Mendo Henriques, Martin Buber: “Eu E Tu”

 

Já tratei aqui no blog do pensamento do judeu austríaco Martin Buber (1878-1965).

Agora, deixo com vocês uma apresentação em SlideShare do escritor e filósofo português Mendo Castro Henriques, autor de “Filosofia Política em Eric Voegelin: Dos Megalitos à Era Espacial”; como também líder do Site “Olá, Consciência!

Mendo Henriques, Martin Buber: “Eu E Tu”

 

Já tratei aqui no blog do pensamento do judeu austríaco Martin Buber (1878-1965).

Agora, deixo com vocês uma apresentação em SlideShare do escritor e filósofo português Mendo Castro Henriques, autor de “Filosofia Política em Eric Voegelin: Dos Megalitos à Era Espacial”; como também líder do Site “Olá, Consciência!

Relendo Bossuet

Um jovem crítico de literatura em França, me envia, regularmente, textos de seus escritos, quase sempre polêmicos. Hoje foi sobre um escritor moderno (por quem não me interessei), mas logo abaixo no site, encontro pérolas de BOSSUET.
Maravilhosos textos:
1) «Tout ce qui unit à Dieu, tout ce qui fait qu’on le goûte, qu’on se plaît en lui, qu’on se réjouit de sa gloire, et qu’on l’aime si purement qu’on fait sa félicité de la sienne, et que, non content des discours, des pensées, des affections et des résolutions, on en vient solidement à la pratique du détachement de soi-même et des créatures; tout cela est bon, tout cela est la vraie oraison».
Em tradução livre (e corrigível, por favor corrigez mes fautes Meg Guimaraes):
Sobre a verdadeira Oração:
“Tudo que nos une a Deus, tudo que nos faça amá-Lo, que tenhamos alegria n’Ele, que nos rejubile com sua glória; e mais – que não satisfeitos com apenas falar, mas tê-Lo em nossos pensamentos, nas afeições e nas decisões que tomamos; assim chegamos de maneira sólida à prática do desapego de nós-mesmos (o si-mesmo) e das criaturas – tudo isso é bom, tudo isso é “a verdadeira Oração”.
Bossuet, Méditations sur l’Évangile, De la meilleure manière de faire une oraison (Desclée et Cie, 1903, p. 15)

2) «Jésus parle encore tous les jours dans son Évangile; mais il parle d’une manière admirable dans l’intime secret du cœur : car il est la parole même du Père éternel, où toute vérité est renfermée. Il faut donc lui prêter ces oreilles intérieures dont il est écrit : Vous avez, Seigneur, ouvert l’oreille à votre serviteur. Heureux ceux à qui Dieu a ouvert l’oreille en cette sorte; ils n’ont qu’à la tenir toujours attentive, leur oraison est faite de leur côté. Jésus leur parlera bientôt, et il n’y a qu’à se tenir en état d’écouter sa voix»

“Jesus fala ainda todos os dias através de seu Evangelho; mas Ele fala de uma maneira admirável ao íntimo segredo do coração, porque Ele é a própria palavra do Pai Eterno, onde toda a Verdade está guardada. É preciso, pois, que abramos nossos ouvidos interiores ao que está escrito: “Tu, Senhor, abristes os ouvidos ao vosso Servo…” [Sl.39/40]. Felizes aqueles a quem Deus abriu os ouvidos dessa forma; não tem estes senão que ficar atentos, que sua oração é feita no íntimo de seu coração. E Jesus responderá de pronto, não havendo ao que reza, senão que escutar a Sua voz …”

(Bossuet cit. par Juan Asensio em http://bit.ly/1ouvAQJ).

lendo Juan Asensio.
Originalmente publicado no FB./adalbertoqueiroz.

O que podemos aprender com o Rabi

UM RABI , MESMO QUANDO VIRTUAL é um bom conselheiro a quem podemos recorrer quando estamos diante de dilemas – eis o que representa para mim este livro de Martin Buber. Mesmo que virtualmente, um sábio pode ajudar. A leitura pode ajudar.  E precisamos entender o sentido correto de “ajuda” – palavra que tem um especial eco Buberiano. “Os anjos, dizem os chassídicos, nascem da ajuda realmente dada”(*).

E quando digo ‘virtual’, traduza, caro leitor, por “a virtualidade do livro“, – de onde emerge um sábio; “não presencial”, sim, mas presente – e este é um meio de recorrer a um sábio a quem costumo buscar em momentos de enfrentamento de um dilema. E eis que o livro se firma como “pura responsabilidade” – como dizia Martin Buber.

A voz dele – Martin Buber – aparece nesta manhã com uma “sabedoria tranquila”, uma voz que soa – como quer Albrecht Goes, no posfácio do livrinho de seis capítulos: “…que não transmite receita nem orientação, mas sim, com uma simplicidade sublime, experiência e sabedoria“. Herman Hesse ao ler este “O Caminho do Homem” disse: “Esta deve ser a coisa mais bonita que li sua. Agradeço-lhe de coração por esse presente nobre e infinito. Ainda voltarei a ele muitas vezes“.

Se transcrevo palavras como essas aqui é porque são textos que me ajudaram a encontrar uma resposta para mim.
Se elas forem úteis para meus seis leitores, já me dou por satisfeito.
Há os que aqui chegam, em busca de algum termo fruto de uma pesquisa (p.ex.: Rabi, virtual, poemas do Autor, Judaísmo etc.). Se é este o seu caso e conseguiu ler até aqui, por favor vá adiante, pois que o texto de Martin Buber é de grande sabedoria.

“Pensamento, palavra e ação” que tal começar Martin Buber_Fotoconsigo mesmo ?

É a pergunta que BUBER nos faz, para pegar o leitor de “O Caminho do Homem” – ser humano (que é também o das mulheres, neste momento em que até os padres dizem todos & todas, por uma questão de sutileza da política de gêneros). Anyway, aí vai o texto:

“CERTA VEZ, alguns grandes de Israel foram fazer uma visita ao rabi Jizchak de Worki. A conversa girava em torno do valor de um empregado íntegro para comandar a casa; se ele fosse bom, tudo se ornaria bom, como aconteceu com José, em cuja mão tudo germinava. O rabi Jizchak objetou: “Essa também era minha opinião, mas meu professor me mostrou que tudo depende do dono da casa. É que, na minha juventude, minha mulher me trouxe muitas dificuldades; suportei a situação, mas me compadeci dos meus empregados. Por isso, fui até meu professor, o rabi David de Lelow, e perguntei-lhe se eu deveria enfrentá-la. Ele me respondeu: ‘Por que você está falando comigo? Fale com você mesmo!”. Tive de dar um tempo a sua resposta antes de compreendê-la, mas o fiz quando me recordei das palavras do Baal Schem : – ‘Existe o pensamento, a palavra e a ação.
O pensamento corresponde à mulher; a palavra aos filhos; e a ação, aos empregados. Tudo ficará bem para aquele que conseguir constituir a ordem dos três dentro de si’ .(1)  Então eu entendi o que meu professor queria dizer: tudo depende de mim”.
Baal Schem
”Essa história toca um dos problemas mais profundos e difíceis de nossa vida: a verdadeira origem do conflito entre as pessoas.
”A princípio, explicamos as origens dos conflitos ou pelos temas que os envolvidos na disputa consideram como o motivo da contenda e pelas situações e acontecimentos objetivos que derivaram desses temas nos quais os dois lados estão envolvidos; ou partimos de maneira analítica e procuramos investigar os complexos inconscientes em relação aos quais esses temas se comportam apenas como sintomas. O ensinamento chassídico tem algo em comum com essa linha, quando diz que a problemática exterior da vida aponta para o seu interior. Mas ele se diferencia em dois pontos essenciais, um fundamental e um prático, embora ainda mais importante”.

“O motivo fundamental é que o ensinamento chassídico não parte da investigação das complicações psíquicas individualmente, mas se ocupa do homem como um todo. Isso não assinala, de modo algum, uma diferença quantitativa. Trata-se muito mais da compreensão de que dissociar elementos e processos parciais do todo sempre atrabalha a compreensão do todo e somente a compreensão do todo como todo pode levar à mudança real, à cura real – primeiro do indivíduo e depois do seu relacionamento com as pessoas próximas. (Exprimindo um paradoxo: a procura pelo ponto principal faz com que ele se desloque, frustrando assim toda a tentativa de superar a problemática). Isso não quer dizer que não devemos observar todos os fenômenos da alma; mas nenhum deles deve ser colocado no centro da observação, como se todo o resto devesse ser derivado dele; antes, é preciso levar em conta todos os pontos, e não um a um, mas exatamente em sua ligação vital.

”A diferença prática, porém, consiste em que o homem aqui não é tratado como o objeto da investigação, mas é conclamado a constituir sua ordem. O homem deve, em primeiro lugar, reconhecer que a situação de conflito entre ele e os outros é apenas efeito de situações de conflito em sua própria alma; em seguida, deve tentar superar esse seu conflito interno, para então ter com seus próximos, como um homem transformado, pacificado, novas relações, transformadas.

“Certamente, o homem procura escapar dessa transformação, decisiva e profundamente dolorosa, de seu relacionamento habitual com o mundo apontando – tanto para aquele que o instiga ou à própria alma, caso seja ela que o instigue – para o fato de que, em todo o conflito, são dois os envolvidos: se exigimos que um deles se volte ao conflito interior, então seria preciso exigir o mesmo do outro. Mas exatamente nessa maneira de pensar – na qual a pessoa se enxerga apenas como indivíduo com o qual outros indivíduos se defrontam, e não como uma pessoa autêntica, cuja transformação do mundo –, exatamente nesse ponto está o engano fundamental, ao qual o ensinamento chassídico se contrapõe. Trata-se apenas de começar consigo mesmo, e nesse momento não devo me preocupar com nada no mundo senão esse começo. Qualquer outra atitude me desvia do meu começo. Qualquer outra atitude me desvia do meu começo, enfraquece minha iniciativa, frustra todo o empreendimento audaz e poderoso. O ponto arquimediano no qual posso movimentar o mundo a partir do meu lugar é minha própria transformação. Se, por outro lado, eu levar em consideração dois pontos arquimedianos, esse aqui em minha alma e aquele lá na alma da pessoa que vive em conflito comigo, então rapidamente desaparecerá aquele ponto no qual um acesso se havia aberto para mim.

”O rabi Bunam ensinava: “Nossos sábios dizem: ‘procure a Paz aí onde estás’. Não podemos procurar a paz em nenhum outro lugar senão em nós mesmos, até encontrá-la. Está escrito nos Salmos: ‘Não há saúde nos meus ossos, por causa do meu pecado’ (2). Somente quando o homem tiver encontrado a paz em si mesmo ele poderá procurá-la no mundo todo”.

”Mas a narrativa, que foi meu ponto de partida, não se satisfaz em apontar a verdadeira origem dos conflitos externos, o conflito interno. Na palavra do Baal Schem, que nela é citado, também é dito claramente qual a composição exata do conflito interno. É o conflito entre três princípios no ser e na vida do homem: o princípio do pensamento, o  princípio da palavra e o princípio da ação. A origem de todos os conflitos entre mim e os que me rodeiam é eu não dizer o que penso e não fazer o que digo. Assim, a situação entre mim e o outro se torna cada vez mais envenenada e tumultuada, e em minha confusão não consigo mais dominá-la; ao contrário, contra todas minhas ilusões, tornei-me seu escravo inerte. Alimentamos e fazemos crescer as situações de conflito com nossa contradição, com nossa mentira, conferindo-lhes poder sobre nós, até que sejamos escravizados por elas. A partir daqui não há outra saída senão pelo entendimento da transformação: tudo depende de mim, e pela vontade da transformação: quero constituir minha ordem.

“Mas, para que o homem alcance esse grande feito, ele precisa primeiro – partindo de todos os penduricalhos de sua vida – chegar ao seu EU (3), ele precisa se encontrar, não o eu evidente do indivíduo egocêntrico, mas o ‘eu’ profundo da pessoa que vive numa relação com o mundo. E também a isso se opõe todo nosso costume.

“Quero encerrar o capítulo com uma velha piada, que se renovou na boca de um zaddik.
”O rabi Chanoch contava: “Em algum momento do passado viveu um tolo, tão tolo que era chamado de Golem. Ao acordar pelas manhãs, sua dificuldade para encontrar suas roupas era tanta que, às noites, pensando nisso, ele muitas vezes se sentia pouco à vontade para ir se deitar. Certa noite, ele finalmente tomou uma atitude, pegou um papel e um lápis e anotou, ao se despir, onde colocava cada roupa. Na manhã seguinte, ele pegou o papel, contente, e leu: ‘o gorro’ – aqui estava a peça, e ele a colocou; ‘as calças’ – lá estavam elas, e ele as vestiu; e assim por diante até o fim. ‘Sim, mas onde estou eu, afinal? ‘, ele se perguntou, preocupado, ‘onde foi que me meti?’ . Ele procurou e procurou – em vão, porque não conseguiu se encontrar. É assim que acontece conosco também, disse o rabi.
(FIM).
[© Martin Buber, fonte citada abaixo.]
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FONTE: BUBER, Martin. “O Caminho do Homem”, É Realizações. S. Paulo, 2006, trad. Claudia Abeling, p. 29/35.
Observações, cfme. Notas da Tradutora:
(1) No original: zurechtschaffen. A tradução por ‘organizar’, ‘arrumar’, seria mais simples, mas perderia a noção de criação, presente em schaffen.
(2) Salmos, 38:3.
(3) “Selbst”, no original.

(*)”Buber escreveu essa frase num agradecimento a Albert Schweitzer, a quem se sentia especialmente ligado como um ‘apóstolo do imediato’; e nós, aqueles que tocados pela ayeka (chamado) divina, procuram pela resposta, pegamos para nós as belas palavras da mão de Buber: recebemos ajuda, ao mesmo tempo atual e atemporal.
(Albrecht Goes, no posfácio da obra citada, p. 55/6).

Alguns termos que estão no Glossário de outro livro de BUBER (Histórias do Rabi):

Chassídico: (ou hasidic) : The Hebrew for Hasidism, hasidut, denotes piety or saintliness, an extraordinary devotion to the spiritual aspects of Jewish life. Hasidism centered on a charismatic personality, the tzaddik. (Zaddik in the usual English transliteration)

Zaddik: a Hasidic spiritual leader believed to maintain a channel to God; is the charismatic leader in Hasidism, also known as the Rebbe in order to distinguish him from the Rabbi in the conventional sense. ©Fontes citadas.

Leia mais

O alimento quotidiano

“A Oração ao romper da alva (*)

A oração ocupava um lugar prioritário na sua ordem do dia. Fazia-a, habitualmente, logo de manhã cedo. Excepcionalmente, ia à capela durante a noite. “Era quase sempre difícil – escreveu – permanecer imóvel a contemplar Deus no silêncio e na aridez da fé”.
Mas confiava em Deus, pois a sua graça, para além da nossa sensibilidade e reações, atua em nós mesmo sem nos darmos conta.
Uma vez recomendou a uma pessoa que lhe era próxima, que “expusesse a alma ao sol de Deus e que não receasse perder o seu tempo permanecendo na capela mesmo que nada sentisse. É preciso dar tempo ao sol para nos bronzear, o que requer um pouco de paciência”.
A oração matutina levava o Rei a adotar uma atitude de escuta e de disponibilidade diante de Deus, para depois servir melhor os homens. Era a audiência que o Senhor lhe concedia e que o ajudava a estar atento às pessoas com quem iria se encontrar.
Na oração, apresentava a Deus o dia inteiro. Por isso, ali procurava o alimento diário. Antes de ser “pedido”, a oração é “escuta”. Não temos que rezar até Deus nos ouvir, mas até ouvirmos o que Deus quer de nós.”

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Fonte: 
(*) SUENENS
, Cardeal. “”, Editorial A.O., Braga, Portugal, 2a. ed., 1995, trad. Margarida Osório Gonçalves, p.65.

Leituras da Quaresma, 2014: “A COEUR OUVERT” (em Francês)

SIGO ESTE BLOG do Padre Patrice RENIER, como exercício espiritual e linguístico, pois tenho a honra de ser francófono, desde meus 17 anos…

PADRE RENIER é de formação monástica, e hoje é padre diocesano no sul da França.

Transcrevo (em minha tradução) a mensagem do Autor a nós, seus leitores:

“Foi a pedido de amigos – crentes e incrédulos -, que eu comecei a editar, durante vários meses, a carta “A Cœur Ouvert” (De coração Aberto), com o objetivo de ajudar, contribuir com o melhor conhecimento do Cristianismo para uns e à formação aprofundada da Fé, para outros.Isso, particularmente, a partir da Bíblia …

O número de leitores crescia de forma constante, quando decidi pensar na criação deste Blog, que está aberto a todos e todas as perguntas são bem-vindas…

En toute amitié.

Padre Patrice”

Leia e aproveite esta homília do 5o. Domingo da Quaresma com o Padre RENIER:


A COEUR OUVERT
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