Um ser de circunstância e eterno

MURILO MENDES (1901-1975)

Murilo Mendes, “o poeta brasileiro de Roma”, é o protagonista desta terceira crônica da série. O cosmopolita poeta mineiro continua sendo o menino de Juiz de Fora que se fez Poeta como “ser de circunstância e eterno”

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A JORGE DE LIMA* por Murilo Mendes

POEMA FALADO por mim em SoundCloud.

Jorge de Lima+CapaVol1ObraCompleta

A JORGE DE LIMA (por Murilo Mendes)
INVENTOR, teu próprio mito, Jorge, ordenas,
e este reino de fera e sombra,
Herdeiro de Orfeu, acrescentas a lira.

À mesa te sentaste com os cimeiros
Dante, Luís de Góngora, o Lusíada,
e Lautréamont, jovem sol negro
que inaugura nosso tempo.

O roteiro traçando, usaste os mares.
A ilha tocas, e breve, a configuras:
ilha da realidade subjetiva
onde a infância e o universo do mal
abraçam-se, perdoados.
Tudo o que é do homem e terra te confina.

Inventor de novo corte e ritmo,
sopras o poema de mil braços
fundas a realidade.
Fundas a energia.
Com a palavra gustativa.
A carga espiritual
e o signo plástico
nomeias todo ente.

Oh frêmito e movimento do teu verso
mantido pela forte e larga envergadura.
Força da imagem que provoca a vida
e, respirando, manifesta
o mal do nosso tempo, em sangue exposto.

Aboliste as fronteiras da aparência:
no teu livro de espanto se conjugam
sono e vigília,
vida e morte,
sonho e ação.

Nutres a natureza que te nutre,
mesmo as bacantes que te exaurem o peito.
Aplaca tua lira a pedra, a angústia:
cantando clarificas
a substância de argila e estilhaços divinos
que mal somos.
+++++
Poema publicado em “Letras & Artes”, suplemento do jornal A Manhã, Rio de Janeiro, 24 de agosto 1952.

Retrato da amizade (2)

AINDA SOB A INFLUÊNCIA de Maria Betânia Amoroso que nos convida a viajar ao universo de Murilo Mendes, reencontro “Tempo e Eternidade” – 

d’onde se pode ampliar o campo de visão e se vislumbram os raios da amizade profunda que uniu esses dois artistas brasileiros e cosmopolitas: Ismael Nery e Murilo Mendes.

A conversão de Murilo Mendes ou: “Retrato Da Amizade” (1)

MURILO MENDES o Poeta Brasileiro de Roma – livro de Maria Betânia Amoroso
é livro de erudição e muito informativo.

Os fãs do poeta mineiro (e cosmopolita) temos em Betânia uma fonte riquíssima de informações sobre a vida, a viagem, as amizades, os amores e a invenção muriliana.

Apesar de manter um certo jargão acadêmico, “vício do cachimbo da pesquisadora universitária“, o livro é muito bom.

Amorosa viagem com  "o Poeta Brasileiro de Roma"
Amorosa viagem com “o Poeta Brasileiro de Roma”

DESTA FEITA, venho para registrar meu encantamento com a leitura do livro da professora Maria Betânia e a grande curiosidade não resolvida sobre o sobrenome da Autora que pode ter (ou não) a ver com meu amado Alceu.

Tamanho é meu entusiasmo com o estilo de Betânia Amoroso que já encomendei à Estante Virtual outro livro dela, Betânia: “Pier Paolo Pasolini“, sobre, evidentemente, a vida e obra do cineasta, poeta e polêmico escritor italiano.

O livro que tenho em mãos e que leio com entusiasmo foi gestado em longa pesquisa, realizada em parte na Itália (entre 2001/09), período em que Betânia Amoroso ouviu, leu e viveu (imagino, pela paixão que o texto transmite) Murilo e suas memórias.

Por ora, fiquem com o belo texto sobre a conversão de Murilo Mendes, de outra safra de Maria Betânia (os artigos), encontrado em academia.edu -, pois ainda não me considero preparado para uma resenha completa do livro, digamos que ainda estou percorrendo o caminho nesta viagem com (e sobre) “O Poeta Brasileiro de Roma”.

 

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J.G. Merquior: Muriloscopia

[Ou: “O travo agridoce da Saudade.]

J.G.MerquiorJ.G. MERQUIOR escreveu, em maio de 1978,
aquele que considero o prefácio definitivo
e, naturalmente, com um título tipicamente merquioriano:

Notas para uma Muriloscopia“.

Ninguém melhor do que J. Guilherme poderia ter uma visão tão aguçada sobre a poesia de MM (1901-1975).

E se o leitor perguntar-se: porque a mensagem de Murilo Mendes, baseada num catolicismo não militante, traz uma mensagem única e até hoje válida num mundo ?

– “…No legado do cristianismo uma mensagem tão ou mais pertinente ao nosso tempo social de que à época de Jesus de Nazaré.
Ou:  porque “o sentimento básico do poeta Murilo Mendes era [é], segundo Merquior: “…no seio mesmo da sua consciência da finitude do mundo criatural, antes a vibração da esperança, a crença… na regeneração do ser.

MURILOSCOPIA (c)J.G. Merquior

“NA CONSCIÊNCIA do público e da crítica de poesia, a imagem da obra ímpar de Murilo Mendes parece ter passado de tangente a eixo da nossa tradição moderna. Longamente considerado voz solitária e insólita, o poeta figura hoje, e com toda a razão, entre os tetrarcas da lírica modernista. Qual o sentido dessa inusitada parábola na recepção de Murilo? Quais as linhas de força que, na sua produção poética, se responsabilizam por ela?
“Creio que o segredo se prende à própria natureza do modernismo. Como estilo compósito, próprio à primeira fase da nossa ‘modernização’, isto é, a esta transição social que ainda estamos vivendo (e em muitos pontos, sofrendo), o modernismo brasileiro foi um estilo híbrido e heterogêneo, feito da convivência ou fricção de estilemas tipicamente ‘arte moderna’ com vários traços a rigor bem pré-modernos (porque prolongamentos de formações artísticas anteriores) e, no entanto, dotados (como se vê em Cecília, Schmidt, Cornélio Pena) de inegável poder adaptativo e funcionalidade estética. Por isso mesmo é que nosso modernismo literário seria, ainda mais que o plástico, e sem dúvida bem mais que o musical, um complexo estilístico. Não foi por acaso que só pôde ter a unidade de um movimento, jamais a uniformidade de uma escola.


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De Murilo a S.Domingos

São Domingos

Antes mesmo de nasceres
Já o fogo te formava,
Já o fogo te anunciava:
Sereis a vida toda
Trabalhado pelo Verbo,
Atacando o lado oposto.

Assim tua força lúcida
Concentrara-se no Cristo.
Soubeste a linguagen macha
Que mostra o ser todo inteiro;
Enquanto a escrita do herege
Divide o Verbo Castiço,
Ferido na sua essência.
Quiseste comunicar-nos
Teu fogo de alta linhagem.S.DomingosMeditandoMas hoje te rejeitamos,
Duro Domingos domado
Espanhol – intolerante – ,
Considera nosso não:
Que a dimensão atual,
Contrária ao rigor antigo
E à purgação pelo fogo,
Aceita o limite humano
Inscrito no racional.
+++++
Fonte: MENDES, Murilo. Poesia Completa & Prosa, R.Janeiro, Nova Aguilar, 1995, pág.578/9. Para rezar com S. Domingos. Festa celebrada no dia 27.Julho.

Murilo Mendes revisitado

REGINA PACIS

Nossa Senhora de Nazare
Rosa branca do universo, desejada dos povos,
À tua passagem os elementos confabulam.
Através das gerações teu poder se ampliou,
Maria anunciada muito antes de nasceres,

Anunciada pelo homem, pelas aves do campo,
Pela estrela da manhã, pelo sopro de Deus.
Ó tu que percorreste vales e montanhas
Pra estreitar Isabel naquele abraço humano,

Atravessa este mundo mineral e de luta,
Ó Maria admirável, nossa glória, nosso ímã.
Ubíqua Maria, visita o universo de ponta a ponta
E une todos os homens, num abraço elétrico.

++++
Fonte: MENDES, Murilo. Poesia e Prosa Completa, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1995. P.325 – “As Metamorfoses”.
Este post é dedicado a minha Amiga MEG. Minha prece é que “Deus te proteja, dileta amiga, pois como dizia S. Bento: “de dei misericordia nunquam desperare”.

A Ressurreição, mirada poética

Descalçando a morte, dos infernos vindo,
Rompe a dura matéria do universo
O Cristo. Unido ao Pai celeste no jardim
Prepara a coroa do homem novo.

Maria Madalena em véus azuis
Pensa ver o hortelão, mas logo O vê:
Quem Lázaro da cova levantou,
Diante dela agora se levanta.

O Mestre diz: “Maria não me toques.
Subo para meu Pai e vosso Pai,
Para o meu Deus e vosso Deus”. Ressurge

Dentre os mortos, com Ele ressurgimos
Que já nos precedeu na Galiléia
Eterna, vida nossa e nostalgia.

++++
Fonte: Mendes, Murilo. “Sonetos Brancos”, in: Murilo Mendes: Poesia Completa e Prosa. Aguilar, 1995, pág. 453/4.

Minhas leituras da Quaresma

Murilo Mendes:
SANTORO*

  • A ética da exatidão.
  • Um lucano que se tornou grego. Hipótese perigosa, talvez falsa; mas fascinante. De qualquer maneira, um certo Santoro definitivamente tornado Santoro. Henrique IV pelo avesso, cheque-mate a Pirandello. Transportamo-nos à Sicília.
  • As coisas têm raízes e ramos“: portanto cada um tem a sua terra e o seu céu. O verdadeiro artista possui uma terra e um céu portáteis que tem de explorar diariamente.
  • Há sonho na poesia, na música, na pintura, no cinema; até na filosofia, nas propostas ideológicas e políticas. Não há sonho nestas esculturas. Freud e o daemon do inconsciente nada têm a ver aqui. Arte diurna, rigorosa.
  • As esculturas olham-nos; devemos ser dignos desse olhar.

(…)

  • Se Deus frequentasse a Universidade estudaria somente geometria.
  • Confúcio: `Pura luz sem contornos´.
  • Confúcio: ´Olha direito dentro dos teus pensamentos`.

(…)

Roma, 1971. *Extraído de “Murilo Mendes. Poesia Completa e Prosa” (vol. único), Org. Luciana Stegagno Picchio, Edit. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1995. Pág. 1333.

Finados

DIANTE DO ALTAR em púrpura, meu coração se desfaz em água a mais limpa, no sal de meus dias e minhas fraquezas.

A mesa posta e a fração de pão me transportam para o tempo de minha avó.

É um tempo tão distante, medito às vésperas de cantar um Santo, Santo é o Senhor, Hosana nas Alturas…

Meu coração é um quintal cheio de árvores e na sombra da tarde, – em que minha avó comia manga com faca -, meu coração sossega na certeza da fruta-conde que amadurece silenciosa.

Deus nos fala no silêncio… – diz o vigário em seu entendimento, também saudoso de seus mortos.

Desvio o olhar aquoso de seus olhos para o rosto de Nossa Senhora da Boa Esperança, Rainha da Paz.

Saudade do campo santo, de onde não vejo minha avó há tantos anos, saudade da infância do mundo, quando o primeiro Adão chorava em silêncio no vazio das noites a distância da avó.

Finados, saudades de sinos que não soam mais, saudando os defuntos. Neste Finados meu coração ainda ouve suas badaladas silentes e há de sonhar com o mar de Pernambuco inundando a noite do só.

Finados, ouço Murilo dizer:

“O oceano sentou-se no lajedo.

Vem, estrela dançante sobre as covas,

Vem, lua de milênios, morna e oca,

Tudo vem para nossa biografia.”

É hora da comunhão e eu me ponho em fila, pés arrastando sobre o lajedo frio, buscando a lembrança que o Encarnado nos deixou.

Saudades do tempo em que o rádio se calava dos seus ruídos comezinhos e era quase só a música do Silêncio, no entanto, agora alguém percute um instrumento em seu louvor, Divino Pai Eterno…

Finados, ecoa Murilo

“Nesta noite somando espaço e tempo,

A humanidade, desde o pai Adão,

Ante mim ressuscita grandiosa,

Apesar da sua estranha pequenez”

Finados, lembrança da vida que o Menino de Nazaré na manjedoura breve inaugura…

“Nossa forma futura e eterna se desenha

Através a fumaça azul da guerra atômica.

Elementos mais fortes que os do mundo
“O espírito da vida em si contém
Desde já que os façamos explodir
Antes do amarelo apelo da trombeta.”

+++++
Fonte – Mendes, Murilo. Poesia Completa (“Sonetos Brancos”), Ed. Nova Aguilar, pág. 452-3. Para meditar mais.