Jorge de Lima e sua “Ode ao Coxo Veloz” ou: Bernanos, uma vigília inumerável…

“NO MOMENTO EM QUE IA ESCREVER SOBRE TI, BERNANOS, FUI IMPELIDO POR SECRETA FORÇA ÍNTIMA A ESCREVER-TE…”

Jorge de Lima_Foto RetocadaAssim o poeta Jorge de Lima inicia sua ODE AO COXO VELOZ*. Agora que o mundo relembra o Centenário da I Guerra Mundial, jornais lembram o Diário de Bernanos, com o seu estilo inconfundível e sua cólera e amargura derramadas contra “os poderosos do mundo” nem sempre dispostos a manter a Paz, quebrando pactos e nos afundando em outros conflitos – como foi o caso da II Guerra e de tantos outros conflitos ao redor do mundo. Depois de seu testemunho em prol dos “Rapazes Franceses” e de todo o mundo que são as primeiras vítimas dos campos de batalha, nada pode ser igual e o elogio da coragem nunca é demasiado…

A Ode ao Coxo Veloz abre o livro de Hubert Sarrazin “Bernanos no Brasil”, Testemunhos vividos de grandes escritores brasileiros, reunidos e apresentados por H. Sarrazin. O propósito do livro é reunir depoimentos de “vozes brasileiras que poderiam fazer-se ouvir sobre o homem que foi seu [do Brasil] hóspede de 1938-1945…” – diz a editora na ‘orelha’ do livro citado – a mesma época dos Diários agora revividos em França. Com uma memória enfraquecida por décadas de ideologia nas universidades, cátedras, círculos literários e academias, o país pode perder a memória deste hóspede ilustre e iconoclasta – o “grande Urso”, Le Grand Georges – o escritor para quem não ha descanso – pois sempre lutou; o que não teve ideologias que o calasse: Bernanos que foi um grande Cristão, o Escritor-Católico entre os católicos; o Escritor Francês entre os franco-“Brasileiros” (o adjetivo pátrio aqui desejado por este blogueiro e pelo próprio Bernanos que diversas vezes manifestou-se cidadão do mundo, mas amante incondicional do Brasil…).

Pela manutenção da memória de hóspede tão ilustre das terras de França no Brasil, mantenho uma página dedicada a Bernanos.


Continuemos com a Ode (de J.L.)…  Leia mais

Quando a Poesia é uma forma de oração (I)

HÁ POETAS PARA QUEM escrever é uma forma de rezar.
Um exemplo evidente do que estou dizendo vem de boa parte da poesia de Jorge de Lima. E se cantar é rezar duas vezes,  diria que fazer (ou ler) poemas dessa natureza é, sim, uma forma de prece silenciosa.

“Para Claudel, o poeta cristão está em contínua celebração, pois é por ela que expressa o desejo mais profundo: “A louvação, a celebração é talvez a maior elevação da poesia, porque ela é a expressão do desejo mais profundo da alma, a voz da alegria e da vida. O dever de toda criação. Aquele que cada criatura tem desejo de todos os outros.” (de Gilberto Mendonça Teles, na Revista da PUC, Rio, Poesia e Religião. (2)

Poema do Cristão – Jorde de Lima*

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.|
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas,
que eu decomponho e absorvo com os sentidos,
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros como as estrelas-do-mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém.
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas,
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo com a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita,
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais,
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega,
[peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou
[tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado,
[tenho mantos de púrpura, e de estamenha, sou burríssimo
[como São Cristóvão, e sapientíssimo como Santo Tomás.
[E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para
[todos os séculos, louco de Deus, amém!

E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem
[e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!

Anoto algumas amostras de como a poesia de Jorge alcança o estado de prece. Não sem razão isso o faz distinguir de tantas outras vozes poéticas brasileiras, pois, seg. Gilberto Mendonça Teles
se houve poeta visceralmente religioso em nossa poesia, se houve escritor cuja obra foi toda penetrada de uma substância mística, foi sem dúvida alguma Jorge de Lima…” E, isso, o destaca mesmo entre os membros da ilustre “trindade sagrada da Poesia Católica Brasileira” – ele, Jorge de Lima, Murilo – que Jorge considerava “o Grade Poeta Amigo –, e Augusto Frederico Schmidt. Fico com Jorge:

a) De “A Túnica Inconsútil” – onde se encontra esta espécie de “valor de eternidade, de permanência” que destacou Mário de Andrade, em Nota Preliminar à edição da Aguilar (1958). Queria ele, Jorge de Lima que “A Túnica…” fosse considerado “um poema só” e não um livro de poemas.

Pois bem, um ou muitos poema(s), o valor ali está, assinalado por Mário, no ato de o Poeta “rastrear, poética e tematicamente a Bíblia”; e este valor aumenta com o preenchimento com “pouca sonoridade” (diz Mário), mas “cheio da mais rica e mesmo surpreendente imaginação” poética.

“Poema do Cristão” – a leitura de todo o(s) poema(s) de “A Túnica…” pressupõe mais do que o sr. Mário de Andrade, do alto de seu posto de crítico literário pôde ver, naquele artigo de 1938, publicado n’O Estadão e que virou prefácio do livro.
O mais é a possibilidade de descortinar a visão do Jorge de Lima, místico.

Ao abrir o livro, Jorge nos lança uma dicotomia que nos dá pistas importantes para a leitura do poema como forma de oração:

(1) “sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas…
que decomponho e absorvo com os sentidos”

E de outra parte:

(2) “e compreendo com a inteligência
      transfigurada em Cristo.”

(3) E conduz o leitor à conclusão mais pertinente da adoção desta postura de Fé:
”Tenho os movimentos alargados.”

Analisemos a expressão “inteligência transfigurada”.

Segundo a The Catholic Encyclopedia,

“…a Transfiguração de Cristo é o ponto culminante de sua vida pública, como o Seu batismo é o seu ponto de partida, e Sua Ascensão ao fim. Além disso, este glorioso evento tem sido relacionada em detalhes por S.Mateus ( 17:1-6 ), S. Marcos ( 9:1-8 ), e S. Lucas ( 9:28-36 ), enquanto S. Pedro ( 2 Pedro 1:16-18 ) e S. João ( 01:14 ), duas das testemunhas privilegiadas, fazem alusão a ela.

“Cerca de uma semana depois de sua estada em Cesaréia de Filipe , Jesus tomou consigo Pedro e Tiago e Joãoe levou-os a um alto monte, onde Ele foi transfigurado diante de seus olhos violadas. S. Mateus e S. Marcos expressarem este fenômeno pela palavra metemorphothe , que a Vulgata torna transfiguratus est. Os evangelhos Sinópticos explicam o verdadeiro significado da palavra, acrescentando “o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a neve“, segundo a Vulgata , ou “como a luz“, segundo o texto grego.

“Este deslumbrante brilho que emana de todo o Seu corpo foi produzido por um brilhante interior de sua Divindade. O falso judaísmo havia rejeitado o Messias , e agora o verdadeiro judaísmo , representado por Moisés e Elias , a Lei e os Profetas , o reconhece e adora o Cristo, enquanto no o “Segundo tempo” Deus Pai proclamou Seu unigênito e bem-amado Filho .

Por esta manifestação gloriosa do Divino Mestre , que tinha recém-anunciado sua paixão ao Apóstolos ( Mateus 16:21 ), e que falou com Moisés e Elias antes dos julgamentos que Ele esperara em Jerusalém , fortaleceu a de seus três amigos (Pedro, Tiago e João) e preparou-os para a luta terrível de que eles deveriam ser testemunhas em Gethsemani , dando-lhes uma antecipação da glória e celeste se deleita em que alcançamos pelo sofrimento.”

Parece-nos que o Poeta quer buscar esse momento culminante da vida pública de Jesus para trazer à página poética uma expressão que trará o brilho que a compreensão “dos sentidos” seria incapaz de fazer.

Etimologicamente, a palavra “transfigurado” provém do grego: “metemorphothe”, donde decorre metamorfose. Nós usamos esta palavra para descrever a mudança que ocorre, p.ex., quando uma lagarta se torna uma borboleta. Analistas dizem que Jesus tranfigurado é descrito nos evangelhos de forma similar ao que fora Moisés no Sinai: “a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante a sua conversa com o Senhor; (…) todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele (…) e havia um véu no seu rosto. Mas, entrando Moisés diante do Senhor para falar com ele, tirava o véu até sair. E, saindo, transmitia aos israelitas as ordens recebidas. Estes viam irradiar a pele de seu rosto; em seguida Moisés recolocava o véu no seu rosto até a próxima entrevista com o Senhor.”
(Êxodo, 34:29-35).

Que metamorfose(s) procura o poeta? Seria (a) luz que aos olhos do leitor possa iluminar territórios nunca vistos? Deixaria, em meio à transfiguração, véus que haveremos de desvelar para entender toda a Poema do Cristão Jorge?

Encontramos alguns porquês e algumas mais de (suas) decorrências ou consequências – que são deliberados vôos, na poesia de Jorge (e de resto na Poesia tout court); e a razão (esses tantos porquês) às vezes faz despencar do alto vôo em nossa pobre humanidade. Por certo, mesmo na escuridão da busca de entendimento, pode-se entender que uma coisa é do estado larval (a lagarta que sonha em alçar vôo) e o Poeta-pássaro capaz de vôos – “vôos eram fora do mundo”. Vôos que são a própria finalidade

– “Não há escuridão mais para mim.” Declara aquele que “compreende” com a “inteligência transfigurada em Cristo”.

Por isso mesmo, talvez, é que possa o poeta “transfigurado” afirmar:

“Opero transfusões de luz nos seres opacos”.

Eis-me opaco para tão alta compreensão, diria o leitor; para quem armar-se da mera inteligência (Razão) diante da Poesia é sempre pouco – tal como os apenas os sentidos o são para, depois de “decomposto e absorvido” transformar num caldo tão rico de místicos vôos…

É preciso mais ao poeta e sua “inspiração” em direção ao fecho do poema, a prece:

”Nada sou.
”Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!”
[Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo sua misericórdia infinita].

(*) No próximo post, a releitura do poema “Confissões, Lamentações e Esperança a Caminho de Damasco” e no terceiro da série falarei sobre os (b) De “Tempo e Eternidade”.
+++++
Fontes:
(1) LIMA, Jorge de. “A Túnica Inconsútil”, Edit. Aguilar, “Jorge de Lima: Obra Completa”, Rio de Janeiro, 1958, p. 425/6.
(2) REVISTA MAGIS – CADERNOS DE FÉ E CULTURA, Ed. 2006.
(3) The Catholic Encyclopedia – verbete Transfiguration.

Quando a Poesia é uma forma de oração (I)

HÁ POETAS PARA QUEM escrever é uma forma de rezar.
Um exemplo evidente do que estou dizendo vem de boa parte da poesia de Jorge de Lima. E se cantar é rezar duas vezes,  diria que fazer (ou ler) poemas dessa natureza é, sim, uma forma de prece silenciosa.

“Para Claudel, o poeta cristão está em contínua celebração, pois é por ela que expressa o desejo mais profundo: “A louvação, a celebração é talvez a maior elevação da poesia, porque ela é a expressão do desejo mais profundo da alma, a voz da alegria e da vida. O dever de toda criação. Aquele que cada criatura tem desejo de todos os outros.” (de Gilberto Mendonça Teles, na Revista da PUC, Rio, Poesia e Religião. (2)

Poema do Cristão – Jorde de Lima*

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.|
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas,
que eu decomponho e absorvo com os sentidos,
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros como as estrelas-do-mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém.
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas,
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo com a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita,
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais,
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega,
[peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou
[tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado,
[tenho mantos de púrpura, e de estamenha, sou burríssimo
[como São Cristóvão, e sapientíssimo como Santo Tomás.
[E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para
[todos os séculos, louco de Deus, amém!

E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem
[e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!

Anoto algumas amostras de como a poesia de Jorge alcança o estado de prece. Não sem razão isso o faz distinguir de tantas outras vozes poéticas brasileiras, pois, seg. Gilberto Mendonça Teles
se houve poeta visceralmente religioso em nossa poesia, se houve escritor cuja obra foi toda penetrada de uma substância mística, foi sem dúvida alguma Jorge de Lima…” E, isso, o destaca mesmo entre os membros da ilustre “trindade sagrada da Poesia Católica Brasileira” – ele, Jorge de Lima, Murilo – que Jorge considerava “o Grade Poeta Amigo –, e Augusto Frederico Schmidt. Fico com Jorge:

a) De “A Túnica Inconsútil” – onde se encontra esta espécie de “valor de eternidade, de permanência” que destacou Mário de Andrade, em Nota Preliminar à edição da Aguilar (1958). Queria ele, Jorge de Lima que “A Túnica…” fosse considerado “um poema só” e não um livro de poemas.

Pois bem, um ou muitos poema(s), o valor ali está, assinalado por Mário, no ato de o Poeta “rastrear, poética e tematicamente a Bíblia”; e este valor aumenta com o preenchimento com “pouca sonoridade” (diz Mário), mas “cheio da mais rica e mesmo surpreendente imaginação” poética.

“Poema do Cristão” – a leitura de todo o(s) poema(s) de “A Túnica…” pressupõe mais do que o sr. Mário de Andrade, do alto de seu posto de crítico literário pôde ver, naquele artigo de 1938, publicado n’O Estadão e que virou prefácio do livro.
O mais é a possibilidade de descortinar a visão do Jorge de Lima, místico.

Ao abrir o livro, Jorge nos lança uma dicotomia que nos dá pistas importantes para a leitura do poema como forma de oração:

(1) “sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas…
que decomponho e absorvo com os sentidos”

E de outra parte:

(2) “e compreendo com a inteligência
      transfigurada em Cristo.”

(3) E conduz o leitor à conclusão mais pertinente da adoção desta postura de Fé:
”Tenho os movimentos alargados.”

Analisemos a expressão “inteligência transfigurada”.

Segundo a The Catholic Encyclopedia,

“…a Transfiguração de Cristo é o ponto culminante de sua vida pública, como o Seu batismo é o seu ponto de partida, e Sua Ascensão ao fim. Além disso, este glorioso evento tem sido relacionada em detalhes por S.Mateus ( 17:1-6 ), S. Marcos ( 9:1-8 ), e S. Lucas ( 9:28-36 ), enquanto S. Pedro ( 2 Pedro 1:16-18 ) e S. João ( 01:14 ), duas das testemunhas privilegiadas, fazem alusão a ela.

“Cerca de uma semana depois de sua estada em Cesaréia de Filipe , Jesus tomou consigo Pedro e Tiago e Joãoe levou-os a um alto monte, onde Ele foi transfigurado diante de seus olhos violadas. S. Mateus e S. Marcos expressarem este fenômeno pela palavra metemorphothe , que a Vulgata torna transfiguratus est. Os evangelhos Sinópticos explicam o verdadeiro significado da palavra, acrescentando “o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a neve“, segundo a Vulgata , ou “como a luz“, segundo o texto grego.

“Este deslumbrante brilho que emana de todo o Seu corpo foi produzido por um brilhante interior de sua Divindade. O falso judaísmo havia rejeitado o Messias , e agora o verdadeiro judaísmo , representado por Moisés e Elias , a Lei e os Profetas , o reconhece e adora o Cristo, enquanto no o “Segundo tempo” Deus Pai proclamou Seu unigênito e bem-amado Filho .

Por esta manifestação gloriosa do Divino Mestre , que tinha recém-anunciado sua paixão ao Apóstolos ( Mateus 16:21 ), e que falou com Moisés e Elias antes dos julgamentos que Ele esperara em Jerusalém , fortaleceu a de seus três amigos (Pedro, Tiago e João) e preparou-os para a luta terrível de que eles deveriam ser testemunhas em Gethsemani , dando-lhes uma antecipação da glória e celeste se deleita em que alcançamos pelo sofrimento.”

Parece-nos que o Poeta quer buscar esse momento culminante da vida pública de Jesus para trazer à página poética uma expressão que trará o brilho que a compreensão “dos sentidos” seria incapaz de fazer.

Etimologicamente, a palavra “transfigurado” provém do grego: “metemorphothe”, donde decorre metamorfose. Nós usamos esta palavra para descrever a mudança que ocorre, p.ex., quando uma lagarta se torna uma borboleta. Analistas dizem que Jesus tranfigurado é descrito nos evangelhos de forma similar ao que fora Moisés no Sinai: “a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante a sua conversa com o Senhor; (…) todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele (…) e havia um véu no seu rosto. Mas, entrando Moisés diante do Senhor para falar com ele, tirava o véu até sair. E, saindo, transmitia aos israelitas as ordens recebidas. Estes viam irradiar a pele de seu rosto; em seguida Moisés recolocava o véu no seu rosto até a próxima entrevista com o Senhor.”
(Êxodo, 34:29-35).

Que metamorfose(s) procura o poeta? Seria (a) luz que aos olhos do leitor possa iluminar territórios nunca vistos? Deixaria, em meio à transfiguração, véus que haveremos de desvelar para entender toda a Poema do Cristão Jorge?

Encontramos alguns porquês e algumas mais de (suas) decorrências ou consequências – que são deliberados vôos, na poesia de Jorge (e de resto na Poesia tout court); e a razão (esses tantos porquês) às vezes faz despencar do alto vôo em nossa pobre humanidade. Por certo, mesmo na escuridão da busca de entendimento, pode-se entender que uma coisa é do estado larval (a lagarta que sonha em alçar vôo) e o Poeta-pássaro capaz de vôos – “vôos eram fora do mundo”. Vôos que são a própria finalidade

– “Não há escuridão mais para mim.” Declara aquele que “compreende” com a “inteligência transfigurada em Cristo”.

Por isso mesmo, talvez, é que possa o poeta “transfigurado” afirmar:

“Opero transfusões de luz nos seres opacos”.

Eis-me opaco para tão alta compreensão, diria o leitor; para quem armar-se da mera inteligência (Razão) diante da Poesia é sempre pouco – tal como os apenas os sentidos o são para, depois de “decomposto e absorvido” transformar num caldo tão rico de místicos vôos…

É preciso mais ao poeta e sua “inspiração” em direção ao fecho do poema, a prece:

”Nada sou.
”Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!”
[Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo sua misericórdia infinita].

(*) No próximo post, a releitura do poema “Confissões, Lamentações e Esperança a Caminho de Damasco” e no terceiro da série falarei sobre os (b) De “Tempo e Eternidade”.
+++++
Fontes:
(1) LIMA, Jorge de. “A Túnica Inconsútil”, Edit. Aguilar, “Jorge de Lima: Obra Completa”, Rio de Janeiro, 1958, p. 425/6.
(2) REVISTA MAGIS – CADERNOS DE FÉ E CULTURA, Ed. 2006.
(3) The Catholic Encyclopedia – verbete Transfiguration.

Poetas da minha vida

Lendo um blog sobre poesia me ocorreu de iniciar uma série sobre poetas que li e gostei ao longo dos meus 56 anos.

 

http://bit.ly/vU09PG Rimbaud bio

Prosa do mundo? O espanhol Cervantes, o luso Camões (oops! poesia+prosa =invenção da língua), um francês: Balzac. Um americano: Faulkner. Um alemão (pode ser 2?rs!): Hesse e Th.Mann. Um francês: BERNANOS (ah, já tem Balzac, mais j’en ai sure, ça vaut la peine!). Um belga? G. Simenon (tb. precisamos d’une détente, rs!). Um só brasileiro? Ooo… Rosa, o Guimarães. Há também os prosadores católicos franceses Mauriac e J. Green q merecem ser lidos todo o tempo possível, independente de religião. De fato, os franceses, só comecei a entendê-los e a amar sua poesia de verdade, agora na maturidade: Rimbaud e Baudelaire. E há René Char e Yves Bonnefoy, poesia pra ser amada, antes de ‘entendida’.

Poesia do mundo? Rimbaud e sua turmaA mais amada: Emily DICKINSON, depois de Dante, Camões (oops, não seria este um prosador do mundo? um inventor da língua portuguesa), Walt Whitman (second in English), W. B. Yeats, T.S. Elliot, Yves Bonnefoy, René Char (já citados); ah, tem tb. o prosador-poeta Victor HUGO, pra nos deixar au res du chaussée…Charles Baudelaire e o mercador de armas Arthur Rimbaud.
E os brasileiros se resumem na trindade sagrada da Poesia: Murilo Mendes + Jorge de Lima & Augusto F.Schmidt. E há ainda o parnaso-modernista Bandeira, estrela para nossa vida inteira; há os ‘novos’ Gerardo Mello Mourão e Bruno Tolentino – nosso poeta ‘maldito’ do séc.XX – e o clássico de minha terra Brasigóis Felício!

Rezando com os poetas (1)

  • VEM DE FRANKLIN DE OLIVEIRA as citações que me inspiram nessa tarde quente de início de feriadão:S.DomingosMeditando.jpg

“Louvado seja N.S. Jesus Cristo

E a mãe dele – Nossa Senhora, minha madrinha.

Louvado seja o que é d’Ele e d’Ela vem:

ritos, omitos, benditos, são beneditos !

Louvadas sejam suas palavras tão bonitas:

Gloria Patri, Aleluia, Salve Rainha

e também suas palavras misteriosas:
per omnia secula, vita eterna, amen.

Louvado seja este louvado em nome d’Ele
E mais louvado que este “louvado” – Jesus Cristo
mais  a mãe d’Ele – Nossa Senhora, minha madrinha.

Louvadas sejam as virtudes teologais
e entre elas três seja louvada a Fé.

Louvados sejam os santos nacionais

martirizados pelos caetés.

Louvadas sejam as coisas religiosas:
santas missões e procissões, sermões.

Louvado seja o meu país cristão
pelo tempo da Páscoa descoberto
todo enfeitado como um céu aberto.

Louvado seja esse Jesus d’aqui.
Jesus camarada, Cristo bonzão,
a quem todo brasileiro ofende tanto
contando sempre com o seu perdão.”

(Jorge de Lima, Novos Poemas , in Obra Completa, p.306-7, Ed. Aguilar, 1958).
===========================
Oração a Teresinha do Menino Jesus
(Manuel Bandeira)

Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa, não, Teresinha…
Teresinha, Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.

Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No Pelo Sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!…
Santa Teresa, não, Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.

+++++
(*) Fontes: OLIVEIRA, Franklin de. “A Fantasia Exata”, Zahar Editores, RJ, 1959, p.130-1;
BANDEIRA, Manuel. “Poemas Religiosos e alguns libertinos”. Seleção e posfácio de Edson Ney da Fonseca. S.Paulo. CosacNaif, 2007, p.50.
post-Post:
Como não me contentava com o final do poema, como transcrito por Franklin de Oliveira, fui à antologia da Aguilar e completei a transcrição que dá sentido ao “Cristo bonzão” rima fácil para Perdão. O que se estende a são Jorge, da trindade sagrada dos poetas católicos do Brasil (junto com Murilo Mendes e A.F.Schmidt). E tenho dito, por hoje.
Fraternellement à vous,
Beto.

Adeus, Poesia*

Jorge de Lima*

SENHOR JESUS, o século está podre.
Onde é que vou buscar poesia ?
Devo despir-me de todos os mantos,
os belos mantos que o mundo me deu.
Devo despir o manto da poesia.
Devo despir o manto mais puro.
Senhor Jesus, o século está doente,
o século está rico, o século está gordo.
Devo despir-me do que é belo,
devo despir-me da poesia,
devo despir-me do manto mais puro
que o tempo me deu, que a vida me dá.

Quero a leveza  no vosso caminho.
Até o que é belo me pesa nos ombros,
até a poesia acima do mundo,
acima do tempo, acima da vida,
me esmaga na terra, me prende nas coisas.

Eu quero uma voz mais forte que o poema,
mais forte que o inferno, mais dura que a morte:
eu quero uma força mais perto de Vós.
Eu quero despir-me da voz e dos olhos,
dos outros sentidos, das outras prisões,
não posso Senhor: o tempo está doente.

Os gritos da terra, dos homens sofrendo
me prendem, me puxam – me dai  Vossa mão.

+++

Fonte: DE LIMA, Jorge. “Tempo e Eternidade”, Obra Completa, vol.1, p.412/413. Aguilar, 1959.
Um poema assim pode ter influenciado G.Bernanos a escrever o excelente texto transcrito em “Brésil, terre d´Amitié” (La Table Tonde, Sébastien Lapaque, 2009), sobre o poeta e amigo de G.B., cuja poesia o francês conheceu na tradução de Robert Garric. O texto “Jorge de Lima” foi prefácio a uma edição em espanhol dos poemas de Jorge de Lima, sob o título “Poemas” (Oficinas Gráficas A Noite, RJ, 1939, seg. relato de Lapaque).
Com certeza, tenho que o Poema do Cristão encantava G.B. Espero encontrar poemas em francês na tradução de R. Garric e volto em breve (aliás duas coisas difíceis de se encontrar: estes poemas em francês e a tradução para nosso idioma que dizem teria sido feita por Jorge de Lima para ” Sob o Sol de Satã”, de G.B.).
Por ora, ficam essas referências que dizem provam por si mesmas que: “Que cette poésie soit chrétienne, nul ne saurait s´en féliciter plus fraternellement que moi. Elle l´est comme elle droit l´être, librement. Dieu nous garde des poètes apologistes!…” (G.B., transcrito por Lapaque, op.cit, pág. 51).

Minhas Leituras da Quaresma (3)

Confissões, Lamentações e Esperança
a Caminho de Damasco*

O MUNDO precisava de amor:
na véspera de Vossa Morte nos deixastes um legado:
a Hóstia para matar fome e sede.
E vossa Missão terminada subistes para a direita do Pai
e lhe mostrastes as cicatrizes que Vos deixamos no corpo.
Pai Amado, eu que sou a realização de Vosso Pensamento,
dai-me complacências.
Senhor, minha Fé é diminuta: aumentai-a.
Dai-me olhos de contemplação,
dai-me respostas,
dai-me um cavalo de Vosso Reino
que tomando as rédeas de minha mão me leve para Damasco.
Pai Amado, sou cego, aleijado e paralítico:
meus membros não darão na Cruz.
Estou calejado de perenes quedas:
Curai-me todo.
Transformai-me como transformastes o vinho.
Não me abandoneis em interrogação permanente.
Dei-vos uma costela para fazerdes Eva
e as 23 restantes a Satã para corrompê-la.
Sou colono e amicíssimo de Lúcifer.
Sou da primeira serpente, sou um prisioneiro da primeira guerra.
Dai-me um cavalo de Vosso Reino para ir a Damasco!
Sou fornecedor de armas para os filisteus.
Sou o que torpedeia a Arca e a Barca.
Sou reconstrutor de Babel.
Sou bombeiro do incêndio de Sodoma.
Fui demitido da Vida,
e Vós me enviastes outra vez.
Demiti-me de novo que errei mais!
Sou o assassino de Lázaro,
sou o plantador do joio:

Dai-me um cavalo para eu fugir!
Quis afogar São Cristóvão,
transformei as algas em micróbios
e as asas em aviões de guerra!
Deus Amado, Vós que tendes sido meu pára-quedas,
meu ascensor, minha escada, minha ponte,
segurai-me para que eu não me precipite dos arranha-céus!
Dai-me um cavalo para eu fugir!
Dai-me um cavalo de Vosso Reino
e que eu sem querer vá para Damasco
Pai Amado, no caminho de Damasco
basta uma sílaba para eu enxergar de novo,
ou um coice de Vosso cavalo para eu despertar na Luz!

++++

* Fonte: LIMA, Jorge. Obra Completa/Vol.I, Rio de Janeiro, Aguilar, 1958, pág. 441/2.