No dia 24 de agosto, a Argentina comemora o Dia do Leitor, data escolhida em homenagem ao nascimento de Jorge Luís Borges. Poucas homenagens fazem tanto sentido: dificilmente haverá um escritor cuja vida se confunda tanto com o próprio ato de ler.

A biblioteca, para Borges, começou em casa. Seu pai possuía um vasto acervo e autorizava o filho a escolher livremente o que quisesse ler e a abandonar qualquer livro que o entediasse.
Depois viria a cegueira, herdada do pai e que se tornou completa por volta dos 55 anos.
Vivendo na “umbrosa noite do silêncio” de sua cegueira, Borges não decai para a escuridão, pois a névoa o recobre para que “o sol interior” ilumine o leitor.
Guardo do escritor uma lembrança do que li em “A flor de Coleridge”, onde defende que copiar os autores admirados, até que o estilo deles se imprima em nós, pode ser caminho legítimo até descobrirmos o nosso próprio.
Essa foi sempre a sua marca: ler tudo, absorver tudo, e devolver ao leitor um mundo em que cada texto remete a outro, como se ler um conto seu fosse como ler todos os textos que ele já leu.
Mais tarde, já cego, foi sua mãe, Leonor Acevedo, que passou a ler para ele os livros em voz alta. Formaram, os dois uma “sociedade edipiana de eficácia impecável”: ela lia para o filho, ele a educava. Uma imagem que atravessa a obra toda: um escritor cego e mundialmente famoso, guiado pela mãe, ambos suspensos fora do tempo comum.
A cegueira, ao contrário do que se poderia esperar, não chegou a Borges como um golpe súbito, mas como um “lento crepúsculo” e não foi vivida como punição. “Devo à cegueira muitos versos e o aprendizado de idiomas” dizia.
Juntou-se, assim, a uma linhagem de escritores cegos ou quase cegos que a literatura consagrou: Homero, Milton, James Joyce.
Em 1955 foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. Era o terceiro diretor cego da instituição, coincidência que ele preferiu ler como confirmação de um destino: “três é uma confirmação… divina ou teológica“, escreveu.
Em “Um leitor” Borges declara, sem meias palavras: Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que li.

Esses episódios talvez expliquem por que, em Borges, a cegueira nunca aparece apenas como privação. Ela se torna método, metáfora e destino. Poucos poemas resumem tão bem essa relação entre sombra e leitura quanto “Um cego”:
Não sei qual é a face que me fita
Quando observo a face de algum espelho;
No seu reflexo espreita-me esse velho
Com ira muda, fatigada, aflita.
Lento na sombra, com as mãos exploro
Meus invisíveis traços (…)
Ainda jovem, visitei a livraria El Ateneo Grand Splendid, erguida dentro de um antigo teatro, com a cúpula pintada e os camarotes intactos; e, depois, fui ao Café Tortoni, onde as esculturas de bronze de Borges, Carlos Gardel e Alfonsina Storni pareciam aguardar-nos para a última tertúlia.
Ao escolher justamente o aniversário de Borges para celebrar o Dia do Leitor, a Argentina fez jus a um autor cuja vida inteira foi dedicada a esse gesto silencioso e infinito: ler, porque “ler é uma reconstrução do Todo Escondido“.
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