Poemas de esperança (V)

Se toda lua é atroz; se todo sol, amargo
o que seria de ti, oh triste caminhante
desse destino com o peso do desencargo
trazido às costas? sulcas o solo e avante

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Caderno de rascunhos (draft xxvii)

O Tarol*
I
Minha memória musical
alhures em remota escola
toca tarol na banda marcial
e clama o direito de parola.

A sonoridade perdida,
inclusive nos poemas;
– Mas jamais si desirée’ –
“…de la musique
avant toute chose;
et pour cela préfère
L’Impair…”

Voltas, idas e vindas
co’a rara matemática
musical do regente:
muito tempo ainda
há de ensair na mente;
antes que o tio violeiro –
o nome me emprestara;
e sua viola de doze cordas
mostrasse – bem antes
das guitarras na igreja
iconoclastas – e nem assim
aprendi a tocá-las…

O incapaz de dó maior
vai tocar tarol! – determinou
o maestro ante o desafinado
contralto: capataz do coral.

II
Em compensação, a Física
toca bem – é outra coisa
matéria mais definida –
maçã bem mais vadia
caída bem direitinho
em meu 1º. caderno
do ginásio – aquela
que caindo n’alma
para sempre…

A música, entanto,
sempre ligada n’alma
sabe-se Ímpar; cabeça
é maior que 7 notas
e suas variações –
Et pourtant‘ fala à alma:
(#) sustenidos & bemóis (b)
desafinado canto alto:
Staccato‘ – para sempre
às partituras audíveis
sorvidas, outro toca
instrumental vário.
+++++
Drafts xxvii para Cadernos II.

Da série canções mexicanas (iv)

MEXICANAS (4)

Cantar uma canção que seja pura umidade
Abolir o seco do cerrado com água do mar.
O canto assim reproduzido na seca tarde:
um por ter vivido e outro por se fabricar.

Eis o mister do que se quer molhado –
sem espanto ou abalo, na face do fado.
Do que do seco há de estar à contrapelo,
Silente se deseja mas cria grave apelo.

Eis o candente canto que reluz sem nada
Eis o mar do que na savana embarcara
Só a vela e o vento, sem trastes ou remos
Eis o que vai à raiz da fala e o ser aclara.

Todo dia, quando da janela, te vejo, ó Mar
– É o que desejo dizer-te: sou do Cerrado…
Desde menino tenho notícia do salgado
escondido e velado: tua face mais vulgar.

A candente luz na superfície de vidro é falsa
Sei que queres à lagoa grande te esgueirares
Deixa estar, amigo, viajo com a gaivota –

Aqui não estarei para sempre. Meu caminho
entanto, não deixarás jamais; o sal da memória
Vale, ó mar, intenso e duradouro – isso me basta!

Caderno de rascunhos (1)

O temor ao Grifo

                                       “…encolhe-se o animal nas entrelinhas,
                                             e ri-se a sós de quem, por estar vivo,
                                             faz da poesia um desafio e um risco.”                                                                                                                                                (Ivan Junqueira).Grifo

Dizer o quê – do posto em que me vejo?
– Todo dia ler um pouco e estar a postos.
Não é o rio de minha aldeia nenhum Tejo.
Restam-me esses parcos versos compostos.

Digo do ponto de vista em que me vejo:
Ler e reler o mesmo livro, au rez-de-chaussée
Vehementius et pronfundius‘ – é meu desejo.
Confissão de leitor, doravante réu do escrever.

Ler e reler o mesmo livro de alto a baixo,
antes de o véu noturno cobrir-me o rosto
de solidão e medo qual a Ciência amarga.

Seguir incólume à fera que nas dobras do livro
A poesia abafa; ah, sede que o Grifo encolhido;
Sobranceiro, ameaça quem, sedento, vá ao poço.
*****
Goiânia, abril 2016.

 

Para ler na Quaresma

Dreamstime3cruzes (2)  Por vezes penso em Ti
Ou: Tua dor assim sentida

Ao pensar no Teu Sacrifício
repito: não há suplício igual a
essa dor – símile, impingida.
HḠentanto, uma alegria
em tamanha dor sentida.

 

Mesmo o pagão, incréu,
reconhece a paga recebida.
Se as escamas dos olhos
caem; se do cavalo é descido.

Incompreensão é um lenço
embebido em vinagre, sabem:
os que o Cordeiro mutilaram.
Longe e calmo o Verbo ouvia.

O clamor na Cruz emitido.
O Filho de Deus a tudo tolera
para que ao fim o homem viva.

Morte e vida; céus rasgados
de alto a baixo feito seda.
O silêncio do sepulcro aberto
foi a coda de tal infâmia finda.

Ressuscitou! Disseram mulheres
e o mundo as seguiu, em páscoa –
Eia que imensa luz assumida!

Do cordeiro ao homem unindo, a
dor reata Deus e criatura decaída
Há na dor uma contrapartida:
Tu e Eu atados em fio de Vida.

****
Literatura Goyaz / Adalberto de Queiroz (org.). – Goiânia: Edit. Livres Pensadores, 2015, p.19.

Diários de um solitário

Livro I

Janela_Solidão
© Ahau1969 | Dreamstime.com

Quando do amor estiver sedento,
O peito dorido, a alma em pranto
À lágrima cede o cenho franco.

Só e triste deve o ser vivente
De todos fugir; em busca da prece
Do caminhar solitário; ausente.

Distante de todos e tudo, em busca
de si mesmo, sorvendo do mais fundo:
D’alma resgatar o butim de si mesmo.

– A poesia ao espírito solitário exalta.

Sorve e se deleita e calmamente
Se ausente do ruído geral; da orbe
Foge! O mais só; o mais nu – foge,
Pois, e sorve o que seja verdadeiro.

Longe, bem longe, não bastaria…
Que dissesse muita coisa; ouvir, sim!
Preferencial via do que sofre assim:
E saciado a sede da ausência cura.

Do amargo prazer aparente de tudo
Possuir – de todos próximo e cálido,
Está, mas de vero nada lhe pertence.

ω/ω
Beto Queiroz, drafts para Cadernos de Sizenando, vol, II.
(c)Imagem destacada – © Craig Ikegami Solitude | Dreamstime Stock Photos

 

Poemas do autor

Poesia Falada*Poesia Falada_TrechoInsta

 

POESIA FALADA

palavra à noite cantada

co´a manhã se desfaz

em palavra granulada:

matinal achocolatado

já não sente a poesia

tal qual ressoara clara

na madrugada alta

Et pourtant, fala!

Será a escrita fogo fátuo?

marca gravada em gado,

ou cardo na sua pata?

(O poeta-boi rumina,

mas não é vaca sagrada).

Estrela cadente, cabala:

meros fogos de artifício

ruidosos melros da fala:

na calma manhã se calam

E de novo à noite

continua a caça

– Ah! Noite, tu

a guia do vate és,

virtualmente, baça.

Cães dão o alarma:

acordam a sentinela

ansiosos, ladram

nessa guarita alta

do posto de fronteira

entre escrita e fala

entre noite e dia
o poeta (aprisionado)
se cala.

****
Fonte: QUEIROZ, Adalberto. Cadernos de Sizenando: poemas e crônicas, Goiânia: Kelps, 2014. Disponível em Revolução eBook.

Poemas de ocasião (i)

i.i    cidades (i)Anapolis Histórica

Eu me movo
Tu me moves –
It is a

meme 
           moves.


Caliope_MusadaPoesiaψ

i.ii   mulheres
           desejam
ser vistas…
helenas

– Desejo-as!
  por a+b: tenho visto
[contido, entanto!]
todas – em uma…

 

No mínimo, dia #25

CINQUENT’ANOS

Autor – Adalberto de Queiroz

p/ u.e.

Agora que o grisalho
Impera e pouco temo
de volta de o malho
do oponente desatento
ao que me vai n’alma.

Aos cinquenta e tantos
pergunto-me: resta o quê?
– a quem fazer o bem,
que mal evitar? De que
modo nesta idade
eu, aquele que imaginara

Morto aos 25, trinta;
embora minha avó viva
até hoje na memória –
ter visto o mundo insano
até os noventa e tantos.

Você que me lê, metade
talvez tenha do tanto
dinossauro tempo vivido;
portanto, d’antes a morte
mostre as garras: escreva versos

Bons ou ruins tanto se me dá:
mas os publique ante que tarde.

Fonte: Cadernos de Sizenando, vol. II, em preparo.