Queres ler o quê?

cropped-estantebibliobeto1.pngNão sei. Quero ler e quero ler bem! – dispara o  amigo à minha pergunta. E me devolve a palavra:

– Sabe o amigo que agora realizo esse sonho de tantos seres humanos – e o faço em tempo integral. Leio quase o tempo todo e sem a obrigação de o fazer. Talvez por isso, tenho seguido algumas regras para ler e aproveitar bem o que leio. Seguindo esse princípio, cheguei, por sugestão do professor Rodrigo Gurgel, ao livro “A arte de escrever – em 20 lições”, de Antoine Albalat.

[Uma pausa aqui para dizer da minha admiração pelas aulas que nem parecem a distância, virtuais, que tenho com o professor Gurgel. As bases da criação literária, então, recomendo a todos que amam a leitura, independente de querer ou não se tornar um escritor ou aperfeiçoar o estilo!]

– Mas serve mesmo a quem não quer escrever e só se interessa por leitura?

Sim, respondo de pronto. E dou um exemplo.

– “A leitura dos bons autores é …indispensável para a formação do estilo
(segundo Albalat). E eu diria ler é indispensável à formação do caráter.
Bem, mas isso já seria outra história e tema para outro post.

Lendo (e não precisa ser os textos sagrados), aprecia-se a vida através de um espelho que nas páginas se colocam para que nos observemos. Um criminoso de uma página de Dostoiévsky ou de Simenon – exemplos aparentemente díspares – podem, ambos, ensinar-nos de modo diverso a fixarmo-nos em valores e numa reta conduta. Estou certo em 99% (com erro de 1% para mais ou para menos!) de que Albalat está certíssimo: “o proveito da leitura depende da maneira como se lê.

Ansioso por saber mais?

– Abra o clássico de Albalat na altura da Apresentação, feita por Gurgel: “como toda leitura este livro exige bom senso, pois há uma diferença abissal entre orientar-se por meio destas lições [as 20 lições] e copiar, sem espírito crítico, os exemplos.”

– Refiro-me especificamente ao tema que hoje me ocupa a mente e a preocupação. Leio, ainda, com o fito de aperfeiçoar o próprio estilo e desenvolver um método para ajudar aos outros que gostam de ler e se vêem perdidos num mar de produções em que a subliteratura enfeita estantes e desborda as listas de vendas.


Vilém Flusser: capa-vilem-flussera-escrita
“Ler” (legere, legein) significa escolher (Herauspicken), selecionar (Klauben). A atividade de selecionar denomina-se “eleição”; a capacidade para realizá-la “inteligência”; e o resultado dessa ação, “elegância” e “elite”. (*)

A missão, pois, que se transformou na primeira tarefa foi ler tomando notas, até porque Albalat confirma o que a memória sexagenária vai confirmando: “ler, sem tomar notas, é como se nada houvesse lido.” Albalat chega a mensurar que o prazo de “esquecimento” da leitura é de seis meses. Há em relação ao enredo prazos ainda mais exíguos. Há quem devore o livro e não o tenha digerido, assinala A.A. Como a poética de enredo nunca foi o que mais me atraiu nos livros, sigo pensando que é preciso entender a mensagem de fundo que o livro me traz. Nos dois casos, não é bom valer-se apenas da memória.

A memória é coisa oscilante – adverte o escritor francês. “Não haveria sábios, se nos fiássemos nela. A verdadeira memória consiste, não no recordar, mas em ter, ao alcance da mão os meios de encontrar. A primeira condição para ler bem é, portanto, fixar o que se quer reter, e tomar notas. Um livro que se deixa sem ter extraído dele alguma coisa é um livro que não se leu.

O bom livro tem uma  capacidade de criar nos leitores tão diversas sensações quantas são as leituras atenciosas e anotadas. Lê-se também por puro entretenimento e não há mal nenhum nisso. Um Rex Stout ou um Simenon podem fazer parte de seu pacote de livros de férias, sem ferir os Gurgel, Albalat ou um Flaubert – para falar em três autores que trabalham a preocupação 1 – estilo… Um Alexandre Soares Silva pode ficar ao lado de Rodrigo Duarte Garcia ou de um Karleno Bocarro.

Mas que miscelânea! um Balzac ao lado de Javier Marías; um Linhares ao lado de McEwan?

– Não tenha medo, dileto amigo, de se entregar à leitura diversa; e que o faça também nos livros não tradicional (de papel, celulose); use-os no Kindle, no celular ou tablet, mas lembre-se: tome notas.

Nessa série de posts, vou anotando observações dessas viagens que venho fazendo a livros e autores os mais diversos (só ficção ou crítica).  Sigo o mandato do anjo a São João no Apocalipse, a respeito de um certo “livrinho” – “Toma-o; e come o livro”. 

Ler, devorar, digerir. Em papel ou digital. Separar as correntes, percorrer as vertentes de cada qual – entender sua filiação, sua história – afinal cada livro há de valer pelo suor que emanou do autor e se este levou a sério o seu ofício – terá captado (e atiçado) “o nervo divino das coisas” (Ortega Y Gasset, via Gurgel) – e só por esta razão há de ser lido (e às vezes relido).

Uma lista recente anotada no caderno de “linguados” à minha própria maneira (sem ordem alfabética), seja para tomar notas (de comparação antes que de erudição!), para obter citações e registrar apreciação pessoal do que se vai devorando.  Isso não significa que falarei de todos, mas um pouco do que vale a pena apreciar em alguns deles como numa “conspiração com o Leitor” (Tóibin) deste leitor:

  • “A próxima leitura”, Felipe Fortuna.
  • “Poems” by Elizabeth Bishop (original e traduções de P.H. Britto).
  • “Crítica, literatura e narratofobia”, Rodrigo Gurgel.
  • “O bispo negro e Arras por foro de Espanha”, Alexandre Herculano.
  • “O trem e a cidade”, Thomas Wolfe, trad.Marilene Felinto.
  • “O pai Goriot”, De Balzac.
  • “Mrs. Dalloway”, Virgína Wolf.
  • “Os mímicos”, V.S. Naipaul.
  • “A estrada”, Cormac McCarthy.
  • “O palhaço”, Heinrich Böll.
  • “As almas que se quebram no chão”, Karleno Bocarro.
  • “Maya”(releitura) e “Idílio na Serra da Figura”, Ursulino Leão.
  • “O livro roubado”, Flávio Carneiro.
  • “Ferreiro do bosque grande”, J.R.R. Tolkien.
  • “Reçaga”, Carmo Bernardes (releitura, 40 anos depois!)
  • “The Language Instinct”, Steven Pinker (eBook/Kindle).
  • “Assim começa o Mal”, Javier Marías.
  • “Os palácios distantes”, Abílio Estévez (interrompido!)
  • “Os invernos da ilha”, Rodrigo Duarte Garcia.
  • “Um velho que lia romances de amor”, L. Sepúlveda.
  • “Wilful Disregard”, Lena Andersson (autora sueca, em inglês).
  • “The Children act”, Ian McEwan (em inglês).
  • “A orgia perpétua”, Vargas Llosa (em andamento).

Se você, dileto leitor, tiver interesse em saber mais ou participar dessa aventura da leitura, fique à vontade para enviar-me uma mensagem para betoq55 at gmail.com.

Entrevista ao Opção Cultural

Nota

Conversei com Yago Rodrigues Alvim, editor de Cultura do semanário Jornal Opção (Goiânia). Leia a entrevista abaixo.

Clique no logo do jornal para ler a entrevista Opção Cultural.capa-opcao-16out2016

Da série canções mexicanas (iv)

MEXICANAS (4)

Cantar uma canção que seja pura umidade
Abolir o seco do cerrado com água do mar.
O canto assim reproduzido na seca tarde:
um por ter vivido e outro por se fabricar.

Eis o mister do que se quer molhado –
sem espanto ou abalo, na face do fado.
Do que do seco há de estar à contrapelo,
Silente se deseja mas cria grave apelo.

Eis o candente canto que reluz sem nada
Eis o mar do que na savana embarcara
Só a vela e o vento, sem trastes ou remos
Eis o que vai à raiz da fala e o ser aclara.

Todo dia, quando da janela, te vejo, ó Mar
– É o que desejo dizer-te: sou do Cerrado…
Desde menino tenho notícia do salgado
escondido e velado: tua face mais vulgar.

A candente luz na superfície de vidro é falsa
Sei que queres à lagoa grande te esgueirares
Deixa estar, amigo, viajo com a gaivota –

Aqui não estarei para sempre. Meu caminho
entanto, não deixarás jamais; o sal da memória
Vale, ó mar, intenso e duradouro – isso me basta!

Caderno de rascunhos poéticos (2)

Mexicanas (1)
************AguaEsol_shutterstock_156114050

Deito-me com a água
Ela me envolve e acaricia
Feito nuvem à montanha –
pelagem de lhama
em cordilheira.

Deito-me com a água
Ela me exalta –
dedo de um deus
Na corredeira:
Sábio riacho.

Deito-me com a água
Como quem vai renascer:
Ela me dessedenta –
Fresco pote de barro
Na tarde do sertão.

Deito-me com a água
Ela tão doce;
Ela tão clara…

Cheio de sonhos e clareiras
Na mata: meu coração.
Deito-me com a água
em divórcio-aquário
à amada não causo
ciúme nem paixão…

Deito-me em seu ventre
Nasciturno e dependente
Um Jonas penitente –
à espera de voltar à praia e à missão:
escavar o mineral do verso em terra.

Deito-me com a água
epifania –
ressurreição.
***************
Cancún, 02/05/16.

Caderno de rascunhos (1)

O temor ao Grifo

                                       “…encolhe-se o animal nas entrelinhas,
                                             e ri-se a sós de quem, por estar vivo,
                                             faz da poesia um desafio e um risco.”                                                                                                                                                (Ivan Junqueira).Grifo

Dizer o quê – do posto em que me vejo?
– Todo dia ler um pouco e estar a postos.
Não é o rio de minha aldeia nenhum Tejo.
Restam-me esses parcos versos compostos.

Digo do ponto de vista em que me vejo:
Ler e reler o mesmo livro, au rez-de-chaussée
Vehementius et pronfundius‘ – é meu desejo.
Confissão de leitor, doravante réu do escrever.

Ler e reler o mesmo livro de alto a baixo,
antes de o véu noturno cobrir-me o rosto
de solidão e medo qual a Ciência amarga.

Seguir incólume à fera que nas dobras do livro
A poesia abafa; ah, sede que o Grifo encolhido;
Sobranceiro, ameaça quem, sedento, vá ao poço.
*****
Goiânia, abril 2016.

 

Para ler na Quaresma

Dreamstime3cruzes (2)  Por vezes penso em Ti
Ou: Tua dor assim sentida

Ao pensar no Teu Sacrifício
repito: não há suplício igual a
essa dor – símile, impingida.
HḠentanto, uma alegria
em tamanha dor sentida.

 

Mesmo o pagão, incréu,
reconhece a paga recebida.
Se as escamas dos olhos
caem; se do cavalo é descido.

Incompreensão é um lenço
embebido em vinagre, sabem:
os que o Cordeiro mutilaram.
Longe e calmo o Verbo ouvia.

O clamor na Cruz emitido.
O Filho de Deus a tudo tolera
para que ao fim o homem viva.

Morte e vida; céus rasgados
de alto a baixo feito seda.
O silêncio do sepulcro aberto
foi a coda de tal infâmia finda.

Ressuscitou! Disseram mulheres
e o mundo as seguiu, em páscoa –
Eia que imensa luz assumida!

Do cordeiro ao homem unindo, a
dor reata Deus e criatura decaída
Há na dor uma contrapartida:
Tu e Eu atados em fio de Vida.

****
Literatura Goyaz / Adalberto de Queiroz (org.). – Goiânia: Edit. Livres Pensadores, 2015, p.19.

Diários de um solitário

Livro I

Janela_Solidão

© Ahau1969 | Dreamstime.com

Quando do amor estiver sedento,
O peito dorido, a alma em pranto
À lágrima cede o cenho franco.

Só e triste deve o ser vivente
De todos fugir; em busca da prece
Do caminhar solitário; ausente.

Distante de todos e tudo, em busca
de si mesmo, sorvendo do mais fundo:
D’alma resgatar o butim de si mesmo.

– A poesia ao espírito solitário exalta.

Sorve e se deleita e calmamente
Se ausente do ruído geral; da orbe
Foge! O mais só; o mais nu – foge,
Pois, e sorve o que seja verdadeiro.

Longe, bem longe, não bastaria…
Que dissesse muita coisa; ouvir, sim!
Preferencial via do que sofre assim:
E saciado a sede da ausência cura.

Do amargo prazer aparente de tudo
Possuir – de todos próximo e cálido,
Está, mas de vero nada lhe pertence.

ω/ω
Beto Queiroz, drafts para Cadernos de Sizenando, vol, II.
(c)Imagem destacada – © Craig Ikegami Solitude | Dreamstime Stock Photos

 

No mínimo…#26

A última palavra

p/r.n.s.

A última palavra a ser dita?
Dimas teria bem dito –
– “Para nós isto é justo…
Ante à cruz e sua desdita.

Das três cruzes fincadas Calvary-Francisco-Ribalta
No Gólgota, castigo havia
A um dos três não merecido.
Se receberam o que mereciam
Dois dos torturados; ao Outro
Mal nenhum se lhe atribuíram.

– Agora, somos só nós dois!
Teria dito Georges no portal,
no limiar inesperado das gentes.
– O que nos restará dizer à Tal?!
./.
25.2.2016.

A estatura do poeta Tasso (i)

– MAS POR QUE ler e pesquisar um poeta tão velho?
A pergunta vem de gente instruída, leitores de boa cepa, conhecedores da literatura da hora e da antiga.
Não me surpreende tal desconhecimento, em relação ao Tasso da Silveira, quanto me chocou o mesmo, ao eleger o Augusto Frederico Schmidt como alvo de uma homenagem ao Cinquentenário de seu último livro (Sonetos) – o evento que realizamos, com sucesso, no primeiro semestre deste ano 2015 teve de superar o estigma do “poeta velho”.
HomeroPoeta Tasso-da-SilveiraTorquato Tasso

Minha resposta em um modo meio embaraçado é mais ou menos na linha do pesquisador que ama o assunto pesquisado. Então, hum…
Por dentro, respondo em silêncio:
– Velho? Imagina. Perto de Homero é uma criança saída dos cueros, como o outro Tasso (o Torquato) é um jovem adulto.
Não há idade na boa Poesia ou se prefere use a metáfora do vinho etc. etc.
Portanto, prossigo com minha leitura encantada da obra de um dos maiores poetas do Brasil no século passado. Poeta Tasso da Silveira_Bico-De-PenaIsmailovitch

Então, dá-se que descubro um artigo do professor José Carlos Zamboni (ver link abaixo para ler a íntegra) – o que só me fez caminhar para uma certeza: o que seria uma palestra-artigo sobre “A tríade dos poetas católicos do Brasil” há de se tornar um ensaio sobre um quarteto, em que o 4o. elemento passa de coadjuvante a protagonista. Agora são 4: Augusto, Jorge, Murilo e Tasso.

Assim provocou-me o professor Zamboni, falando sobre o Tasso da Silveira – entre os demais católicos escritores ao falar de “nomes como os romancistas Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, Octavio de Faria (cunhado de Alceu), Gustavo Corção, José Geraldo Vieira, Plínio Salgado; e poetas como Tasso da Silveira, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, e até o Vinícius de Moraes da primeira fase (que depois trocaria o catolicismo da juventude pelo animismo panteísta dos terreiros de candomblé). Não se deve excluir desta lista nem o poeta Manuel Bandeira, que foi recuperando a fé à medida que envelhecia, nem Mário de Andrade, católico que fingia não o ser…

“O mais homogeneamente católico dos nossos poetas católicos foi sem dúvida o curitibano Tasso da Silveira, cuja obra se encontra infelizmente esquecida dos editores e do público. Quando for reeditado, os futuros leitores de poesia tombarão de espanto (na remota hipótese dessa espécie, a dos leitores de poesia, sobreviver aos predadores culturais desta e das próximas décadas).

“UM POETA a ser lembrado sempre. Curitibano, cantou sua terra, viveu a poesia mesmo com a vista cansada lhe faltou. A história do “mais homogeneamente católico” dos poetas-católicos-poetas do Brasil assim se pode contar.”

Poetas católicos do Brasil
Por José Carlos Zamboni*

“Num país e numa época em que os principais críticos literários brasileiros eram homens sem fé religiosa, ou já sem entusiasmo pela fé, a conversão e militância católica de Alceu de Amoroso Lima foi uma extraordinária novidade, de extensa repercussão, sobretudo a partir de 1928, ano em que assumiu a direção do Centro Dom Vital e de sua revista “A Ordem”, criados em 1922 por Jackson de Figueiredo (mesmo ano da exageradamente famosa semana de arte moderna paulista). Jackson morreu prematuramente, em 1927, e foi o principal responsável pela conversão de Alceu.

”Ainda está por ser feito o estudo definitivo da importância do Centro Dom Vital e de sua revista “A Ordem” para o pensamento brasileiro, responsáveis pela criação de uma mentalidade cultural cristã disposta a discutir a realidade contemporânea e nela seriamente influir. Aquele periódico criou uma atmosfera favorável à expressão e expansão de uma corrente literária espiritualista, basicamente católica, que reunia nomes como os romancistas Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, Octavio de Faria (cunhado de Alceu), Gustavo Corção, José Geraldo Vieira, Plínio Salgado; e poetas como Tasso da Silveira, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, e até o Vinícius de Moraes da primeira fase (que depois trocaria o catolicismo da juventude pelo animismo panteísta dos terreiros de candomblé). Não se deve excluir desta lista nem o poeta Manuel Bandeira, que foi recuperando a fé à medida que envelhecia, nem Mário de Andrade, católico que fingia não o ser.” (José Carlos Zamboni em “Poetas católicos do Brasil”).

Da tríade elevada ao quarteto e a importância do 4o. elemento. Eis o meu delicioso desafio da hora presente.

Mini-bio de TASSO DA SILVEIRA (1895-1968).LivroTassodaSilveira_CancoesCuritibaPoeta Tasso-da-Silveira

Murilo Mendes, retrato by Guignard.

Poeta e escritor nascido em Curitiba (Paraná, Brasil). Formado em Direito,  no Rio de Janeiro. Considerado um dos representantes da ala espiritualista do modernismo, ao lado de Cecília Meireles e Tristão de Ataíde. Pertenceu ao Jorge de Lima_Foto Retocadagrupo da

O grande lírico, o

O grande lírico, o “poeta-gordo”, o poeta do amor, do mar, da morte. O poeta de Deus.

Revista Festa, da qual foi um dos fundadores. Estreou como poeta com Fio d’Água, em 1918. Somente a partir do terceiro livro — Alegorias do Homem Novo—, em 1926  é que adere ao verso livre.

Seleta
A seleção de poemas de Antonio Miranda é uma amostra representativa da poesia de Tasso da Silveira e eu a li com alegria, mas o pequeno volume “Canções a Curitiba & Outros Poemas”, intr. e seleção de Cassiana Lacerda Carolo, editado pela prefeitura de Curitiba no centenário do poeta em 1996, na coleção Farol do Saber* provê ao leitor visão mais ampla da obra poética de Tasso.

Da SELEÇÃO de Antonio Miranda…entre as jóias do “mais homogeneamente católico” dos ‘católicos-poetas’ do Brasil.
***********************************
O ÚLTIMO SONETO

AINDA hoje a Vida, a carcereira,
deu-me, por entre as grades da prisão,
a minha bilha de água verdadeira
e o meu pedaço humílimo de pão.

A fome fez da minha boca mendigueira
uma cítara, e a sede deu-lhe a afinação
que têm as folhas outoniças da amendoeira
para os dedos sutis da viração.

Assim, cada bocado de centeio
que trituro nos dentes, sabe-me, antes,
a um manjar esquisito e sem igual.

E cada sorvo de água, fresco e cheio,
vibra em meu paladar cordas ressoantes
de secreta lascívia espiritual.

************************************

LIBERTAÇÃO

NOSSOS desejos se purificaram
e o nosso pensamento
foi subindo, ascendendo, serenando…

Nossas paixões se altearam
como o vento,
que, depois de varrer o pó do chão,
para as estrelas tremulas se eleva,
e, mais alto que a sombra, além da treva,
fica ressoando,
longe e livre, na ignota solidão…
++++++
Fonte: SILVEIRA, Tasso da. O Canto absoluto seguido Alegria do mundo. Poemas. Rio de Janeiro: Edição dos Cadernos da Hora Presente, 1940. 143 P. 15X21 cm. “ Tasso da Silveira “ Ext. bibl. Antonio Miranda.


| Do livro “Canções a Curitiba & Outros poemas” |

INVERNO.
(c) Tasso da Silveira.
**************************
Chegou junho …
E Curitiba vestiu-se toda de branco
e apertou o seio túmido,
que cheira a malva, em rendas alvas,
e pôs no cabelo a estrela da manhã
pensando que o sol claro
era um príncipe louro e jovem
que vinha
todo coberto de ouro,
pedir-lhe a mão …
Oh, logo à noite, ela porá, sem dúvida,
o seu colar de fogueiras de São João …
++++++++
PENSAMENTO
A Jackson de Figueiredo.

Ah! ventura de ser a pedra informe
que não sonha, não pensa, não cogita,
e dentro da mudez erma e infinita
do próprio ser eternamente dorme …

A dor suprema, o orgulho desconforme,
o ódio a sangrar, – tudo o que em mim se agita –
devo-o à centelha dessa luz maldita
que mais negra me faz a treva ernome …

O mal que dela nasce, o mal tremendo,
foi subindo … aumentando … foi crescendo,
e hoje minha alma toda inteira inunda …

E hei-de ir em busca do Último-Momento,
vendo que se me torna o Pensamento
uma ferida cada vez mais funda ! …
******************************************
Do livro “Canções a Curitiba & Outros Poemas”, Tasso da Silveira, Farol do Saber, Curitiba, 1996, edição do Centenário do Poeta. p. 14 e 38/39.

FIO D’ÁGUA (1918) – poema 1
(sem título)
******************************************************
(c) Tasso da Silveira.

Fio d’água, humilde e brando,
Da transparência dos cristais:
Tão claro e límpido vais
Cantarolando,
Que deixas ver, lá, no fundo,
A areia fina alvejando …
Tão diáfano ! Até parece
Que a areia é que vai cavando …
Verso meu, fio d’água oriundo
Da fonte da dor … pudesse
(Ai de mim!)
Fazer-te tão claro assim,
que se visse, lá no fundo,
– só – minha alma cantando
ou soluçando …
++++++++++++++++++++++

O POÇO
O poço estreito e profundo
é que era o centro do mundo.
Havia outras coisas mais:
a cerca de ripa tosca,
além da cerca, o banhado,
onde as rãs em tom maguado,
cantavam na noite fosca
velhas cantigas irreais:
vago, perdido, distante,
no descampado da frente,
o dormente chafariz,
ensinando a toda gente
seu jeito de ser feliz.

Mas o poço é que era o centro
do mundo, com a água inquietante
dormindo, a sonhar, lá dentro.
Quando a branca madrugada
surgia no azul etéreo,
do fresco e puro mistério
do poço é que, em debandada,
a matinal passarada
erguia o vôo triunfante.
E quando a sombra suspensa
sobre o mundo, serenava
meu juvenil alvoroço,
as estrelas fascinadas
tombando da noite imensa
caíam na água do poço.
*******************************
Tasso da Silveira, “Canções a Curitiba & outros poemas”, edição do centenário do poeta. Farol do Saber, Curitiba, 1996. Ilustr. bico-de-pena de Dimitri Ismailovitch, 1961, retrato de Tasso da Silveira (do livro citado, p.xxv).


Coda – o último poema.
Solilóquio (i) – Tasso da Silveira(*) – Nota do livro citado:
“Este foi o último texto ditado por Tasso da SIlveira a sua mulher. Este livro [Regresso a Origem, 1960] integra textos de um período no qual o poeta já havia perdido a visão, e tinha em sua mulher uma companheira de trabalho a quem ditava seus versos. Contam os filhos que este texto foi ditado à noite, como que antevendo a morte da mulher no dia seguinte. Como o pássaro que ficou só depois que o outro ergueu o vôo,Tasso da Silveira deixou definitivamente de escrever.” (in Canções…p.123, nota do editor).

Soliloquio_Poema de Tasso Da SilveiraPara finalizar, deixo um estudo de O.M. GOMES “Tasso da Silveira e seu Itinerário Luminoso”/. Aproveitem e apaixonem-se pela poesia de deste poeta que merece estar no panteão dos católicos poetas do Brasil. Clique neste link.Tasso e seu Itinerário Luminoso (O.M.Martins)

Jorge de Lima (1)

Especial Corpus Christi 2015 - Jorge de Lima, d'A Túnica Inconsúltil (1938).