Era uma noite de inverno, de vento frio, quando o poeta russo Joseph Brodsky desceu os degraus da estação de Veneza pela primeira vez. Antes que os olhos registrassem qualquer coisa, foi tomado por uma felicidade absoluta, que para ele sempre teve o cheiro de algas geladas. Era o cheiro da infância, vivida às margens do Báltico.

Brodsky nasceu em 1940, em São Petersburgo, cidade de canais e de luz cinzenta. Sua infância não foi tão feliz. Afinal, o poeta achava que “as infâncias raramente o são, sendo antes uma escola de insegurança e desamor-próprio“.

Em 1964, o poeta foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados e, oito anos depois, expulso da União Soviética. Fixou-se nos Estados Unidos, mas foi em Veneza que encontrou uma espécie de paraíso.

Visitou a cidade por dezessete anos, sempre no inverno, quando os turistas vão embora e a cidade fica quase só dele, como compensação por tudo o que o exílio lhe tirara.

Dessas temporadas, nasceu “Marca d’Água: Sobre Veneza” (1992), um livro que é pura poesia em prosa. Nele, Brodsky confessa que, para escapar do Báltico, “só mesmo se fosse uma enguia”. E é um pouco como enguia que ele circula pela cidade aquática, com a desenvoltura de um peixenauta.

Em Veneza, tudo começa pelo olfato de algas geladas. Depois do olfato, vem o olhar: a presença da luz. “Ah, a luz do inverno nesta cidade!“, exclama o poeta.

De manhã, a claridade se encosta na janela e corre à frente dele, passeando pelas arcadas, pelas colunatas, pelas chaminés de tijolo vermelho, pelos santos e leões de pedra, como se lhe ordenasse: “Pinta!”.

Diante de tanta beleza, Brodsky duvida que o cérebro dê conta de guardar tudo e recorre à sua máquina Kodak, como hoje recorremos às câmeras dos smartphones.

De todos os sentidos, é a visão que mais move o escritor. Fugindo das hordas de turistas, ele anda de olhos bem abertos por uma cidade que, sob seu olhar, não serve para ser museu, porque é ela própria uma obra de arte, “a maior obra-prima que a nossa espécie criou“.

Brodsky ganhou o Nobel em 1987 e morreu em Nova York em 1996. No ano seguinte, seu corpo foi levado para o cemitério de Veneza, na ilha de San Michele, como era seu desejo. O visitante de dezessete invernos tornou-se, enfim, habitante permanente da laguna.

Ele parecia pressentir que o paraíso teria fim: “Sendo as coisas o que são, esta cidade é a menina dos nossos olhos. Depois dela, tudo nos desilude. A lágrima é uma premonição do futuro do olho.“

Muito mais teria o cronista a dizer, mas não caberia nesta página. Por ora, enxugo as lágrimas destes olhos cansados, parentes dos olhos das velhinhas de preto que Brodsky via tecendo rendas nas ilhas da laguna, feito os olhos de quem passou a vida a recolher no papel os fios da memória.



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