Voando com as araras entre ipês

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Título: Voando com as araras entre ipês
E assim, ontem, como convém à democracia, votamos novamente. Enquanto as mentes se agitam na guerra das urnas, o cerrado não vota, as araras e os ipês não fazem comício. Estes floresceram na hora certa, aquelas voam e guincham, sem discurso, indiferentes ao que se decide nas seções eleitorais.
Justamente no dia do primeiro turno se pede ao cidadão comum um gesto único e que simula real autonomia: escolher, julgar e digitar na urna eletrônica aquilo que traduz seu próprio voto em convicção.
Hoje, esse gesto se apaga e a vida retoma o seu passo de sempre, manso e servil, que já não precisa de urna nenhuma para se impor. Foi assim que, lendo o britânico Kenneth Minogue, compreendi que a servidão não vem de fora, é imposta, e o cidadão a aceita aos poucos, como quem entrega a outrem, ao Estado ou ao hábito, decisões que antes eram individuais.
Essa servidão tem disfarces miúdos: o boleto que vence sem a gente escolher, o aplicativo que decide por nós o caminho, a notificação que dita a hora de acordar, de comer, de se indignar. Votamos nisso todos os dias, sem urna e sem perceber.
Minogue lembra Aristóteles: o cidadão é bom conforme o regime em que vive, mas o homem bom o é por uma única excelência absoluta, que nem sempre coincide com o que o Estado pede. Sabe-se o preço que esse descompasso custou a Sócrates: a cicuta. Poucos hoje pagariam tão caro por uma convicção pessoal, e talvez seja essa a medida da nossa servidão: não a violência do Estado, mas a facilidade com que renunciamos ao próprio juízo.
O cidadão de Atenas era livre ao deliberar na praça, e aceitava que a cidade vigiasse até a educação dos filhos. Hoje, temos o contrário: a casa inviolável, onde ninguém entra, e a mente servil, entregue aos representantes políticos.
A liberdade para Minogue não é ausência de vigilância: é o espaço da vida moral, do cuidado da alma e de tudo o que nos constitui como indivíduos. A liberdade moderna nasce, portanto, como uma cerca construída em torno dessa vida particular e moral que nenhuma urna substitui.
Daí a conclusão de Minogue: o problema moral básico da política é o confronto entre o juízo pessoal e as políticas públicas. Se ele tem razão, hoje é menos o dia depois da eleição do que o primeiro dia de volta a essa servidão de todos os dias.
Por isso guardo, contra a corrente, pequenos gestos de autonomia individual: o almoço de domingo em família, com a mesa posta na hora certa e ninguém de olho no relógio, e a sexta-feira para reunir os amigos para o happy hour, às sete e meia da noite, sempre exercendo a liberdade de escolher a mesa e o vinho.
São rituais que ninguém nos impôs e que o Estado ainda não conseguiu nos tirar. Parece pouco, mas é meu. Não há como vencer de vez a mente servil; dá para lhe furtar, aqui e ali, um naco saboroso de domingo e de sexta-feira. Hoje é segunda, a sexta está longe, e lá fora os ipês seguem florescendo sem pedir licença a ninguém.

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