O ciclo das estações se impõe novamente: basta o zunzum das cigarras e o vai-e-vem dos pássaros migrando como mensageiros para sentir o recomeço do ciclo. O Cerrado respira, abre-se ao verde que logo tomará conta da paisagem.

Em abril passado, porém, era outra a primavera e outros os sentimentos, quando passei alguns dias em Lecce, no sul da Itália. Lembro-me do instante em que a poesia de Leopardi me visitou na varanda do apartamento alugado, próximo à Porta San Biaggio. O voo das andorinhas me remetia ao poema “À Primavera”: “Primavera perfumada, inspiradora de ternos pensamentos.

Se no poeta de Recanati domina a melancolia, em mim reinava plenitude. Aos 70, celebrando 50 anos de vida em comum, deixei-me invadir por esse ritmo da estação.

Lecce, primavera 2025, foto do Autor

Bom saber que não sou, como Leopardi, um “pardal solitário”. Viajar a dois, em idade avançada, é bênção rara. As revoadas rápidas das andorinhas eram moldura natural do nosso ritual: um copo de Prosecco, algumas castanhas, a conversa calma de quem aprendeu a se ouvir. Era espetáculo íntimo, como se a cidade tivesse reservado um camarote secreto só para nós.

Lecce se revelava grandiosa e escondida. Do alto, parecia devastada; logo depois, surgia barroca, feita de pedra clara que brilha ao sol. “Cidade-monumento”, diziam os guias, mas para nós era pulsação viva. Deambulávamos sem pressa, deixando-nos surpreender a cada esquina. A luz incidindo sobre a pedra era espetáculo maior que qualquer roteiro.

Uma caminhada me levou à livraria Feltrinelli, onde comprei dois volumes de Leopardi. Atraído por sopros e tambores, segui a procissão em honra à Nossa Senhora. A devoção coletiva enchia as ruas de flores e cantos. Senti-me parte de algo maior, um elo entre tradição e modernidade.

O paladar também se rendeu. Entre refeições caseiras, experimentamos a cozinha local. Num pequeno restaurante, um prato ainda me volta à memória: peixe-espada em molho cremoso, ornado de verde vivo e vermelho intenso — síntese da região, delicadeza do mar em diálogo com a força da terra.

Procissão em honra à Nossa Senhora, Lecce, 26/4/2025

Cada prato servido revelava a alma da Puglia. Sob o céu azul, ouvindo os sinos chamando para o Angelus, percebíamos que uma viagem não se encerra nos monumentos, mas no gesto dos habitantes que oferecem sorriso e acolhida.

Assim descobrimos delícias que nos encantaram desde o primeiro dia.

Lecce foi para nós não apenas uma cidade a visitar, mas morada temporária que se eterniza na memória.

Ainda hoje penso no voo das andorinhas que me recordava que o tempo é passageiro, mas eterno no que nos marca. E volto a Leopardi: ah, Primavera, “inspiras o frio coração de um velho que aprende em plena flor dos anos” – eis minha fábula, meu quinhão de sol e poesia.

Hoje, posso dizer que não sou um pardal solitário. Esta é a nossa primavera, a poesia de nossas vidas: envelhecendo juntos, ora sob as cigarras do Cerrado, ora sob o voo das andorinhas em Lecce. Dois cenários, duas primaveras unidas no mesmo fio de memória e renovação. Feito o poeta, sigo aprendendo em plena flor dos anos…






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