Diário do Extremo Oriente

A utopia do encontro
Adalberto de Queiroz, especial para O POPULAR, Goiânia.


Imagino o escritor franco-argelino Albert Camus chegando a Nova Iorque, ao descer do navio e enxergar o “skyline” de Nova York. Já tirei proveito dessas memórias dele ao escrever um poema sobre viagens e me recordo que disse:

No ritmo do trânsito, os arranha-céus dourados giram e tornam a girar, no azul acima de nossas cabeças. É um bom momento.”

Entretanto, esta viagem que agora realizo ao Extremo Oriente é tão intensa, que os vários dias de navio de Camus, partindo de um porto francês para Nova Iorque me parecem como uma viagem de Goiânia a São Paulo, que faço de carro em um dia…

No entanto, o tópico desta crônica é outro: o estranhamento, a “estrangeiridade”, se é que isso não se trata de uma liberdade poética à la Guimarães Rosa.

Em Camões, como nos demais lusitanos que aportaram ao Extremo Oriente, estamos realizando a “utopia do encontro”, que por ser utopia jamais se realiza por inteiro.

Não passei por Macau e sim pela Coreia para chegar ao Japão, “a terra do Sol Nascente”, onde vou me adaptando às enormes diferenças: o idioma, a comida e o tratamento do lixo – o que é bem relevante para quem aluga um apartamento como foi o nosso caso. Muitas rotinas se nos impõem, além das consultas sucessivas à previsão do tempo, para nos mantermos informados sobre tufões, tsunamis e tremores de terra.

Por falar nestes, sentimos um pequeno tremor na semana passada. Quando escrevo esta crônica, ainda está presente em minha memória a frase de minha mulher: “você viu isso?” E eu: acho que o vizinho do andar de cima está dançando (ou pulando). Não. A água tremia na garrafa de dois litros e a esposa sentiu o sofá balançar. O primeiro tremor de terra é como aquela propaganda do sutiã: a gente nunca esquece, com a diferença que essas emoções causam aos que as vivem.

Da gruta de Camões em Macau, de que sempre se fala e da qual se tecem comentários e polêmicas, sabemos que o sumo poeta lusitano marcou presença e sofrimentos e, provavelmente, ali escreveu versos dos Lusíadas. O ponto continua até hoje sendo atração turística.

Não é o caso do meu recanto no subúrbio de Tóquio (Machida) em que me instalei, atraído pela proximidade da casa de minha filha (em Sagamihara). Não há gruta nem glamour neste recanto, mas descobrimos aquele tipo de familiaridade que encontramos em algumas cidades de Goiás e Minas, em que as pessoas ainda se dão o direito de conversar livremente, mesmo quando o diálogo se dá por aplicativos de tradução.

O chamado do Extremo Oriente está presente na poesia de Camilo Pessanha, mesmo que transversalmente, como neste poema “Ao longe, os barcos de flores” (onde a referência é toda chinesa, mas similar ao local onde vivo por esses três meses, o Japão): Ele diz assim

– Só, incessante, um som de flauta chora,/Viúva, grácil, na escuridão tranqüila,/– Perdida voz que de entre as mais se exila,/Na orgia, ao longe, que em clarões cintila/– Festões de som, dissimulando a hora./E os lábios, branca, do carmim desflora…/Só, incessante, um som de flauta chora,/Viúva, grácil, na escuridão tranqüila./E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,/Cauta, detém. Só modulada trilha/A flauta flebil…Quem há-de remi-la?/Quem sabe a dor que sem razão deplora?/Só, incessante, um som de flauta chora.”

Autor de poucos versos, Camilo Pessanha é competente nos transporta ao cenário do Extremo Oriente, revivendo as emoções que aqui soam como uma flauta chorando calmamente em nossos ouvidos, lembrando os milhares de quilômetros de distância de casa e a dor que representa dormir a 12 horas de diferença do solo que amamos, gratuitamente, apenas por nos termos sido ali trazidos ao mundo.

O grande Japão se anuncia encantador, desafiante, silencioso e belo. É Outono, mas ainda sentimos no ar algo da Primavera. Há flores nos espaços públicos e em algumas casas; e os jardins familiares exibem frutas. O ar não é tão frio que torne impossível os passeios. É agradável passear e descobrir tudo desse espaço estrangeiro – é bom fazer a travessia. Sob a égide de Wenceslau de Moraes e outros lusitanos, vou abrindo passagem aqui na terra do sol nascente. Sayonara!

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Uma resposta para “A Utopia do Encontro: Crônica de um Brasileiro no Japão”.

  1. Avatar de Nelsinho

    Belíssima crônica, como sempre! Agora mesmo estávamos aqui comentando o vilipêndio de autores clássicos (e.g. Mark Twain) por aqui, tal como se verifica no Brasil e em Portugal! A pressão “woke” dentro das escolas, principalmente as públicas. Lástima!

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