Sobre Hölderlin

Aviso:
aos diletos amigos leitores deste blog.
Pouco a pouco, vou migrando para lá… https://betoqueiroz.com.br/artigos/f/o-sil%C3%AAncio-do-poeta—f-h%C3%B6lderlin-1

Horácio – Ode 1/11

singularidade - poesia e etc.

Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe,
os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo
da babilônia e aceita: o que há de ser, será,
quer nos dê Jove mais invernos, quer só este
que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe
teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos.
Enquanto eu falo, o tempo evade-se invejoso.
Apanha o dia e não confies no amanhã.

Trad.: Nelson Ascher

1/11

Tu ne quaesieris (scire nefas) quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati!
Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum, sapias, uina liques et spatio breui
spem longam reseces. Dum loquimur, fugerit inuida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

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Eugenio Montale – Xenia I

EUGÊNIO MONTALE

singularidade - poesia e etc.

1

Querido pequeno inseto
que chamavam de mosca, não sei por quê,
esta tarde quase ao escurecer
enquanto lia o Segundo Livro de Isaías
reapareceste ao meu lado,
mas não tinhas óculos,
não podias me ver
nem podia eu sem aquela centelha
reconhecer-te no escuro.

2

Sem óculos nem antenas
pobre inseto que asas
só tinhas na imaginação,
uma bíblia em frangalhos e ainda por cima tão pouco
confiável, o negro da noite,
um relâmpago, um trovão e depois
nem mesmo a tempestade. Quem sabe,
te foste cedo demais sem mesmo uma
palavra? Mas é ridículo
pensar que ainda tivesses lábios.

3

No Saint-James em Paris terei que pedir
um quarto “de solteiro”. (Não gostam
de hóspedes desacompanhados). E a mesma coisa também
na falsa Bizâncio de teu hotel
veneziano; para buscar logo depois
a cabine das telefonistas,
tuas amigas de sempre; e repartir,
gasta a corda,
o desejo de…

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William Butler Yeats – A torre

YEATS! A torre

singularidade - poesia e etc.

1
O que farei com esta absurdidade,
Esta caricatura, coração?
Decrepitude atada à minha idade
Como à cauda de um cão?
Jamais terei sentido
Tão grande, tão apaixonada, tão incrível
A fantasia, nem houve olho e ouvido
Que mais quisessem o impossível –
Não, nem quando menino, com inseto e anzol,
Ou mais humilde verme, no alto de Ben Bulben,
Eu tinha a desfrutar todo um dia de sol.
Devo mandar às favas minha Musa,
Ter Platão ou Plotino por amigo,
Até que fantasia, olho e ouvido,
Cedam à mente e virem escalpelo
Da ideia abstrata; ou ser escarnecido
Por uma lata presa ao tornozelo.

2
Passo pelas muralhas e reconto
Os alicerces de uma casa e o ponto
Onde a árvore, como um dedo sujo, sai do chão,
E solto a imaginação.
À luz do dia declinante apelo às
Memórias e retinas
De antigas árvores ou ruínas –
Que…

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Notas sobre a civilização do espetáculo (2)

Leiam e comentem.
https://recortelirico.com.br/2020/04/civilizacao-do-espetaculo-2/

«O caminho de Cristo é a única coisa que torna possível a nossa sobrevivência» | Martin Scorsese | Andrea Monda In L’Osservatore Romano

Martin Scorsese e o Papa Francisco. Que diálogo. Leiam-no.
Entre os dois começou um diálogo tão simples quanto profundo, que depressa aportou ao nome de Dostoiévski, comum paixão de ambos, que com os seus romances faz de pano de fundo à obra do cineasta de “Os cavaleiros do asfalto” e “Silêncio”. E é precisamente do grande escritor russo que pretendo partir para retomar aquela conversa, ligando-me a “The irishman” e ao protagonista, Frank Sheeran (interpretado magistralmente por Robert De Niro), que surge como o único sobrevivente que, por isso, pode e deve falar, o único vivo que manda «notícias de uma casa de mortos». Não por acaso para todos os outros personagens, que fugazmente comparecem em cena, uma referência detém a imagem e indica-nos a data e a maneira, sempre violenta, da morte. Frank está vivo e fala, melhor, confessa-se, olhando fixamente para a câmara, nos olhos do espetador.
[…]
“Retenho que o caminho de Cristo é a única coisa que torna possível a nossa sobrevivência. É o único caminho que entrevejo para que a humanidade – todo o grande organismo da humanidade – possa efetivamente mudar e evoluir, distanciando-se do aniquilamento. Entendo isto não em sentido cultural, mas espiritual. O facto é que há o ir à igreja é há o caminho de Cristo. Não se trata necessariamente da mesma coisa, como todos sabemos. E creio que a confissão é um dos instrumentos espirituais mais poderosos de que a Igreja dispõe. É um exame autêntico daquilo que és, de todas as tuas dúvidas, os teus medos e as tuas transgressões, e o próprio ato da confissão abre a porta a tentar de novo, a ter uma outra possibilidade. Mesmo se não recebes a absolvição, abriste a porta.”

Quando a 21 de outubro passado se voltaram a encontrar, Martin Scorsese e o papa Francisco retomaram uma conversa como a que podem ter dois velhos amigos que se entendem sem esforço, ainda que a última vez que se tinham encontrado ocorreu praticamente um ano antes, a 23 de outunro de 2018, em Roma, por ocasião do encontro de jovens e idosos com o papa da apresentação do livro “A sabedoria do tempo”. O papa, depois de lhe ter perguntado pela esposa, quis saber informações sobre o seu novo filme, “The irishman”, e o realizador italo-americano explicou que se trata de uma película sobre o tempo e a mortalidade, a amizade e a traição, o remorso e o arrependimento pelo passado.

Entre os dois começou um diálogo tão simples quanto profundo, que depressa aportou ao nome de Dostoiévski, comum paixão de ambos, que com os seus romances faz de pano…

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Não se esqueça de viver

Destacado

A É Realizações Editora lança “Não se Esqueça de Viver — Goethe e a tradição dos exercícios espirituais”, de Pierre Hadot.

Estudioso responsável pela redescoberta do caráter vivencial da filosofia antiga, o autor analisa como isso está presente na visão de mundo goetheana.

Pierre Hadot é unanimemente aclamado como o erudito que recuperou a dimensão prática da filosofia tal como concebida pelos gregos e latinos.
A coleção Filosofia Atual dispõe de duas obras que apresentam essa redescoberta — A Filosofia como Maneira de Viver e Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga. Mas há um segundo grande feito cujo mérito se deve a Hadot: o esforço de localizar em autores modernos a continuação da linhagem experiencial iniciada pelos pensadores clássicos. Essa atitude dá origem ao estudo Wittgenstein e os Limites da Linguagem, também incluído na coleção, e editado com resenha da grande wittgensteiniana G. E. M. Anscombe.

É nesse campo de pesquisa que se deve situar Não se Esqueça de Viver – Goethe e a tradição dos exercícios espirituais — com o diferencial de o literato estudado neste livro ser a figura maior da cultura alemã, um dos luminares de toda a arte moderna e escritor da predileção do autor deste volume.
Além disso, trata-se da última obra publicada por Hadot, uma espécie de homenagem-testamento e de arremate da sua vida de estudos. Carreira, aliás, que merece ser explorada; afinal, Hadot congrega a influência que recebeu de Louis Lavelle e a influência que exerceu sobre Michel Foucault — intelectuais tão distantes —, uma amplitude que ainda hoje resulta na admiração de filósofos prestigiados, como Luc Ferry.

Os exercícios de autodisciplina que Pierre Hadot descobre na vida e na obra de Goethe são três. No primeiro capítulo, o autor expõe a prática de concentrar-se totalmente no momento vivido, sem se permitir perturbar por eventos do passado ou expectativas sobre o futuro.

O segundo exercício espiritual é a tentativa de encarar cada situação considerando-a com visão abrangente, que evite a parcialidade e a estreiteza das circunstâncias particulares. Como esse capítulo da obra demonstra, tal ação pode implicar uma ação concreta, por exemplo o ato de escalar uma montanha.

Saiba Mais no site da É Realizações.
Ficha do livro
Título: “Não se Esqueça de Viver — Goethe e a tradição dos exercícios espirituais”.
Autor: Pierre Hadot.
Coleção: Filosofia Atual Editora:
É Realizações; Preço: R$ 69,90.
Nº de páginas: 184.
https://tinyurl.com/Hadot-Goethe

Recorte lírico

Destacado

EM meio aos cuidados que a pandemia do Coronavírus recomenda, leio e escrevo. Esta reflexão veio daí…

Leiam e cometem — e #fiqueemcasa se possível.

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Morte e Vida – uma pintura a óleo sobre tela do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt

Rafael Reinehr | Escrever Por Escrever

O canal de RR – um polímata, autodidata e eclético. Amigo.

Conheço o Rafael há uns 200 anos. Era o tempo dos blogs, tipo hard, hard… Ele era o meu amigo do Sul – RR. Hoje, é um profissional de Saúde que não se esqueceu do dom recebido para escrever e nos convencer de fazer o Bem. É uma alegria reencontra o Rafael, vivendo um momento de sucesso e a caminho de nos ter por perto pra muita coisa boa.
Nesse primeiro episódio do Canal “Cada Vez Melhor”, RR fala um pouco sobre a sua (dele) história e o que motivou o surgimento do canal, bem como traz um breve panorama do que a gente pode esperar deste espaço no You Tube. É um convite — que eu aceitei — para mergulhar com o Rafael nessa jornada de autoconhecimento, aprendizagem continuada e compartilhamento de vivências e experiências em direção à melhor versão de nós mesmos. Vamos nessa?

Rafael, amigo do início dos blogs…

Das pragas do Egito ao Apocalipse

Destacado

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, da
Bíblia Ottheinrich. (c) Imagem do Wikimedia Commons.

Guerras, conflitos, terremotos, maremotos e tsunamis, sequestros, assaltos, violência entre Nações e entre pessoas, epidemias, doenças estranhas (e raras), mortes, mortes em profusão. Será o fim dos tempos?
– Será o apocalipse agora?

O apóstolo São João previu esses eventos, no livro que encerra os canônicos do Novo Testamento. Essa narrativa cifrada e assustadora para alguns, é o Apocalipse, a visão dos “últimos tempos”.

Muito antes, os profetas hebreus haviam tecido muitos comentários sobre esses fatos que a Igreja designa “novíssimos” – isto é, tudo o que diz respeito às coisas finais, individual ou coletivamente e que está ligado à escatologia.

Isaías talvez seja o mais eloquente nesse campo, ao descrever o Juízo Universal como uma cena de terra devastada. Continue lendo.