Poemas de esperança (V)

Se toda lua é atroz; se todo sol, amargo
o que seria de ti, oh triste caminhante
desse destino com o peso do desencargo
trazido às costas? sulcas o solo e avante

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Poemas de esperança (memorial)

Goyaz (1)

No outono da vida o sol do cerrado
seca as mesmas sementes — sol a pino:
sementes de abóbora comidas assadas
coisas de antanho com igual desatino.
Cajá-manga devorado com sal, à sexta hora
o gosto arcaico na boca desata sonhar —
feito pamonhas ao leite ou torta de amora
vem só o torniquete do acerbo no maxilar.

Minha avó comendo manga com faca
nas tardes de outrora, parece retornar;
uma sombra morna no sonho que sou.
Igual lembrança aperta de mansinho
a segunda costela à sinistra do sono
e traz o pousoso passado ao ninho.

Poemas novíssimos. Goiânia, 26.01.2017

Poema de Natal

Natal, 2016

Vendo piscantes luzes à vitrine exposta,
à véspera do Natal de Jesus; acende-se
em mim de pronto este mortal desgosto
do falso brilho emanado dessa luz.

Não há nesses presentes ouro, incenso e mirra.
Sábios de bom gosto; presentes de dois mil anos;
antes fossem hoje mimos a compor eterno hino.

Entanto, hoje, não há senão mercadoria
n’alma do infante extasiada e fria —
que marca p’ra sempre a criança inerte.

Há múltiplos bens  todos vazios:
comprando o que de Graça teríamos —
a vida e a alegria do Jesus Menino.

∴∴∴∴∴∴∴

*Draft de poema inédito em livro.

Drafts de poemas (xii)

Chuva feito enxame de abelhas

 – à memória de yêda schmaltz,

I

chuva feito     enxame
de abelhas           que  sobrevoam      –    e querem enxotar –
tomba  em tons e        sobretons, como se sob
o zinco houvessem.

sobre o teto de minha casa  no cerrado esta savana amada  chove  poesia sobre o teto da casa onde a poeta yêda                                                   schmaltz
ante-
vi(u)veu.

eu nem te vi; quem te vê, poeta amiga, sumida nos tempos de antanho; tanta abelha, tanto zumbido tanto som de mato tanto som de rio de riacho.

le douve como o joão leite

                                   rio, riacho       clara     sanga…

la douce                           

la douceur

du sexe, du feu.

II

sons de minha terra e da tua terra e era céu o que via ouvia quando era pequeno e o teto desabava e eu nem era Asterix                                                  nem era nada

do que eu sou agora  –

um nada diante de ti e de tua memória se fosses viva eu te daria um beijo na boca um beijo como só klimt dera em teu poema eu daria uma casa e uma kombi cheia de poesia só para que tu visses ouvisses vivesses o que vivo agora – Withman o que dissera que um menino leria o poema dele (him) –
séculos depois.

Eis-nos: não o dera nada de bandeja para que o menino o lesse – eu o li e tu?
eu o ouvi e a Ti;
(tudo confesso)
fumando um cigarro de folha de chuchu ou diamba – sim, eu ouvi quando a chuva de prata pousou em tua casa do bairro Feliz.

eu vi eu ouvi quando o mato passara pelo couro de gibão do teu avô do meu avô eu prometo que é a mesma coisa do que eu juro eu não esconjuro ninguém                                                       que ouve vozes, como tu, você e eu o fizéramos, mas já nos curamos somos todos uns sem ouvidos – oiças duras somos – uns moucos
uns loucos que não ouvimos mais nada…

 
III

gerardo mourão e hermilo, o borba; e yves bonnefoy, de boa fé ouviam vozes e bruno também – eles ouviam coisas tão claras, tão distintas do sussurro que ouço  sem estrutura que resista.

como em joaquim cardozo, o moço nordestino, nas minas gerais que viu ruir toda a sua (dele, him) estrutura mental

– como quando vozes nenhuma ouvia mais

aquele pobre padre –
o que descreu e não conseguia mais celebrar a Eucaristia!

como quando aquele menino lá do abrigo
teve leucemia como aquele que um dia fez um furo no muro do hospício –

e por ali eu ouvi; ele me ouvia – outros também – o José Décio ouvia,                           José J.Veiga [eu desconfio que também ] –

porque não é possível a ninguém criar nada nesse mundo de meu Deus
se não ouvir vozes,
se não ouvir a chuva como Benedetti a ouvia em menino, se não ouvir o doce  frio friozinho friozão; bão-bá-lá-lão –
de um poeta na contramão…

se não, se não …

poesia pé de poesia poesia pela poesia feito sobrinho e sua tia
poesia sobre si sobre Ti

a mesma mentirosa só:
fingida e fugidia…

IV

pode outra coisa a não ser o poeta fazer assim chover?

– pode essa chuva de poesia no meio da madrugada

acordar a gente dizendo

que está chovendo poesia em nossa horta

– quando hei de me lembrar e quem há de?

fazer ouvido mouco para tanta doidera de ouvir vozes

bastardas vespas zumbindo em nossa cabeça quando a tempestade assume o comando e já não se é ninguém

só a memória de abelhas                                      européias

e de sonetos que o florentino –
(não o meu tio Flô!) escrevia
com giz nas paredes antes de (se) jogar
pela janela do paraíso.

Ω
[Goiânia, Abril de 2016]

Caderno de rascunhos (draft xxvii)

O Tarol*
I
Minha memória musical
alhures em remota escola
toca tarol na banda marcial
e clama o direito de parola.

A sonoridade perdida,
inclusive nos poemas;
– Mas jamais si desirée’ –
“…de la musique
avant toute chose;
et pour cela préfère
L’Impair…”

Voltas, idas e vindas
co’a rara matemática
musical do regente:
muito tempo ainda
há de ensair na mente;
antes que o tio violeiro –
o nome me emprestara;
e sua viola de doze cordas
mostrasse – bem antes
das guitarras na igreja
iconoclastas – e nem assim
aprendi a tocá-las…

O incapaz de dó maior
vai tocar tarol! – determinou
o maestro ante o desafinado
contralto: capataz do coral.

II
Em compensação, a Física
toca bem – é outra coisa
matéria mais definida –
maçã bem mais vadia
caída bem direitinho
em meu 1º. caderno
do ginásio – aquela
que caindo n’alma
para sempre…

A música, entanto,
sempre ligada n’alma
sabe-se Ímpar; cabeça
é maior que 7 notas
e suas variações –
Et pourtant‘ fala à alma:
(#) sustenidos & bemóis (b)
desafinado canto alto:
Staccato‘ – para sempre
às partituras audíveis
sorvidas, outro toca
instrumental vário.
+++++
Drafts xxvii para Cadernos II.

Da série “mexicanas” (iii)

Mexicanas (3) – Crônica – Poema em prosa.

ERA UMA VEZ uma menina e seus pais e um viajante – um homem na casa dos seus sessent’anos e alma de menino, doravante “Caminhante”.
Entraram na mesma van que os levaria do aeroporto ao hotel com o Caminhante. Estar alhures e no México, ter viajado com os versos de António Machado ressoando na mente, reverbera ainda mais quando o cansaço nos ilude entre sono e paisagem, entre sonho e realidade.
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
O Caminhante viu muitas estradas e lateja em suas têmporas: “Caminhante, são teus rastos; o caminho, e nada mais”… E como em The Road, taxativo: “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar…”. Como andam pai e filho na estória que tomou todo o tempo de vôo – a companhia do apocalíptico McCarthy…

 

CormacMcCarthy_AEstrada2
(c)ilustr. site do filme The Road.

Voou sobre os mares, tomou um paquete em Algeciras e uma barquinha no rio São Francisco; o Caminhante andou voando; e sente-se alhures dois dias após deixar a savana em que vive. Heureux qui comme Ulysses a fait um beau voyage… Georges Brassens toca na vitrola instalada na cabeça do Caminhante (vitrola onde repassa canções antigas, quando quer dormir ou quando estar a despertar…).
O Caminhante está a caminho da velhice, lembra-se de tantas coisas que não quer e não se recorda do que quer, pelo menos não na rapidez com que quer – demorou uma era para lembrar-se do nome do músico francês que lhe povoou a partitura da juventude com a primeira língua estrangeira que aprendeu. Ele tem fé; certa mística o acompanha desde tenra idade; leu muito mas esqueceu quase todos os enredos. A trama de sua vida é complexa e mais se assemelha a uma daqueles cobertores que viu na Pensylvannia, anos atrás… Quilt! – Isso! Aquelas colchas de retalhos das mulheres Amish que tanto lembram o cobertor velho que lhe dera sua avó paraibana!

Só tem agora o Caminhante ouvidos para a menininha – também cansada; provavelmente exausta de ter que se parecer adulta; Alberto Da Costa e Silva está ao seu lado na van, estranhamente recordando que em breve a meninazinha estará no “curral dos adultos”. Por ora, sonha. Sonha com a praia e a nomeia – areia.
– Papai, chegamos à areia? Arena, areia, cimento da vida; la arena
Desperta, enquanto a van continua balançando-se no asfalto já úmido da chuvinha fina da temporada, ao cair da tarde, a caminho do destino – banho quente e cama estão nos planos do Caminhante, mas la arena o arranca de seu torpor.
– É já la arena, Papá?!

Criança na Praia (c)LucianaMisura
(c) Ilust./foto blog luciana.misura.org

A estrada (The Road) de que leu no avião é uma estrada solitária e apocalíptica. Cormac McCarthy conduzia-o pela estrada afora… Quase não dormiu entre uma turbulência e outra – está aqui, a centenas de milhas de casa – centenas de anos-luz de sua origem. Savana e mar se encontram quando repousa, mas a voz da menina o acalenta ao longo do sono profundo. Desperta ao amanhecer em outro cenário. Há o mar. Há o mar caminho de Augusto (o Schmidt), o mar “rude e profundo”… aquela obra de Zeus onde reina Poseidon; desde a Criação e seu trabalho no segundo dia; quiçá, antes quando a Sabedoria pairava sobre a superfície das águas. E viu o Caminhante que era bom – da cosmogonia à realização.

Como Ulisses, viajante de epopéias antigas, pensa o Caminhante que no saldo final a viagem foi boa e assim será para sempre. Espera que um cão (ou um gato) venha, ao retornar à casa, reconhecer-lhe a cicatriz em seu pé direito e achegar-se com ternura ao dono que volta à casa.
– Chegamos à arena, Papai?
Se o mar para os poetas é devaneio e perdição, é caminho e é destino; para a menina é construir castelos na areia. Para ela, o mar é tudo isso: la arena… Como a vida, ao fim de tudo.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

E ao retornar, saberá o Caminhante que “ao andar faz-se o caminho, e ao olhar-se para trás vê-se a senda que jamais se há-de voltar a pisar…”
Retornará. E ao ar marinho, há o viajante de preferir voltar mais experiente à casa ora distante, ao fim desta temporada, com uma garrafinha mental plena da areia; da areia em seus pés, na seca doçura de sua aldeia, no cerrado – sua casa erigida na savana, eis onde planeja viver o resto de seus dias, mais experiente e, nem por isso, menos sonhador. Caravelas em noites de leves sonhos. Eia, avante!… Ao mar dos sonhos como “embarcado em seco”; pois é o que terá aprendido a lição de Machado:
“Caminhante, não há caminho, somente sulcos no mar.”
Adiós, Caminhante. Au revoir.
****
(c) Ilustrações. Do blog de luciana.misura.org e filme “The Road”, baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy. Obrigado, poeta Luiz de Aquino, pela revisão do texto, só não aceitei (como de hábito) a ortografia do Novo “Acordo” Ortográfico.