Crônica publicada no Jornal O Popular de Goiânia, em 17/06/2024.

Memorabilia: objetos (*coisas no sentido de Byung-Chul Han), momentos dignos de serem lembrados ou aqueles que estão guardados na memória.

O coração da casa
Por Adalberto de Queiroz, especial para O POPULAR

Aquele foi um tempo de mudança. O ditado popular “quem casa, quer casa” valeu pra nós ao nos mudarmos para a cidade em que eu e Helenir começaríamos a nossa vida a dois; e isso ainda ecoa hoje na nossa memória.

A viagem foi um capítulo diferente de qualquer roadtrip que empreendi ao longo desses meus 69 anos. Findava o ano de 1975 quando pegamos a estrada para o Sul, no nosso Ford Corcel usado, mas bem conservado.

Motorista inexperiente que eu era, passei dificuldades na estrada, sofrendo a pressão dos caminhões muito velozes nas descidas das serras que enfrentamos. Numa dessas, lembro-me de ouvir uma buzina muito forte e constante, vinda de uma carreta enorme e com dificuldade para frear. Foi um susto tão grande que precisei voltar ao acostamento para me acalmar antes de retomar a estrada.

Em Curitiba, um vendedor de ameixas nos encantou com as frutas fresquinhas e incomuns em Goiás. Comprei toda a sacola e fomos comendo uma a uma ao longo da jornada, sem ter noção da sua função medicinal, até que uma forte cólica nos forçou a fazer uma parada obrigatória antes de retomar a viagem.

Chegamos a Porto Alegre à noite e com pouco dinheiro no bolso e na conta. Depois de muita procura, nos hospedamos na primeira pensão que podíamos pagar. Era uma acomodação humilde em uma região perigosa, próxima ao cais do porto. No dia seguinte, bem cedo, saí para ter certeza de que o nosso Corcel 73 ainda estava à frente da pensão e que nossos poucos pertences não haviam sido surrupiados.

Conseguimos os móveis de um minúsculo apartamento numa troca por dois bilhetes aéreos. A primeira casa era uma kitchenette de 26 metros quadrados, contrato transferido a nós pelo colega pernambucano a quem eu vim a substituir como escrivão da Polícia Federal. O banheiro era tão pequeno que para secar o piso usávamos um rodinho de para-brisas, desses que os “flanelinhas” usam nos sinaleiros. Mas estávamos numa alegria só com nossa primeira casa. Só nossa.

Hoje, fazendo um balanço da mudança, lembro de como respiramos felizes o ar da cidade e de nossa nova condição – tínhamos uma casa e nossas próprias coisas num espaço aconchegante. O cotidiano era áspero. Helenir trabalhava toda a noite e estudava Engenharia durante o dia, enquanto eu me dividia entre o curso de Física e o trabalho, vivendo dias infindáveis de uma rotina que me causava enorme desconforto.

Não aguentei por muito tempo o cargo de escrivão, apesar de saber que dali vinha a renda suficiente para o nosso sustento e da família de minha mulher, que perdera o pai poucos meses antes de nosso casamento.

À noite encontrava minha salvação de um cotidiano burocrático. Eu me alternava entre a biblioteca pública e o encontro com os amigos de leitura e escrita, que se reuniam no Clube de Cultura do bairro do Bom Fim.

Devo ao grupo minha primeira participação na antologia “Qorpo Insano” com poemas juvenis que mereciam ser destruídos. Merecem ficar apenas as boas recordações da convivência com grandes escritores: Caio Fernando Abreu, Moacir Scliar, Josué Guimarães e Dyonélio Machado, este já bem idoso me recebia sempre com muita gentileza e me legou alguns livros autografados que guardo com muito carinho.

Em todos os ritos que cumpri até tornar-me a pessoa que sou – “um menino no corpo do velho de agora”, vejo que a casa e o sentido de lar nos deram a resiliência para enfrentar desafios, aceitar o que não pode ser mudado e força para seguir adiante. Antoine de Saint-Exupéry, no romance “Cidadela”, me deu a chave para entender os ritos, quando disse:

Os ritos são no tempo o que o lar é no espaço. O sentido das coisas muda conforme o sentido das casas e toda casa, seja ela qual for, deve ter um coração”.

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Uma resposta para “Memorabilia: objetos e momentos dignos de lembrança”.

  1. Avatar de Nelsinho

    O seu “Coração da Casa” buliu com meu coração, porque foi em Porto Alegre que enfrentei um doloroso reinício, nos idos de 1975! Obrigado pela crônica!

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