – and is lost in Balms.)
(p.48/49, op. Cit.)

Emily Dickinson, “almost a poem a day”

Hoje, pretendo unir três pessoas que aprendi a amar, desde que comecei a ler os poemas de Emily DICKINSON.
Dona Aíla, como sabem meus 3 leitores: a minha tradutora predileta de Emily, está hoje ao lado de Helen VENDLER, autora celebrada de “Dickinson, Selected Poems and Commentaries” (Harvard University Press, London, 2010, UK).

Aos que gostam de aprofundar suas leituras em crítica literária, recomendo a resenha do Washington Post ao livro de Helen Vendler no WP, que sintetizo com esse parágrafo:

“Emily Dickinson is certainly never going to be an easy poet to understand, but her dense, poignant lyrics are now a lot more accessible to ordinary readers thanks to Vendler’s unravelings. If you’re going to read Dickinson, this “selected poems and commentary” is the place to start.”

Emily Dickinson (1830-1886) deixou perto de 1.800 poemas. Segundo Vendler, “em alguns anos apaixonados, escreveu quase um poema por dia.” Dickinson ficou solteirona, como se sabe — “Myself the only Kangaroo among the Beauty” – cita Vendler. Aparentemente, isso parece vergonhoso, a reclusa solteirona, uma boa mulher cristã morando num lugar calmo do povoado de Amherst, em Massachusetts. Mas a vida interior é bem diferente , pois esta convicta cristã também não é convencional (*). Na visão do eminente crítico Harold Bloom, Dickinson foi simplesmente “the best mind to appear among Western poets in nearly four centuries.”
Selecionei do volume da professora Vendler um poema que trago na tradução de dona Aíla de Oliveira Gomes. Enjoy it, guys.

I CAN wade Grief —
Whole pools of it —   
I ’m used to that.   
But the least push of joy   
Breaks up my feet,          
And I tip—drunken.   
Let no pebble smile,   
’T was the new liquor,—   
That was all!  

Power is only pain —           
Stranded, through discipline,   
Till weights — will hang.   
Give Balm — to giants —  
And they ’ll wilt, like men —
Give Himmaleh,—           
They ’ll Carry — him!

++++++++++++++++

Tradução de Aíla de Oliveira Gomes:

Na dor eu passo a vau —
Charcos inteiros —
Questão de hábito.
Mas um leve esbarro de alegria
Me embaralha os pés,
Perco o equilíbrio — ébria.
Que nenhum seixo se ria —
Bebida inédita —
É só isto!

A força não é mais que dor
No encalhe da disciplina
Até suportar mais fardos.
Dêem bálsamo a gigantes
E — como homens —
Fracos, vergam.
Dêem-lhes o Himalaia —
Eles O carregam!
(252)
——
Fonte: “Emily Dickinson uma Centena de Poemas”. Tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes. T.A.Queiroz/USP. S.Paulo, 1984, pág. 54/55. (*) Ser não convencional, é notável em muitos outros poetas e escritores (inclusive muitos santos e santas). VENDLER, Helen.
“Dickinson, Selected Poems and Commentaries” (Harvard University Press, London, 2010, UK).
Veja páginas anexadas abaixo. Todos os direitos reservados ©VENDLER, Helen.
Post-post: Parafraseando Helen Vendler que afirma: “this is a book to be browsed in, as the reader becomes interested in one or another of the poems … on here”. Assim também este meu sítio… que pode prover leituras e comentários de dona Aíla (e uns poucos meus) sobre os poemas de Emily D. Recomendo também o catálogo de poemas falados (lidos) da autora. Amplie a experiência da leitura.
Para ouvir Emily Dickinson
, poemas lidos por nativos do inglês que nos dão nuances das técnicas poéticas de Emily. Vale a pena visitar o Emily Dickinson no LibriVox e conhecer este e outros poemas da série já publicada e d’outras.

Vendler 1Vendler 2 
Vendler 3Vendler 4