Tomo de empréstimo a expressão-título deste post à Alma, médica e amiga de primeira hora (na Web) que dá a receita apropriada a esta hora. Achei na receita de Alma um bem parecido ao da vasta teoria do psiquiatra judeu Victor Frankl (que meu amigo CM me emprestou há alguns anos atrás e que foi de grande valia!) – penso, mas o cansado e insone digitador na madrugada não pensa mais, só quer alguém com quem conversar, mesmo que virtualmente, ou alguém que possa ouvi-lo.
Nesse mês de cachorro louco, cá estou de novo insone pensando nas agruras do comércio e nas adversidades que o país e o mundo sofrem neste início de século.
Tenho eu anotados em minha agenda, nem sempre seguida à risca, deveres de posts que são verdadeira logoterapia: 100 anos de René Char, mais Bruno Tolentino e este post pensado antes sobre o gigante das Ipueiras. E antes que o fósforo que emana dessas 14 polegadas queime minhas retinas cansadas, deixo as citações do poeta Gerardo Mello Mourão, a quem presto uma singela homenagem em meu espaço. Registro minha gratidão ao meu amigo Fabio Ulanin, responsável pela aparição deste maravilhoso católico-poeta em minha vida.
Mello Mourão surgiu, pois, de um artigo de Ulanin para o saudoso 8 Colunas.
A partir de então, parti a garimpar os livros do poeta, e os achei principalmente neste site, onde os pedidos são quase sempre muito bem atendidos (aí adquiri Invenção do Mar, Os peãs e o Cânon & Fuga).
Crendo que está certo o velho Frankl, persisto com os olhos cheios de areia, a crer que a manhã de que está prenhe a negra cama de nuvens sobre a nossa casa também está carregada de esperanças e promissões: pois “se você tem um porquê , então pode suportar todos os comos“.
E assim dou a palavra ao Poeta:
“Conheci para sempre a castidade e o amor das Musas, a que sou fiel, “ego scriptor” — como se qualificava Ezra Pound, diante dos juizes ignorantes e dos carcereiros broncos do exército de seu país. Aqui estou também eu: “ego poeta”. Pois, poeta sum”. Eu sou o poeta do país dos Mourões, e como na frase humilde e soberba do testamento de Keats — “I think I shall be among the english poets, after my deathl” — também creio que estarei entre os poetas de meu país, depois de minha morte. Perdoai-me essas divagações bibliográficas, quando o que pareceria adequado, nesta aula de claustro pleno, seria uma confissão de fé no pensamento e no espírito em que se fundou o trabalho de um homem, que é apenas um poeta e não pretende ser senão um poeta, em cada palavra que se aventurou a escrever.
“Toda a lírica e toda a épica de que fui capaz, se algum mérito tiver, será o da fidelidade às raízes populares de meu país de serranos e sertanejos, onde todas as mulheres são belas e todos os homens são valentes. Toda poesia é cosmogônica. Entre as trezentas maneiras de fazer versos referidas por Elliot, e as trezentas definições de poesia alinhadas pelos culturalistas vadios, um único verso de Hoelderlin nos situa diante da mera face da Musa: — “Was bleibet aber, stiften die Dichter”. Tudo o que permanece, a única coisa que permanece é aquilo que é fundado pelos poetas. Talvez por isso, por ter tentado fundar aquele rude país dos Mourões, com o cheiro da pólvora de seus heróis, ao clarão da lâmina das parnaíbas pontudas e ao trom dos mosquetões, é que O País dos Mourões mereceu a exclamação comovida de Carlos Drummond de Andrade: “— Esta poesia — escreveu ele — foi tudo quanto sempre desejei escrever na vida, e nunca tive força. Gerardo Mello Mourão teve”
“E Ezra Pound, diante de quem me curvo, como a maior presença poética dos últimos séculos, desde o Dante, contemplando nosso país da Ibiapaba, onde os homens sabiam cantar à viola, no mesmo tom, o amor e a morte, escrevia: — “Toda a minha obra foi uma tentativa de escrever a epopéia da América. Não o consegui. Ela foi escrita no poema espantoso do poeta do País dos Mourões”. Relevai-me a impropriedade e a imodéstia dessas evocações. Mas é que elas não lembram propriamente este pobre cantor das coisas, dos lugares e das pessoas, de nossa terra, mas consagram, isto sim, a mais bela, a mais generosa, a mais sofrida e a mais heróica região deste país — este Ceará ao mesmo tempo primitivo e civilizado, de onde saiu um dia, como um centauro equatorial, meio-terra meio homem, o bárbaro profeta de Canudos que, como ensina Euclides da Cunha, ensinou o Brasil ao Brasil. Talvez seja este o lugar onde o Brasil encontre um dia aquilo a que Max Scheler chamava o posto do homem no cosmos. Pois em nenhuma parte do mundo o ser humano é capaz como aqui, de alcançar a medula do conhecimento das coisas, pelo milagre e pela mágica da intuição…”
(Trechos do discurso na Universidade Federal do Ceará, ao receber o grau de Doutor Honoris Causa, em 25 de maio de 1993).
Antes que eu transcreva outros poemas de Mello Mourão, leia esta entrevista deliciosa.
Em outra ocasião, pretendo transcrever outros poemas deste brasileiro que nos legou tanta poesia, que tão bem navegou a língua de Camões com maestria e que deixou como inventário a nós pobres mortais e admiradores da poesia:
– o rio desta língua
em sílabas de vinho e mel – e sua graça
de trovar ao sol e à lua e ferir
nas mesmas cordas da lira e da viola
matina e serenata:
a língua nossa
boa de cantar no mesmo tom amor e morte.
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