Miscelânia, Viagens

15 horas em aerogares ou: um vento bárbaro no ar…


Se a paciência é uma das virtudes, eis que os passageiros de avião somos chamados (ou convocados?) a exercê-la mais amiúde.

Nos últimos 15 dias, fui por duas vezes chamado a isso… durante duas curtas viagens (Goiânia/SP/Goiânia) fiquei cerca de 15 horas refém das administrações de aeroportos. 15 horas de exercício da paciência. E foi me lembrando de uma canção de Claude Nougaro, que escolhi o título deste post.

Dès l’aérogare
J’ai senti le choc
Un souffle barbare
Un remous herd-rock
Dès l’aérogare
J’ai changé d’époque
Come on! Ça démarre
Sur les starting-blocks

É claro que meu choque (e este vento bárbaro) deve ter começado no ‘chamado às avessas’ da ministra brasileira do Turismo, num discurso pós-tudo que nada representou para este exercício desses meus gemidos de Jó (1). Questionei a forma do chamado de S.Excia., a Ministra, para que nós consumidores e passageiros permaneçamos calmos. Entendo quando um médico nos chama de ´pacientes` mas não consigo aceitar passivamente que eu seja paciente de uma aerogare e muito menos que eu como mau cristão (que sou, como Alceu dizia de si mesmo, ele tão bom cristão!) possa transformar o saguão de um aeroporto em bordel. Ah, nunca uma expressão francesa foi tão adequada, malgrado cair na mesma esparrela em que caiu a ministra:
Le pays? … C´est un bordel!

O fato é que quando um ministro(a?) de estado desrespeita a linguagem é mais do que um simples mortal pisando na casca de banana da gramática (ou das boas maneiras), é isso sim um desrespeito pelo cidadão-contribuinte.

Diferente chamado nos faz os bons intérpretes do catecismo que nos fala das virtudes separando-as em cardeais e teologais, sabendo que pelo sacramento do Batismo Deus as infunde em nós, por sua bondade e generosidade. Voltemos, pois, a temas mais construtivos que o discurso da ministra pós-pós tudo…

O professor Mário Ferreira dos Santos, citado por Marcelo Johann, nos ensina:

– “A paciência é uma virtude subordinada à fortaleza, e consiste na capacidade constante de suportar as adversidades. (…) A segunda virtude cardial é a fortaleza ou valentia. Consiste esta na capacidade de enfrentar os perigos que se oferecem à obtenção dos bens mais elevados, e entre êstes perigos, os males e a morte. Chama-se heroísmo a fortaleza quando enfrenta até a morte. Mêdo é o estado emocional que detém o ser humano ante o perigo. A fortaleza é uma vitória sôbre o medo. A audácia é um desafio ao risco e à morte, indo-lhes ao encontro. É ela uma virtude, quando refreada. Os meios de fortalecimento da fortaleza são o exercício, que consiste em enfrentar os riscos e a perseveração na obtenção dos fins. Como as virtudes cardiais conjugam-se, a fortaleza recebe apôio e equilíbrio da prudência, pois, pelo saber, pode o homem empregar esta virtude em têrmos que lhe sejam mais benéficos possíveis.

“A paciência é uma virtude subordinada à fortaleza, e consiste na capacidade constante de suportar as adversidades. Também o é, a generosidade, que é aquela virtude que se caracteriza pela energia e decisão no ataque do homem de brio e de valentia, sobretudo quando êle enfrenta a morte. São ainda virtudes afins à fortaleza, a confiança na sua capacidade de enfrentar os riscos, a munificência, que constitui a pronta decisão de sacrificar seus próprios bens para atingir fins elevados, a tenacidade, que é a disposição firme de enfrentar os obstáculos exteriores, e a constância, que é saber manter-se firme ante os obstáculos interiores.

Ah, diletos amigos, quanto estamos carentes nós, passageiros (de avião ou de carroças), deste país sem governo, de todas as virtudes e muito mais desta: a paciência!

Eu exerço o humor (rascunhando a minha própria resposta para a longa espera nos aeroportos brasileiros) as leituras, as palavras cruzadas e o humor horizontal (ou seria oblíquo, Milton?) deste sério que não se permite nenhum sisudez. Eu às vezes vibro com o que dizem os circunstantes, eu uso o fone de ouvido e abdico de ouvir o murmúrio geral contra o que elegemos, eu como chocolates (como aquela pequena imunda que comia chocolates num poema de Pessoa), eu ouço música, eu passeio na internet móvel, eu volto pra infância na Vila Jaiara e ao mesmo tempo eu vou a Malagar, de onde volto outro menino, pra sonhar com meu amigo poeta:

De vez em quando
Fico sereno
E viajo tranqüilo
Na ternura das crianças.
A mim comove
Qualquer gesto sentido
Que o corpo irradie
Com força e brilho.
Aí me liberto do limite
e deixo fluir,
na tessitura dos nervos,
a canção dos vivos.

(Brasigóis Felício)

+++++
Fontes: Site de Marcelo Johann.
(1)”Meus Gemidos de Jó, de Brasigóis Felício, Ed. Kelps, Goiânia, 2000.
(2) “Malagar”,
Jean Mauriac, Sables, 1998.

3 thoughts on “15 horas em aerogares ou: um vento bárbaro no ar…”

  1. O que dizer?
    Preocupo-me, pois no início de setembro – veja bem, setembro – devo enfrentar um aeroporto. Estamos em junho, né? Mas eu acredito que a falta de respeito continuará por muito tempo.
    Abraços

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  2. Pois é, Beto estivemos nas mesmas por esses dias. Quanto a ministros de Estado, eu tinha cá, de minhas aulas de teoria geral do estado, que os representantes públicos deveriam ser pessoas acima da média em capacidade e integridade. Obviamente, “a teoria na prática é outra”. Só lastimo que seja TÃO outra.

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  3. Que belo post, Beto.
    Recomendarei aos meus que em breve enfrentarão essa sina que o leiam e releiam e releiam e releiam…
    Grande abraço.
    +++++
    Merci, mon ami!
    Boa sorte a eles.
    Amities,
    Beto.

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