Miscelânia

Achados & Perdidos (4)


Sobre o cadáver do Herói

O argumento é velho: nossa falta de auto-estima. O fato é ancião: morrem os homens e morrem os acima da média.

A diferença é que pessoas acima da média, deixam um traço de luz quando falecem.

Há muito tempo atrás, li sobre um sargento morto no Zoológico de Brasília em meio ao ocaso da regime autocrático dos militares. Um texto de um jornalista comum: Lourenço Diaféria – de quem não me lembro ter lido senão este texto antológico, levantando fatos incomuns para a época. “Herói. Morto. Nós” é uma crônica antológica que a Folha preservou em seu acervo com as virtudes e até os erros de ortografia (a grafia da época, 1977). É uma crônica datada?

– Talvez, mas útil para o diálogo que pretendo nesta nota.

Veja a crônica no site da Folha.

Agora que perdemos o diplomata brasileiro Vieira de Mello, querem alguns que pensemos na perda de um herói.

E há os que comparam esta perda à da vida de Ayrton Senna. Diferentes scripts para desempenhos extraordinários. A grande imprensa (como dizíamos nos tardios ´70), se apressou a traçar o perfil do ilustre Sérgio Vieira de Mello.

Quando se conhece um pouco mais sobre a sua vida, vê-se que ele é feito de um barro um pouquinho melhor do que o nosso (como diz meu amigo César Falcão, o outro César. É. Sou amigo dos Césares).

Coube apenas pelo destino tornar-se emblemático do momento que vivemos. É homenageado em todo o mundo. Não vejo porque não nos unirmos às homenagens. Se o Brasil tivesse uma chance (não esta de homenagens póstumas), definitivamente rídicula esta chance única (e perdida) de termos um novo Oswaldo Aranha – a morte de um profissional com o perfil do diplomata Vieira de Mello.

Por ser meu filósofo predileto um humorista de plantão, deve ele ter a fórmula certa para dizer: todas as nações em todos os tempos precisaram de heróis, pela simples razão de que esta carência não é brasileira – é humana.

Só não posso concordar com uma certa linha de argumento que coloca no mesmo saco ou baú de ossos, os restos mortais desses dois brasileiros, sob a ótica do pobre-país-que-precisa-de-heróis. Os humanos, precisamos de heróis para despertar em nós o que temos de deuses (ver a nota final de autoria de José Nivaldo Cordeiro).

Mas o que vejo nestes dois brasileiros de fibra, diferenciação, grandeza, vejo em brasileiros vivos: em Amyr Klink e José Midlin, para ficar em poucos exemplos de tantos outros que não vou nomear pela emoção ao correr do teclado.

Por certo, são eles de um barro bem melhor do que o meu e desses críticos de primeira hora, que subestimam a importância dos heróis (penso agora mesmo numa carta do sargento que deu o último socorro ao diplomata sob os escombros e afirmou que ele até o último momento de sua vida foi um gentleman,um homem que se preocupou com os Outros – o tal gênero humano, do que Brecht provavelmente entendia apenas na dimensão do cômico).

 

O que mais me chama a atenção na biografia destes brasileiros e que chamo de coincidências é a incrível vocação para a excelência: busca de boa formação, destino para fazer melhor etc. etc. Tudo que me inspira a viver um dia-a-dia mediano com a cabeça nas estrelas. Meus pés de barro me põem na devida dimensão do homem comum, mas não tenho a miopia dos que não enxergam (ou cuja soberba não permite ver) a grandeza dessas pessoas. Há muitas; soube de operários simples que foram capazes de grandezas (lembro-me sobretudo do incêndio do Edifício Joelma em SP, na década de 70).

 

– Observem o olho direito dos dois personagens. A testa franzida. A tristeza do sorriso à la Mona Lisa. Traços que mostram um pouco de sua vontade de realizar algo acima da média. É tudo. Pense e dê sua opinião.

 

Vieira de Mello, a foto oficial no website da ONU e Ayrton Senna, um herói nacional.

Sérgio Vieira de Mello homens com perfil acima da média.

 

Post Post:

Interessante refletir sobre o arquétipo descrito por José Nivaldo Cordeiro sobre o herói brasileiro típico e faltante no antológico “Em Berço Esplêndido“, de Meira Penna sob o caráter brasileiro. Veja:

Miguel de Unamuno dizia que o Cristo espanhol é moribundo, em agonia no limiar da morte. Como será o nosso?

Tendo a pensar que está na nossa psiquê o Senhor morto e crucificado. Se nos debruçarmos sobre a religiosidade popular como, por exemplo, Antonio Conselheiro em Canudos e Tiradentes, veremos que essas personalidades são uma forma de projeção de Cristo. O sacrifício do Conselheiro era prefigurado desde o início da sua jornada, na medida em que o povo o via como o próprio Messias encarnado. Aqui importava o cadáver do herói sacrificado.

Tiradentes não seria um mito político tão importante se não tivesse a associação do seu sacrifício com o de Cristo.

A sua representação quase sempre mal disfarça a sua imagem como um Cristo substituto. A história do Padre Cícero de Juazeiro vai na mesma direção. O seu santuário sagrado de adoração dos fiéis é o seu túmulo e o morro onde está a sua estátua tem o sugestivo nome de Horto…” (José Nivaldo Cordeiro).

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