A virgem Maria

Salve, Maria!

O melhor texto que li nesta quadra do Advento foi (é) de Renan Martins dos Santos, publisher da Editora Concreta.

Deixarei o link ao final, só para reter você, Leitor, por aqui, um pouco, pois o tema que Renan nos leva a repensar é o da centralidade de Nossa Senhora na história da Salvação humana — que nos foi propiciado pelo advento do Encarnado, o Filho de Deus.

Ele diz:

(…) Mas a história nos conta que houve um ser humano capaz de atravessar esses véus de intangibilidade, uma única pessoa que concebeu a partir de uma decisão direta. Esse ser humano foi a Virgem Maria. Virgem, porque, entre o seu espírito e o Espírito que lhe cobriu com sua sombra, não havia os ruídos da carne. A sua decisão repercutiu imediatamente, sem o intermédio dos instrumentos humanos. Certamente ela não podia decidir quem seria esse ser humano que carregaria em seu seio, especialmente quando a forma dessa alma seria a própria Forma divina, pela qual todas as outras coisas foram criadas. O anjo Gabriel lhe deu a notícia de quem seria, e a Virgem, passado o natural espanto, acolheu a decisão divina, determinada a receber o princípio mesmo do universo dentro de sua alma. Só de uma tal decisão poderia brotar, não mais um animal racional entre tantos, mas o próprio Verbo encarnado, a própria Sabedoria que os filósofos tanto buscaram e que parecia infinitamente distante. A partir dela finalmente reestabeleceu-se uma ponte firme e segura entre os dois planos da realidade até então aparentemente irreconciliáveis desde a criação do mundo. O mistério da decisão humana, da escolha da alma racional, onde essa passagem de um plano ao outro acontece em um núcleo escuro e inacessível, em Maria se dá de maneira tão fulgurosa, que é como a versão humana do Fiat lux!, o ato original de toda a realidade. “Faça-se (em mim) a (vossa) luz”.
“A escolha máxima havia de ser uma máxima entrega. A aceitação de um poder infinito em seu seio equivalia à integração definitiva entre o espírito e a matéria, entre o ideal e o real, entre o Céu e a Terra. A humanidade de Deus, longe de ser absurda, era a única resposta possível ao problema mais interior da própria existência. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós”. Imaculado, o seio da Virgem, ao aceitar a proposição que lhe fora feita no sexto mês, tornou-se como a repetição do Sétimo Dia, em que Deus finalmente decidiu repousar. (Renan Martins dos Santos).

SIGAMOS as já famosas “58 Catequeses do Papa João Paulo II” sobre Nossa Senhora, alocuções feitas pelo SS. Padre de 1995 a 1997, nas audiências gerais das quartas-feiras, extrai essas notas (listo-as aqui como anotadas em meu caderno de Catequista, que era à epoca):
  1. A presença de Maria na Origem da Igreja
    1. Atos 1:14: Um olhar para a Bem-aventurada…”todos unidos pelo mesmo sentimento…”
  2.        Cap. VIII de “Lumen Gentium” – coloca em evidência a contribuição que a figura da Bem-aventurada Virgem Maria oferece à compreensão do mistério da Igreja.
    1.  Lucas nos Atos dos apóstolos nos fala da presença feminina no Cenáculo. Oração e Concórdia.
  3.  “Bendita sois vós entre as mulheres” (Lc. 1, 42) – que enseja três propósitos:
    1. Perseverança na oração;
    2. Concórdia e Amor entre os fiéis;
    3. Missão singular de Maria.
  4.  A presença de Maria é discreta durante a Vida de Jesus e de singular evidência nos primeiros dias da vida da Igreja. – Atos 1, 14; Lc. 1,35.
  5. Maria no Cenáculo com “os irmãos de Jesus” –  a família espiritual (Igreja).
    1. Maria operando como “a Mãe da Igreja” –  eis o papel da Virgem e sua centralidade: “manter unidos os irmãos, mesmo em meio às disputas“.
    2. A educação do povo cristão para a Oração.
  6.  Contemplar o rosto de “Theotokos” (Theo: Deus; Tokos: Mãe).10075670a4f3a27abd6588dbd20d4c4b
  7.  Contemplar o rosto  materno de Maria nos primeiros séculos.
    1. “Lumen Gentius” – 52. Convoca os fiéis a venerar a memória de Maria, mãe de Jesus, Nosso Senhor.
    2. “Mãe de Jesus – título que assume todo o seu significado – título honorífico e de veneração, que nos faz recordar o lugar da Virgem Maria na vida de Jesus.
    3. A maternidade virginal – a origem da Revelação do mistério da concepção por obra do Espírito Santo. É parte do Credo Apostólico: “…nascido da Virgem Maria“.
      1. A maternidade virginal jamais poderá estar separada da identidade de Jesus.
      2. Maria é inspiração e modelo. Uma riqueza incomensurável … a vocação especial de Maria alcança seu vórtice no exemplo de Cristo.
    4. O título “Mãe de Deus” foi atribuído só depois de uma reflexão da Igreja que durou dois séculos.
      1. No século III d.C., no Egito, começam os cristãos a invocar Maria como “Theotokos”, Mãe de Deus.
    5. “Sub tuum praesidium” : “Sob Tua Proteção”, Theotokos, mãe de Deus.
      1. Concílio de Éfeso, 431 d.C., define o dogma da maternidade de Maria: “Mãe de Jesus”; “Mãe virginal” e “Mãe de Deus”.
    6. O rosto da Mãe do Redentor.
      1. “A virgem Maria é reconhecida e honrada como verdadeira mãe de Deus Redentor” – (Lumen Gentium, 53).
      2. Na Idade Média, a piedade e a reflexão teológica aprofundam a sua colaboração na obra do Salvador.
      3. A “Mariologia” (estudo da vida de Maria Santíssima) se orienta em função da Cristologia e em nenhum outro.
      4. Final do século II d.C., Santo Irineu, discípulo de Policarpo, diz: “Maria é a antítese perfeita da desobediência e incredulidade de Eva.”
        1.  “….assim como Eva causou a morte, de igual modo Maria, com seu “Sim”, se tornou causa da Salvação para si própria e para todos os homens” (17, 3-2).
        2. Doutrina – “Vita di Maria”, século X pelo monge bizantino João, o Geômetra.
        3. São Bernardo, no século XII (1153) comenta a apresentação de Jesus no Templo como um oferecimento do Filho…hóstia Santa, agradável a Deus.”
        4. Arnaldo de Chartres distingue “dois altares: um no coração do Cristo. Cristo imolava a sua carne; Maria, a sua alma“. Daí em diante, é elaborada a “Doutrina da especial cooperação de Maria no sacrifício do Redentor“.

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          A compaixão da Mãe e a Paixão do Filho, imortalizadas no mármora já exatamente famoso: “Pietà”, de Michelangelo, no Museu do Vaticano.
        5. Contemporaneamente, o olhar contemplativo sobre “a compaixão de Maria”, a “Pietá” indica-nos a participação de Maria como “um evento profundamente humano“.
        6. Santo Anselmo: “Maria, a Mãe da Reconciliação e dos reconciliados, a Mãe da Salvação e dos que forem salvos“.
        7. A maternidade de Maria não é só um ligame afetivo; é contribuição eficaz para o nascimento espiritual e desenvolvimento da Graça…”Mãe, plena de Graça; Mãe da Vida”  – Gregório de Nissa e Guérrico de Igny (1157): “Um só foi gerado, mas todos nós fomos regenerados“.
        8. Século XIII — “Mariale“: a regeneração é atribuída ao “parto doloroso do Calvário”.
        9. Concílio Vaticano II: “Maria cooperou de modo singular na obra do Salvador…É por esta razão nossa Mãe na ordem da Graça. (Lumen gentium, 61).
          1. Maria é nossa Mãe, verdade consoladora que sustenta e encoraja os fiéis à vida espiritual, mesmo em meio ao sofrimento, levando / trazendo Confiança e Esperança. (19).
        10. Maria na Sagrada Escritura e na reflexão teológica
          1. Dogma da Imaculada Conceição, Pio IX (1854).
          2. Dogma da Assunção, Pio XII (1950).
          3. “Mariologia” é, pois, campo da investigação teológica particular.
          4. Escassa informação nos Evangelhos.
          5. De São Paulo, Apóstolo: Epístola aos Gálatas 4,4.
            1. Bem pouco se sabe sobra a família de Maria de Nazaré:
              1. Citações a conferir: Mc. 3, 32; Mt. 12, 48; Lc. 11:27.
            2. Lucas  – Anunciação / Nascimento / Apresentação do Menino Jesus no Templo / Encontro com os Doutores da Lei.   – essa é a base da “protomariologia“.
            3. O Evangelista São João aprofunda o valor histórico-salvifíco do papel da Mãe de Jesus em Jo. 2:1-12; 19:25-27; e em Atos 1, 14 (este escrito por S. Lucas).
        11. A Exegese atual enriquece Santo Ambrósio: “o foco no propagador do Mistério”, conservando a centralidade do Mistério de Cristo”.
        12. Em Lucas 2,19: … “mas Maria guardava todas essas, meditando-as no seu coração“.
          1. Esforçando-se para “pôr juntos” (symballousa), com um olhar mais profundo, todos os eventos de que ela tinha sido testemunha privilegiada. (22)
          2. O centro é o “Cântico de Maria” (Lc. 1,46-55):

            “Magnificat anima mea Dominum
            Minha alma exalta ao Senhor Deus
            Et exsultavit Spiritus meus in Deo Salutari meo
            E meu Espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

            AMÉM!

 

Fonte:
JOÃO PAULO II, Papa e Santo da Igreja: “A Virgem Maria – 58 Catequeses do Papa João Paulo II”, Editora: Cléofas; Idioma: Português; ISBN: 978-85-88158-46-7; O texto de Renan Martins no Medium.

Bernardo de Claraval, guia da Cristandade (3): devoto de Nossa Senhora

Um monge, homem santo e perfeito, Bernardo viveu a imitação de Cristo e torna-se a consciência do séc. XII. Sem evitar a polêmica, é o homem santo providencial para um tempo difícil. É o caso de retomar Chesterton quando se refere a Santo Tomás de Aquino:

Um paradoxo da história é que cada geração é convertida pelo santo que mais a contradiz” (G.K. Chesterton, vida de Santo Tomás de Aquino, p.194).

Iniciemos este post justo de onde findamos o segundo  desta série: citando Dante, no Paraíso:

(…)
“Assim orei, e ela, tão distante
quão parecia, sorriu e olhou pra mim,
e à Eterna Fonte volveu seu semblante.

“E o santo ancião: “Por chegares ao fim”,
disse, “do teu caminho, a que um rogar
amoroso mandou-me, este jardim

percorre agora com o teu olhar;
o que o fará fortalecer, no aguardo
de nos raios divinos te elevar.

E a rainha do Céu, por quem eu ardo
de amor, nos doará graça qualquer,
por mim, que sou o seu fiel Bernardo”

Qual peregrino a nós vindo pra ver,
talvez da Croácia, a Verônica nossa,
que, por sua antiga fome, ainda a rever

resta, insaciado, e um mudo apelo esboça:
“Senhor meu Jesus Cristo, Deus veraz,
então foi essa a aparência vossa?”,

assim eu me sentia, frente à vivaz
benevolência deste que, no mundo,
cismando, já gozara dessa paz.

“Ó rebento da Graça, este jucundo
sentir”, disse ele, “não te será noto
mantendo o teu olhar aqui pra o fundo;

mas mira os giros até ao mais remoto,
onde acharás a Rainha divina
de que este reino é súdito e devoto.”

(…)
“Tivesse eu, por dizer, tanta perícia
quanta pra imaginar Deus me cedeu,
nem tentaria contar tanta delícia.

Bernardo, percebendo ora o olhar meu
ao seu Amor dirigido e presente
o seu com tanto afeto a Ela volveu,

que o meu, à remirar, fez mais ardente.”

(Canto XXXI, 91 -142, Paraíso, Dante Alighieri, trad. Ítalo Eugênio Mauro, ed. 34, 1998/2004.

cropped-1297783845.jpgContinuemos, pois, com Dante, na pena do mesmo tradutor e mesma edição:

No Canto XXXII do Paraíso, End av T-9, Esq. T-2 nr 1116, SL. 108
Edit T&T Empresarial
St Bueno coloca São Bernardo como protagonista. Bernardo continua a sua lição sobre a Rosa Mística. Aos pés da Virgem está Eva e, descendo, Raquel e Beatriz; na terceira ordem, Rebeca, Judith e Ruth. Há uma disposição vertical, sem separação, das beatas do Antigo e do Novo Testamento. Diante delas estão São João Batista e, descendo, São Francisco, São Benedito e Santo Agostinho. Abaixo, num corte horizontal, encontram-se as almas dos meninos que foram salvos, nos tempos anteriores a Cristo, pela fé dos pais (a circuncisão) e, depois de Cristo, exclusivamente pelo batismo. São Bernardo convida Dante à contemplação da Virgem, ladeada por Adão e São Pedro e, opostamente, por Moisés e São João Evangelista e tendo à sua frente Santa Ana, mãe de Maria, e Santa Luzia. Por fim, São Bernardo adverte Dante para que desconfie do seu próprio julgamento, que pode estar desviado da verdade, e submeta as suas escolhas à dependência da Graça Divina. E se prepara para uma oração à Virgem que iniciará no Canto seguinte [Canto XXXIII, em Italiano].

1
Acalentado pela sua afeição,
aquele santo a mestre se erigiu,
e começou assim a sua lição:

“Da chaga, que Maria fechou e ungiu,
a bela, que aparece lá aos seus pés,
foi a culpada, que primeiro a abriu.

E abaixo dela senta, por sua vez,
Raquel, no arco terceiro tendo só,
ao lado, Beatriz, como tu vês.

Judith, Sara, Rebeca e a bisavó
daquele que, contrito, foi cantor
de ´Miserere Mei´, com dor e dó

tu podes ver, seguindo esse pendor,
assim como eu, nome a nome citando,
desço na Rosa de uma a outra flor.
(…)
94
E aquele Amor que primo lá desceu,
cantando “Ave Maria gratia plena”
à frente dela as asas estendeu.

Respondeu, à divina cantilena,
de todas as partes a beate corte,
sua expressão tornando mais serena.

Ó santo padre que, por mim, dispor-te
a aqui descer cuidaste, do lugar
no qual tu sentas por eterna sorte;

que anjo é esse que, fitando o olhar
da Rainha nossa, o seu tanto ilumina;
enamorado a ponto de queimar:

O exemplo usei da afeição genuína
do Santo que se alinda de Maria,
qual faz do Sol a estrela matutina.

(…)
151
E começou, em seguida, esta oração.

Canto XXXIII
1 «Vergine Madre, figlia del tuo figlio,
2 umile e alta più che creatura,
3 termine fisso d’etterno consiglio,

4 tu se’ colei che l’umana natura
5 nobilitasti sì, che ‘l suo fattore
6 non disdegnò di farsi sua fattura

7 Nel ventre tuo si raccese l’amore,
8 per lo cui caldo ne l’etterna pace
9 così è germinato questo fiore.

Continue lendo…Canto XXXIII

Quis a vontade divina que um dos filhos de um castelão, de família guerreira e nobre, fosse destinado ao convento; que nele fizesse uma reformulação, sempre respeitando sua Ordem e seus superiores (os monges Cistercienses);  que enfrentasse uma ampla frente de defesa da Cristandade – que vivia tempos de enfrentamento de algumas adversidades: i.) o inimigo do Cristianismo (o Islamismo); ii.) as heresias; iii.) ajudasse na manutenção da integridade da fé Católica, evitando os desvios de conduta moral de pastores da Igreja; e, iv.) mas não menos importante, alçou o monaquismo a padrões morais de disciplina, oração e  ação; de pobreza e simplicidade que opõe o o despojamento (Claraval, mosteiro por ele fundado) ao fausto (Cluny).

Em tantos assuntos interviu Bernardo de Claraval e o fez de modo tão superior que foi reconhecido Doutor da Igreja (em 1830, pelo papa Pio VIII). Enigma para os historiadores ateus (ou agnósticos), São Bernardo viveu uma vida de santidade, [a vida] de um homem providencial em um tempo difícil (cf. Padre Luis A. Ruas Santos).

Quando o poeta Dante o coloca no Paraíso com o olhar  voltado à Santa Virgem Maria, está o poeta florentino elogiando o “Doutor Melífluo” mas também chamando-nos à importância da devoção a Nossa Senhora, da qual Bernardo nunca se descurou.

Deixo a você leitor o canto composto por São Bernardo em homenagem à Virgem Maria e um link para o texto dos Arautos do Evangelho sobre a figura de Bernardo o “varão de fogo” e ao mesmo tempo o Doutor Melífluo (pois de seus sermões e suas orientações espirituais, às vezes duras! parecia emanar mel).

“Denominado pelo Papa Inocêncio II de “muralha inexpugnável que sustenta a Igreja”, [Bernardo de Claraval] passou para a História com o título de “Doutor Melífluo”, porque a unção de suas exortações levava todos a afirmar que seus lábios destilavam puríssimo mel.

“Quem, no mundo cristão, não conhece a incomparável e doce prece “Lembrai- vos”, a ele atribuída? Foi um dos primeiros a chamar de “Nossa Senhora” a Mãe de Deus. Conta a tradição que, escutando certa feita seus irmãos cantarem a Salve Regina, irrompeu de seu coração pervadido de enlevo a tríplice exclamação que hoje coroa esta oração: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria!”

“Foi também um dos primeiros apóstolos da mediação universal de Maria Santíssima, deixando esta doutrina claramente consignada em numerosos sermões: “Porque éramos indignos de receber qualquer coisa, foi-nos dada Maria para, por meio d’Ela, obtermos tudo quanto necessitamos. Quis Deus que nós nada recebamos sem haver passado antes pelas mãos de Maria.”

Fonte: Arautos do Evangelho.

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E o canto que mesmo não tendo sua autoria comprovada, foi por ele, Bernardo, divulgado amplamente e a ele se atribui a autoria das três frases finais da prece:
Salve Rainha” – como o rezamos hoje:
O Clemens, O Pia, O Dulcis Virgo Maria!
O “Salve Regina” é uma lembrança da antiga França. Atribui-se ao bispo de Puy, Adhemar de Monteuil, membro do Concílio de Clermont, onde foi resolvida a primeira Cruzada. Adhemar seguiu a Cruzada na qualidade de legado apostólico e compôs a Salve Regina para que se tornasse o canto de guerra dos cruzados. A princípio, a antífona acabava por estas palavras: nobis post hoc exilium ostende. A tríplice invocação que a termina presentemente foi acrescentada por São Bernardo, e merece ser narrado como se fez.

“Na véspera do Natal do ano de 1146, S. Bernardo, mandado para a Alemanha como legado do Papa, fazia sua entrada solene na cidade de Spire, depois de uma viagem memorável na qual os milagres foram numerosos. O bispo, o clero, os cidadãos todos, com grande pompa vieram ao encontro do santo e conduziram-no, ao toque dos sinos e dos cânticos sagrados, através da cidade até a porta da capital, onde o imperador e os príncipes germânicos o receberam com todas as honras devidas ao legado do Papa.

nossa-senhora-c3a9-sc3b3-bondade-e-compaixc3a3o-sua-vontade-de-nos-salvar-a-ainda-maior-do-que-a-nossa-prc3b3pria“Enquanto o cortejo penetrava no recinto sagrado, o coro cantou a Salve Regina, antífona predileta do piedoso abade de Claraval. Bernardo, conduzido pelo imperador em pessoa e rodeado da multidão do povo, ficou profundamente comovido com o espetáculo que presenciara. Acabado o canto, prostrando-se três vezes, Bernardo acrescentou de cada vez uma das aclamações, enquanto caminhava para o altar sobre o qual brilhava a imagem de Maria: O clemens! O Pia! O dulcis Virgo Maria!
─ Ó clemente! Ó piedosa! Ó doce Virgem Maria!”
[Esses três últimos parágrafos foram retirados de O Catolicismo, consultado hoje, 26/03/17,  20h00].
Ouçam e acompanhem a letra de Ave Maris Stella no You Tube (link abaixo).
Ave Maris Stella (Hail Star of the Sea).

Literal Latin/English Translation
Sung by the Daughters of Mary
http://daughtersofmary.net/music.php

Adeus à Rainha Fabíola, um exemplo de amor duradouro

NO DIA EM QUE A BÉLGICA DÁ ADEUS A SUA RAINHA, Fabíola de Mora Y Aragón, ou simplesmente a Rainha Fabíola, junto-me às homenagens…

Lembrando um livro definitivo sobre seu marido, companheiro de uma vida – o Rei Balduíno, onde a Rainha não é mera circunstante, mas protagonista.  E se na despedida de Balduíno, uma carta-aberta publicada num jornal local na Bélgica dizia:

– “Obrigado ao Rei por ter ousado a Ternura…” – eu vos digo, hoje:

rainha-fabiola_rei-balduino“Obrigado, Rainha Fabíola, por sustentar com seu exemplo um Amor que permaneceu jovem e transparente, mesmo diante dos sofrimentos físicos e morais a que a idade submeteu este belo e admirável casal real”.

– Beto Queiroz* (Se eu pudesse, inscrever-me-ia entre seus súditos, mas de coração  posso declarar-me seu, Rainha Fabíola, súdito na Fé, pois somos irmãos em Cristo e na devoção a Maria).

Que Deus receba a alma de sua serva, a Rainha Fabíola, e que sob a árvore do Paraíso, ela encontre todos os Anjos e Santos; e também o servo de Deus e seu amado companheiro o Rei da Bélgica, Balduíno.

Com o casal real, aprendi muito… O Padre Franz, do mosteiro dos Santos Anjos, em Anápolis (GO) foi quem me indicou o livro – em uma orientação espiritual que tive com ele. Só encontrei “O Segredo” depois de muita procura. Eu lhes garanto: é um dos mais belos livros sobre a vida em família e sobre o amor conjugal.

O Cardeal Suenens conseguiu revelar-nos “a profunda humanidade” da vida de Balduíno, rei da Bélgica durante 42 anos, de 1951-1993. Aos cristãos, a mensagem é ainda mais completa, pois que revela-nos também “a chama interior da vida do rei Balduíno – uma vida absolutamente invulgar”. O livro é uma espécie de confissão dentro da Confissão, isto é, o que é possível dizer de público aquilo que o Rei disse ao Cardeal durante um longo período de convivência (1960-1993).

A esperança do biógrafo é de que o leitor pudesse “reconhecer o tom da voz do rei Balduíno e a emocionante e exemplar mensagem da vida dele…” 

De fato, mesmo aos não-súditos e não-contemporâneos, o livro nos revela um Ser Humano admirável, atrás e acima da “persona real“. Um homem que ama contemplar as estrelas, rezar e conviver com a família; um homem que, demorada e cuidadosamente, escolheu uma noiva que viria a ser sua companheira de uma vida inteira (Fabíola) – a quem se uniu e com quem formou um casal cristão.

Fabíola e Balduíno formam um casal que nos dá um exemplo de que é possível viver em Cristo e na devoção a nossa mãe Maria Santíssima. Mesmo no ambiente de fausto dos palácios, onde as pompas reais parecem prover luxo e distanciamento do Sagrado, estes personagens reais viveram com simplicidade cristã, em amor, vendo e interpretando o mundo com os olhos de cristãos, muito mais do que de nobres terrenos.

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Um amor que não tem fim…


Quando da cobertura da morte do Rei, diz o Cardeal ter visto na TV testemunhos que resumiram a marca da personalidade de Balduíno:

“O público reconheceu no Rei um homem de Amor”
“Exercer a realeza como o Rei Balduíno o fez é também um sacerdócio”.

Se a isso juntarmos o trecho da homilia do Cardeal Danneels em sua despedida do Rei, teremos o quadro resumido do que “O Segredo de Balduíno” pode servir à nossa vida como leitores, podemos ver no “Imprevisto Real” uma vida em miniatura:

“Há reis que são mais do que reis – são pastores do seu povo!”

– O papel de Fabíola de Mora Y Aragón ficará logo evidente como de protagonista nesta que é a vida de uma família real, mas uma família, sobretudo, exemplar e fundamental para a Bélgica (e o mundo inteiro – ao conhecer e se espelhar no exemplo do casal real). O fundamento do casal real há-de nos descortinar o “Segredo” – viveram em Cristo, o fundamento do Amor; em Maria, a devoção a uma mãe que a todas supera e protege…  

Confirmam essas minhas palavras de resenhista entusiasmado a transcrição do Cap. III – O Casal Real – confira no próximo post um texto em formato de imagem ‘scanneada‘. E você verá que a vida do casal real – Fabíola e Balduíno da Bélgica – ilustra, certamente, com nos diz o Cardeal Suenens, a frase de Jean Guitton:

O Amor é sempre fecundo, mesmo que apenas transforme aqueles que amam…

Quero comigo guardar as imagens do jovem casal que são um exemplo de conto-de-fadas do Amor Real, em sua fase terrestre, ao lado de outra do casal que amadureceu junto – pois que o a visão do Eterno perpassa a vida daqueles que crêem em Deus, como Fabíola e Balduíno o fizeram aqui na terra…

O Segredo do Rei”, do Cardeal Suenens, da Bélgica foi publicado em 1995, em Ertvelde (BE), sob o título original de “Le Roi Baudouin – Une vie qui nous parle”, Editions F.I.A.T.

A edição em português é da Editorial A.O. de Braga, Portugal, trad. Margarida Osório Gonçalves.

*As referências neste post são à 2a. edição, 1997.

+++++

Fonte: *SUENENS, Cardeal. “O Segredo do Rei”, Editoral A.O., Braga, Portugal, 2a. edição, 1997.

O Segredo do Rei, Cardeal Suenens

Cardeal Suenens revela “O Segredo do Rei”, originalmente: “Le Roi Baudouin, Une Vie qui Nous Parle”, 1995.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Martin Vasques acerta As horas de Katharina para o leitor de Bruno Tolentino

Amigo(a)s,

Transcrevo com alegria trechos deste belo ensaio de Martin Vasques da Cunha sobre o livo “As Horas de Katharina“, (B.Toletino). Meus seis leitores sabem da minha descoberta apaixonada da poesia de Bruno.
Um excerto para te dar vontade de ler mais (link ao final):

“(…) Tolentino não é Katharina; ele se incorpora nela, para que o leitor saiba que a experiência da conversão ocorre com todos os que se deixam converter pelo divino. Entretanto, o poeta não quer apenas brincar de mero artífice com relação a essa experiência; seu desejo é agarrá-la em sua essência e, por isso, utiliza um personagem feminino. A razão é simples: ele sabe das ressonâncias profundas que a figura da mulher tem no drama da salvação.
“Ortega y Gasset escreveu em seus Estudos sobre o amor que, enquanto o homem precisa realizar a sua história no mundo através de atos exteriores que são uma extensão de sua personalidade, a mulher não precisa agir de forma alguma porque ela simplesmente é[5]. Sua mera presença torna-se suficiente para a lapidação dos valores, das virtudes e dos ideais humanos, até que estes tenham a exata medida, o equilíbrio correto na ação de cada homem que cria não só sua própria história, mas também a história da humanidade. Ela incentiva o aperfeiçoamento do espírito apenas com uma palavra ou uma pequena escolha – e muitas vezes são estes detalhes que mudam a figura do drama da salvação.
“O exemplo mais concreto é o de Maria, mãe de Jesus, figura recorrente em “As horas” e uma presença constante em toda a obra de Tolentino. Mas Katharina também se aproveita da estratégia do poeta, usando diversas outras “máscaras” de personalidades femininas, como Maria Madalena, Salomé e Medéia, num instigante jogo de “bonecas russas” inter-textuais, com a intenção de separar suas emoções, suas certezas e, principalmente, suas dúvidas. Nenhuma dessas “máscaras” se compara, porém, ao uso que a noviça faz da Virgem Maria.
Siga lendo no blog do Marting Vasques…

Ao modo de São João da Cruz

Nessa noite indormida, tão só e insone
Penso na fragilidade humana de sempre
Elaborando que difícil é a alma na trempe:
Sem rimas, sem versos exatos – alone!

Eu tão só encontro na imagem socorro
De Nossa Senhora: o meu refúgio no colo
Da Mãe de Jesus, tão próximo, seu filho:
Viver,  correr ou morrer é tão pouco…

Achados & perdidos (5)

Sexta-feira, Janeiro 16, 2004
Saudades do lar

Amigos,
Monsieur Gilberto K. Chesterton era um privilegiado súdito do império Britânico, num tempo em que as rainhas não se opunham aos matrimônios na família real.

Ele dizia que “a igreja católica é o lar natural do espírito humano“.

Depois de alguns dias na América do Norte – este imenso e generoso país que aprendi a admirir e a gostar, eu vos confesso: senti muitas saudade do meu lar, da casa e da Igreja do bairro.

Eu vivo em Goiânia mas fui criado em Anápolis (GO), e de certa maneira sou (ou fui) “um pobre diabo da Póvoa do Varzim, a minha Vila Jaiara (em Anápolis)”.

Meu mais importante ancestral – o sr. Eça de Queiroz ensina-nos a ser críticos, mas eu sou sempre condescendente e acrítico.
Ele foi acusado de ser crítico demais com o Portugal que amava e que amamos até hoje, por ter sido um cidadão do mundo.

Para mim, filho de Goyaz – le Brésil profonde – e um pequeno cidadão da França e da Carolina do Sul – eu originário do mais fundo Brasil que se possa imaginar, ser um filho do Abrigo Evangélico Goiano (entre outros 99 meninos e meninas que não conheceram seus progenitores), é algo que hoje é assimilável e que representa o mais fundo brasil de minha estória individual. Já foi difícil. Hoje é história.

Nâo me contento com o chamado (in)cômodo e estreito banquinho do presente, como designa Ruy Maia.
A diferença é que eu faço como um dos meus mestres: só me lembro do que eu realmente fiz, porque desejei fazer.
É pouco, mas sobrevivi. Queria ter escrito mais, pensado mais, ousado mais… mas não pude.

Não tive disciplina nem pré-disposição que me fizesse andar pra frente em literatura, mas tenho meu seis leitores, isso me basta.

Tenho muitos amigos e uma família maravilhosa que agora se amplia e quando encontro com moços de sobrenomes mais nobres, admiro suas conquistas, mas sempre imagino: pobres moços, não tiveram nenhum teste de sobrevivência diante dos leões selvagens.

Volto da América com os sentimentos apaziguados: a família Queiroz se amplia: somos eu e Sherazade, a pequena Cecília, Maíra e agora os in-laws : parte de uma nova família.

A Póvoa do Varzim abrange mais pessoas – belas pessoas da mais distante Pensilvânia.
Nosso coração se dilata. A gente fica mais doce por dentro.

Assistimos encantados, ao casamento de nossa filha Maíra. e tudo aquecia a alma, mesmo com toda a neve que salpicava as montanhas do Sullivan County (Endless Mountains) na Pensilvânia.

O lar que procuro na chegada diz Amém!
O coração anseia pela missa da paróquia de N.Sra. Aparecida e Sta. Edwiges no Jardim América, pelo pão e vinho da comunhão dos irmãos católicos do meu bairro.

O Amor afirma a persistência do que somos e está na raiz da decisão que fizemos por Amar alguém. A Deus que propiciou surgir os “Queiroz Foust (Craig e Maíra)” como uma família – peço que abençôe o novo casal. Rezo com o pensamento em Santa Teresa D´Avila.

Abraço fraterno do seu

BetoQ.
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Post-Post: Para reler G.K. Chesterton.
publicado porAdalberto Queiroz 1/16/2004

Escritos antigos: achados & perdidos

Estavas aqui há pouco e brincávamos de caça-palavras.
Estavas aqui e, há pouco ainda, via tuas mãos alvíssimas.
Sim, eu estava ao teu lado de torso nu, colhendo conchas na praia.
Era como se só me interessassem as conchas e pedrinhas perfeitas.
Cioso as escolhia, sob seu olhar terno, e as guardava no embornal que eu trazia ao ombro.

Estavas aqui há pouco e eu comia doce de leite e toda a mais funda lembrança da infância no mais fundo dos Brasis ainda vivendo em paz.
Ah, e tomava leite de cabra e nadava no riacho e a tudo assistias.

E tudo era como se eu me arrumasse para ir à escola, a escola mais distante no mais distante pasto a se atravessar. E nem medo nenhum eu tinha de vaca doida e boi da cara-preta…

Estavas aqui há pouco e não havia mistério nas matemáticas que não decifrássemos num átimo.

Estavas aqui há pouco. Entre as palavras me divertia: jade, rocio, tez, altar, pistilo, éter, riacho, sanga, jã-de-louçã, jaez, adestro, terrina, absoluto, devido, lápis lazuli…
E lembrei-me do amigo, o caçador de palíndromos.
Dentre mil imagens, a da catedral agora visível, donde provêem sons de um órgão que jamais ouvi. E uma cornucópia de frutas e moedas que valiam o ouro de pensamentos mais cristalinos.

Estavas aqui há pouco e o mais ditoso era falar em lí­nguas.
Eu dizia sem entender:
eudamoní­a, tu dizias: makarí­a, makariótes…makarí­zein.
E eu:
mákar o que é?
– Tu respondias: beatitude.Bem-aventurança e lias o evangelho de Mateus e eu me sentia
heureux qui comme Ulisse…
Tu dizias:
felix, venturus, felicitas. Eu solfejava de mansinho, lembrando-me da melodia:
“Beatus, beatus, beatus vir…”
Tu dizias em resposta: ventura, ventura.

Essa palavra à liberdade atada: “Tu mesmo forjaste tua ventura”, repetias, cantando a admirável palavra cervantina”.
– Ventura, venturoso, venturança, o bom amigo e o Sancho Pança…
Eu dizia e sorria…

Tu nomeavas, eu repetia: felicità é ventura, é bonheur.
– Ah, essa eu já a conhecia, dizia todo feliz. E lembrava-me de todas as manhãs de quando o orvalho luzia sobre o cerrado goyano (o capim meloso) ou sobre o campo de alfazema, en Provence. E entanto
Glück é novo pra mim, eu repetia:
– Ah,
happiness e também luck, a “sorte” grande (só pode ser boa) e não é loteria. Há Glück, tu dizias e há também Seligkeit, ou uma conjunção dessas duas: Glückseligkeit (eu me atropelava, mas repetia; e lograva entender: Glück-Selig-Keit, que era pra mim um latino aprendendo a lí­ngua de Goethe e Silesius e Schiller).

Oh, Princesa de todas as princesas; oh, Mãe de todas as mães, tu estavas aqui…

Agora, no albor da alvorada, ao me deixares, fiquei com a surpresa e a ventura de mais um dia que recebo de presente.

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(*) Este texto foi inspirado na leitura do livro de Julián Marí­as, “A Felicidade Humana“, Livraria Duas Cidades, 1989.