A gênese de um livro (III)

Canções americanas (2)

Ah! azevinheiro em minha janela
mas meu coração não está mais lá;
estreita era a cama – nós dois nela,
mas meu amor está amarrado lá.

Mas meu amor está amarrado lá
onde a grama está sempre verde
o silêncio permite ao nightingale
cantar sem que o deserdem.

Cantar sem que o deserdem
o poeta deseja desde Homero;
sem Calipso o verso tecer-lhe
com saudades partir austero.

Com saudades, partiu austero
sobre o mar do Caribe e além –
só desejava um passarinho
do cerrado que o acordasse
de madrugada
de volta ao domo donde provém.

./.

Plantation, Fl, 15.02. GYN, 23.02.17

Poemas de esperança (V)

Se toda lua é atroz; se todo sol, amargo
o que seria de ti, oh triste caminhante
desse destino com o peso do desencargo
trazido às costas? sulcas o solo e avante

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Poemas de esperança (memorial)

Goyaz (1)

No outono da vida o sol do cerrado
seca as mesmas sementes — sol a pino:
sementes de abóbora comidas assadas
coisas de antanho com igual desatino.
Cajá-manga devorado com sal, à sexta hora
o gosto arcaico na boca desata sonhar —
feito pamonhas ao leite ou torta de amora
vem só o torniquete do acerbo no maxilar.

Minha avó comendo manga com faca
nas tardes de outrora, parece retornar;
uma sombra morna no sonho que sou.
Igual lembrança aperta de mansinho
a segunda costela à sinistra do sono
e traz o pousoso passado ao ninho.

Poemas novíssimos. Goiânia, 26.01.2017