Onde se juntam Heráclito, Vicente Ferreira da Silva. Somerset Maugham e a emoção de conhecer o rio Yangtzé, na China.
*Obs.: aos que tem impaciência ou não conseguem ler o texto na imagem do jornal, vejam abaixo o texto completo formato normal.

A vida flui
Por Adalberto de Queiroz, para O POPULAR, Goiânia (GO)
Desde Heráclito, na antiga Grécia, o rio tem um valor inestimável e nos lega a ideia de que no mundo “tudo flui”. Este “enigma insolúvel” nos acompanha quando estamos próximos ou distantes do rio, e nos lembra que não se pode banhar jamais no mesmo rio, pois que este flui assim como a vida. A água nunca é a mesma e nós tampouco o somos, porque mudamos como pessoas.
Tudo flui, afirma o filósofo Vicente Ferreira da Silva porque “existir é coexistir e uma só coisa é em nós o vivo e o morto, o desperto e o adormecido, o jovem e o velho; unicamente que ao inverter-se umas resultam as outras e, ao inverter-se estas, resultam aquelas. E todas as ilhas do ser são dissolvidas no rio ilimitado do vir a ser”.
Eu tenho minhas visões e essas me valem em todos os momentos, desde a infância de miséria e abandono até o destino atual, que, além dos cabelos brancos, me proporcionou a alegria de viajar, conhecer lugares distantes, outros povos e, agora, conhecer o rio Yangtzé na China, no seu estuário em Wuhan.
Ora, sabe-se que nada é gratuito quando trabalhamos com os quadros mentais para realizar destinos. E a história do maior rio do Império do Meio está presente em descobertas anteriores que fiz lendo romances e assistindo filmes.
Aprendemos a admirar a beleza desse grande rio em imagens no filme “O véu pintado”, baseado no romance homônimo de Somerset Maugham, mas como não se emocionar à margem do rio ou não se encantar, ao observá-lo de uma altura da qual vislumbramos o seu estuário naquela cidade chinesa?
Houve um momento em que minha mulher e eu estivemos num andar mais alto e com visão para o rio num fim de tarde. Nenhuma câmera de iPhone poderia captar melhor as luzes, cores e movimentos – só mesmo nossas retinas cansadas e ainda ávidas de ver o mundo.
Nunca esquecerei as lágrimas de minha mulher diante da beleza incomum desse cenário. Eram lágrimas de alegria contida, como é toda ela, afinal.
A poesia do momento se concretizava no seu rosto, à margem do maior rio da China, e materializavam a felicidade com aquela viagem única ao Extremo Oriente, com segredos que uma mulher sempre guarda só para si mesma.
Não havia lugar para tristeza nem tampouco era o caso de pensar como o poeta bíblico, no Salmo 136, quando ele relembra o exílio do seu povo na Babilônia: “Às margens dos rios de Babilônia, nos assentávamos chorando, lembrando-nos de Sião.”
Pensei nos rios do meu passado, a começar pelo São Francisco que atravessei ainda menino, vindo de Pernambuco para Goiás; no Ribeirão das Antas, no Araguaia, no Meia Ponte e nosso “pobrecito córrego Botafogo” – todos esses cursos d´água que fazem parte do meu acervo de memórias dos rios.
Assim, para a alegria a minha alma se voltou. Confirmei que do fluidismo absoluto é que a Sabedoria pode arrancar à Poesia a melhor forma de redescobrir o que fomos, vislumbrar o que desejamos ser, assistindo à passagem do tempo com o acervo das velhas emoções e do que pode vir-a-ser.
Sentados à margem do Yangtzé, um sentimento de profunda gratidão nos invadia, por tudo que nos foi reservado nessa última etapa da vida, onde tudo flui como os rios e o tempo.
Ao escrever esta crônica, eu descortinava a visão calma do lago Paranoá ao cair da tarde. Veio-me à mente o poeta alemão J. W. Goethe, no poema No Lago (Auf dem See), cujo trecho da tradução de Paulo Quintela, deixo com você, leitor:
“Olhos, meus olhos, por que vos baixais?
Sonhos dourados, de novo voltais?
Por mais dourado, vai-te, sonho que eu já tive!
Também há amor aqui, também se vive.”
No lago ou no rio, de olhos abertos pode-se ver (vislumbrar) o fruto a amadurecer.

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