O Albatroz de Charles Baudelaire

Às vezes, por folgar, os homens da equipagem
Pegam de um albatroz, enorme ave do mar,
Que segue – companheiro indolente de viagem –
O navio no abismo amargo a deslizar.

E por sobre o convés, mal estendido apenas,
O imperador do azul, canhestro e envergonhado,
Asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,
Eis que deixa arrastar como remos ao lado.

O alado viajor tomba como num limbo!
Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!
Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,
Outro imita a coxear o enfermo que voava!

 

O Poeta é semelhante ao príncipe do céu
Que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;
Exilado na terra e em meio do escarcéu,
As asas de gigante impedem-no de andar.

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Fonte: BAUDELAIRE, Charles, As Flores do Mal, Trad. J.A.Haddad. Ed. Difel, 1958, pág. 90.
 

O sentido do termo ‘saudade’, par Sébastien Lapaque

…Saudade Ce mot, que le Français ‘melancolie’ traduit mal, revient dans toutes les conversations, à Lisbonne, au Cap-Vert, à Belém et Goa, dans les huitains de Camões, le fado de Maria Severa Onofriana et la bossa nova de Vinícius de Moraes. Il manifeste le génie d’une civilisation où l’essentiel n’est pas de vaincre, mais de survivre. La saudade, c’est la présence de l’absence, un désir de bonheur hors du monde mêlant la tristesse de ce qui n’es déjà plus à l’attente de ce qui sera. Ainsi la définissait dom Francisco Manuel de Melo, grand poète de l’âge baroque : “La saudade est une délicate passion de l’âme, et pour cela, si subtile que nous l’éprouvons seulement de manière ambiguë, sans pouvoir bien distinguer la douleur de la satisfaction. C’est un mal qu’on aime et un bien qu’on subit.
(…) Elle est le propre des êtres de raison, en vertu de ce qui existe en nous de plus élevé; et elle est un légitime argument de l’immortalité de notre esprit, à cause de cette muette suggestion qu’elle ne cesse de nous faire intérieurement, à savoir que, en dehors de nous, il y a quelque chose de meilleur que nous-mêmes, avec lequel nous désirons nous unir.”
(Soustraites au verdict de l’Histoire, les espérances portugaises trouvèrent donc refuge dans le mythe et la saudade).

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Fonte: LAPAQUE, Sébastien. Sous le Soleil de L’Exil. Grasset, Paris, 2003, pág. 89/90.

François Mauriac, aos jovens do Grand Lebrun

“…o ensinamento que vocês recebem aqui, não não é o que  se ensina aqui, mas sim o murmúrio em seus ouvidos dos cimos tormentosos do parque, neste lamento ao qual vocês quase não dão atenção hoje, mas que voltarão a ouvir mais tarde, muitos anos depois, quando tiverem chegado à minha idade; vocês escutarão, dentro de vocês, esta voz de sua infância feliz e abençoada.
“E, então, no crepúsculo de uma vida, sentindo sua alma ardente, como aqueles dois discípulos na Estrada de Emaús, vocês se lembrarão que este homem e que este Deus, seu companheiro durante a peregrinação pela Terra,
vocês já O conheciam, vocês já O amavam
, antes mesmo de terem começado a viver, desde que seus mestres lhes falavam d´Ele na capela do Liceu Grand Lebrun“.
(François Mauriac, em alocução aos formandos do Liceu Sainte-Marie-Grand-Lebrun – Bordeaux (Fr). Tradução minha com correção da mestra M.E.)

Manset (1)

Solitude des Latitudes, Gérard Manset
Seu mais recente lançamento é “manitobe ne répond pas“.
Não acredito que mais este amigo do Brasil queira doar (ao mundo) a Amazônia e seus recursos naturais. Nunca se sabe…de qualquer forma, conheça u´a amostra do talento de Manset no link abaixo, antes que o Lula doe a Amazônia ao Manitoba…
Assista o vídeo Ô, Amazonie!

Bonjour, Tristesse…

Brincando com títulos de romances de Françoise Sagan, Alain Souchon consegue nessa ´colagem` musical (de títulos de livros de Françoise e seus próprios comentários poéticos) fazer uma boa homenagem à escritora, no mesmo tom melancólico de quase tudo que ele compõe.

Dans ses romans, dans ses nouvelles,
Cette dame-demoiselle mêle
De jolies mélancolies frêles

Acho mesmo que é a melancolia que os une… estou quase certo disso, se eu próprio não estivesse atraído por esse estado de espírito. E por isso mesmo me uno a Alain nesse verso:

“Et je chante ma ritournelle
A la gloire d’elle
…”

Aproveitem a canção.
Boa Semana!

Post-Post: No próximo post, prometo um poeminha de Emily (que não postei no sábado, como de costume, porque estava de pernas pro ar… porque ninguém é de ferro!).

Livro novo, páginas antigas

Um amigo já me dissera que amor demais aos livros nutre (ou seria denota?) certo desamor à leitura.

Mas há uma reflexão de Teresa d´Ávila, esquecida alhures (a reflexão, biensûr!), a ressaltar que se não houvera livro novo, a alegria diminuia… Era a pequena Teresa ainda a caminho da santificação de sua vida!
Eis-me, pois, muito contente e pleno de curiosidade com dois novos volumes adquiridos de um sebo em B.Horizonte (Páginas Antigas), estabelecimento que recomendo pela atenção do bibliófilo que dirige a casa.
O meu desejo é ler esses dois novos volumes antigos em minhas férias, que começam daqui a 16 dias.

(…)livrosantigos34
Ah, esse oráculo dos tempos modernos, me trouxe a lembrança (esfumaçada) da leitura da biografia de Santa Teresa d´Ávila que cito, pois foi com os pais que Teresa d´Avila …

descobriu o mundo da literatura de ficção, e passou
a se empolgar com as aventuras de guerreiros     cristãos e mouros por suas terras e por terras estranhas. Mais uma vez, é ela própria quem nos conta isso, em sua autobiografia: “Era aficionada a libros de cavallerías […] Yo comencé a quedarme en costumbre de leerlos […] Era tan estremo lo que
esto me embevía que, si no tenía libro nuevo, no me parece tenía contento” (Libro de la Vida, 2,1). Aliás, Teresa não se limitava a ler: teve a idéia de ser autora de uma novela de cavalaria. Chegou a começá-la, com a ajuda de seu irmão. Mas tudo não passou de uma brincadeira de criança, que não foi adiante
“.

Naturalmente, depois dessa ´brincadeira de criança`, Teresa decidiu ser santa e com o passar do tempo virou para muitos a Teresona (para distinguir de outra Santa não menor em estatura, mas em literatura, Santa Teresinha de Jesus…). E conforme prossegue o estudo citado:

“Depois de adulta, Teresa percebeu os perigos da leitura desenfreada dessas novelas, que levariam à loucura o grande Quixote. Não se pode esquecer, porém, que a leitura dos livros de cavalaria ajudou a santa a formar o gosto pelas histórias bem escritas, cheias de lances surpreendentes e imprevistos, que prendem a atenção do leitor. Uma biógrafa contemporânea, Marcelle Auclair, a denomina “a dama errante de Deus”. E não é difícil reconhecer nas peripécias da reforma carmelita, contadas por Teresa no Libro de las Fundaciones, algo da vivacidade narrativa que ela aprendera a apreciar, na juventude, ao ler as histórias de cavaleiros andantes. Podemos também supor que algumas imagens nupciais da obra teresiana fossem recordações dos romances de cavalaria, dos famosos cavaleiros andantes apaixonados, como Dom Quixote por sua Dulcinéia.”
Se eu fosse você, ia logo pra lá!

Françoise, toujours Françoise!

Primeiro, lamentei o fim do blog do Ruy Goyaba… Tchau, como assim?
Depois, vi que o “exílio de Ruy” (ou surgimento do Rogério) era algo atraente. Ele(s) apenas deixam o “país dos blogs” para viver na “Terra dos Blips”.
Hum, foi assim que, sem necessitar de ajuda do Congresso, consegui uma concessão similar à FM de Monsieur Goyave.
Voilà, mes amis, fui pra lá também… E nada melhor do que lhes dizer:
– Bonjour, mes amis! En cie de Françoise Hardy…e de outros hits franceses.
Enjoy! Profitez!
MonsieurBetoQ