Bernanos, Lapaque e a Saudade

Tradução livre (forma de dizer que não é profissional), da citação à entrevista de Sébastien Lapaque. Tem a ver com o que citei antes sobre o  sentido do termo Saudade segundo Lapaque.

Après le desengano,  la désillusion éducatrice familière aux apprentissages portugais, ce retour aux origines est la définition même de la saudade, mélancolie proprement lusitaine, qui est à la fois regret de ce qui n’est plus et attente de ce qui sera, manière de retour vers le futur du passé.  Chez Bernanos, la saudade est la nostalgie d’un roi perdu et de la terre natale. Elle est aussi, elle est surtout ce grand sentiment de l’absence qui habite certains livres de sa période brésilienne :  “Les Enfants humiliés, la Lettre aux Anglais,  le Chemin de la Croix des Âmes”. Voilà pourquoi l’exil était nécessaire à Bernanos : pour continuer à aimer la France sans s’en faire une idée fausse au moment de la capitulation, de la défaite et de la honte, le romancier à eu besoin d’éprouver son absence.

Depois do desengano – a desilusão da educação familiar com o aprendizado do português, este retorno às origens é a definição própria da Saudade – esta melancolia bem lusitana, que é ao mesmo tempo arrependimento por aquilo que deixou de existir e espera pelo que pode vir a acontecer -, é uma forma de retorno ao “futuro do passado” (citação ao tempo verbal). Para Bernanos, a Saudade é a nostalgia de um rei perdido e da terra natal distante. Este é também, principalmente, o grande sentimento de ausência que povoa seus livros do período brasileiro – “Les Enfants humiliés, la Lettre aux Anglais,  le Chemin de la Croix des Âmes”. Eis porque o exílio era tão necessário a Bernanos: para que ele continuasse a amar a França sem que tivesse uma falsa ideia do momento em que a França capitulou, a queda da vergonha, foi quando o romancista sentiu necessidade de provar a ausência da pátria.

Entrada que tem a ver com isso.

Ainda Bernanos

De Sébastien Lapaque, em “Sous le Soleil de L´Exil“, Bernanos Romansvem a vontade de aprofundar a leitura dos Sermões de Vieira; ao mesmo tempo que continuar pensando os amigos e herdeiros de Bernanos no Brasil, como Paulus Gordan.

Retomo o capítulo “Le moine et le prophète“, que se inicia com a legenda de Vieira.
E lembro da citação tirada de “Bernanos no Brasil” (Vozes, 1968): dizia dom Paulus Gordan:

Bernanos se me apresentava, espontaneamente, sob o aspecto que melhor o exprimia: como un chevalier sans peur et sans reproche, comparável a algum cruzado que, numa espécie de esperança desesperada e de desespero pleno de esperança, combate, com fidelidade viril, a morte e o demônio“.

Fico feliz que ainda se lê (e se ama) Bernanos!

Emily Dickinson, 25/100*

Remebrance has a Rear and Front
´Tis something like a House –
It has a Garret also
For Refuse and the Mouse

Besides the deepest Cellar –
That ever Mason laid –
Look to it by its Fathoms
Ourselves be not pursued –

A recordação tem frente e fundos –
É tal e qual uma casa –
Ela também tem um sótão
Para o refugo e o rato.

E tem o porão mais fundo
Que pedreiro já cavou.
Cuidado, que dos desvãos
Não nos venha asssombração.

Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de poemas“. Tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes. Ed. T.A.Queiroz/USP, S.Paulo, 1985, p.136-137.
Comentários de Dona Aíla: “No original o primeiro verso tem 8 sílabas e os demais, 6; na tradução, respectivamente, 9 e 7. Não ocorreram rimas que parecessem naturais; jogou-se então com ecos e recorrências de sons vocálicos mais ´fundos`.
Nas últimas linhas, o afastamento da literalidade não parece ferir o sentido. Substituiu-se ´fathoms` (medida de profundidade, sonda, profundidade) por ´escavação`, pois ousou-se uma adaptação, com acréscimo, ´assombração`, onde há conotações de algo que persegue.
Este é um dos muitos poemas-definição, onde não faltaram o ´wit` dickinsoniano, nem a imagem familiar, caseira, para as perplexidades da mente – esse tema obsessivo de Emily Dickinson. Incessantemente ela se perscruta, procura entender o mecanismo da consciência, discrimina suas faculdades, espanta-se com sua infinita expansão, assusta-se com sua imprevisibilidade. Mas nunca se deixa embair por abstrações; nem uma vez deixará de testá-las em imagens cotidianas, concretas que provêem analogias ou personificam ou, ao menos, corporificam os fenômenos mentais que a intrigam e fascinam. (op. cit. pág. 229).

Achados & perdidos (5)

Sexta-feira, Janeiro 16, 2004
Saudades do lar

Amigos,
Monsieur Gilberto K. Chesterton era um privilegiado súdito do império Britânico, num tempo em que as rainhas não se opunham aos matrimônios na família real.

Ele dizia que “a igreja católica é o lar natural do espírito humano“.

Depois de alguns dias na América do Norte – este imenso e generoso país que aprendi a admirir e a gostar, eu vos confesso: senti muitas saudade do meu lar, da casa e da Igreja do bairro.

Eu vivo em Goiânia mas fui criado em Anápolis (GO), e de certa maneira sou (ou fui) “um pobre diabo da Póvoa do Varzim, a minha Vila Jaiara (em Anápolis)”.

Meu mais importante ancestral – o sr. Eça de Queiroz ensina-nos a ser críticos, mas eu sou sempre condescendente e acrítico.
Ele foi acusado de ser crítico demais com o Portugal que amava e que amamos até hoje, por ter sido um cidadão do mundo.

Para mim, filho de Goyaz – le Brésil profonde – e um pequeno cidadão da França e da Carolina do Sul – eu originário do mais fundo Brasil que se possa imaginar, ser um filho do Abrigo Evangélico Goiano (entre outros 99 meninos e meninas que não conheceram seus progenitores), é algo que hoje é assimilável e que representa o mais fundo brasil de minha estória individual. Já foi difícil. Hoje é história.

Nâo me contento com o chamado (in)cômodo e estreito banquinho do presente, como designa Ruy Maia.
A diferença é que eu faço como um dos meus mestres: só me lembro do que eu realmente fiz, porque desejei fazer.
É pouco, mas sobrevivi. Queria ter escrito mais, pensado mais, ousado mais… mas não pude.

Não tive disciplina nem pré-disposição que me fizesse andar pra frente em literatura, mas tenho meu seis leitores, isso me basta.

Tenho muitos amigos e uma família maravilhosa que agora se amplia e quando encontro com moços de sobrenomes mais nobres, admiro suas conquistas, mas sempre imagino: pobres moços, não tiveram nenhum teste de sobrevivência diante dos leões selvagens.

Volto da América com os sentimentos apaziguados: a família Queiroz se amplia: somos eu e Sherazade, a pequena Cecília, Maíra e agora os in-laws : parte de uma nova família.

A Póvoa do Varzim abrange mais pessoas – belas pessoas da mais distante Pensilvânia.
Nosso coração se dilata. A gente fica mais doce por dentro.

Assistimos encantados, ao casamento de nossa filha Maíra. e tudo aquecia a alma, mesmo com toda a neve que salpicava as montanhas do Sullivan County (Endless Mountains) na Pensilvânia.

O lar que procuro na chegada diz Amém!
O coração anseia pela missa da paróquia de N.Sra. Aparecida e Sta. Edwiges no Jardim América, pelo pão e vinho da comunhão dos irmãos católicos do meu bairro.

O Amor afirma a persistência do que somos e está na raiz da decisão que fizemos por Amar alguém. A Deus que propiciou surgir os “Queiroz Foust (Craig e Maíra)” como uma família – peço que abençôe o novo casal. Rezo com o pensamento em Santa Teresa D´Avila.

Abraço fraterno do seu

BetoQ.
++++++
Post-Post: Para reler G.K. Chesterton.
publicado porAdalberto Queiroz 1/16/2004

Emily Dickinson, 24/100*

The Poets light but Lamps
Themselves – go out –
The Wicks they stimulate –
If vital Light

Inhere as do the Suns –
Each Age a lens
Disseminanting their
Circumference –

Os Poetas acendem lâmpadas –
Eles próprios se apagam
Os pavios que espevitam –
Se, ali, luz vital

Como em sóis, ganham inerência –
Cada época, uma lente
Disseminando-lhes sua
Circunferência.

Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de poemas“. Tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes. Ed. T.A.Queiroz/USP, S.Paulo, 1985, p.118-119.

Linguagem

Um neto pode mudar muita coisa. A forma de comunicação é só uma faceta de um universo em mutação para nós, avós. É hora de rever nosso jeito de nos comunicarmos, falando ou ouvindo: no esforço de entender o garoto e procurando ser entendidos.
Meu neto de 2 anos e meio (born in USA), ouve a língua de Camões (por ser a língua materna) e o inglês, do pai. Responde em língua de criança de 2,5 anos com um strong accent da língua de Shakespeare.
No meio, há palavras ininteligíveis até pra Mommy (dele).DSC01441
Não vou fazer um glossário do portuglish do meu neto porque não me acho preparado ainda (estou cadastrando algumas mais engraçadas) mas de vez em quando eu me sento como o matuto que vai ao cinema, na estória de Jessier Quirino.

De qualquer forma, nossa comunicação transcende a tudo por conta dos laços familiares… mas de vez em quando, me sinto como o matuto no cinema:

– “Aí o artista: “num-sei-que-lá, num-sei-que-lá, num-sei-que-lá…

Bom é saber que os laços familiares mudam tudo, possibilitando uma comunicação eficaz e, principalmente, de muito Afeto…

Aproveito o tema Linguagem – em qualquer idade -, para deixar pra você, leitor, a criação de Jessier Quirino que com certeza pode fazer você rir um bocado!.

Encarando problemas…

Ainda bem que nem sempre tenho que encarar problemas só com meus próprios recursos e dons.

As técnicas para solução são muitas. Os amigos são valiosos.

Essas dicas do Andersom podem valer… Pra mim, valem muito!

Chesterton contra livros oportunistas

Parte da discussão que elaborei para os jovens na palestra sobre trajetória empresarial foi baseada nessa frase de Chesterton.

É perfeitamente óbvio que em qualquer ocupação decente (tal como assentar tijolos e escrever livros) somente dois modos (em qualquer sentido especial) de obter sucesso. Um deles é fazer um trabalho muito bom, o outro é trapacear
Trabalho duro pode não fazer de você um homem rico, mas fará de você um bom trabalhadorVocê subirá por meio de poucas e limitadas virtudes, mas ainda assim Virtudes”.

G.K.Chesterton, Jornalista e humorista inglês

O artigo completo (A Falácia do Sucesso) está aqui.
E mais G.K. Chesterton, ali.

Comunicação com jovens

Dificuldade superada: comunicar com os jovens (e em meio a esses, pessoas mais experientes) sobre o tema Trajetória Empresarial.
Síntese da dificuldade essencial:

– A vida humana possui o superlativo da interioridade, isto é, a intimidade, impossível de exteriorização (Julian Marías)

Grand Georges

“Trabalhe, disse-me ele, faça pequenas tarefas, dia após dia. (…) É assim que o bom Deus espera nos ver, quando nos abandona às nossas próprias forças. As pequenas tarefas não parecem importantes, mas dão paz. São como as flores do campo, você sabe. Achamos que não têm perfume, mas, quando juntas, rescendem. A oração das pequenas coisas é inocente.”
(Georges Bernanos).
Mais Aqui.