De um caderno de memórias, a 51a. crônica publicada no Jornal O Popular, de Goiânia (GO), onde o cronista se lembra de sua mudança de Anápolis para a Capital goiana

Cabeça raspada e coração disparado
Por Adalberto de Queiroz, especial para O POPULAR.

Alá, Goiânia! Repeti, mentalmente, quando o ônibus fez a famosa curva que descortina a nossa Capital. A frase repetida dezenas de vezes na kombi com nosso pai adotivo ao enxergar a cidade, dessa vez soava diferente porque ia em busca do meu futuro – só, diante da incógnita, sem mentores ou genitores que me orientassem.

Hoje, nestes meus precários “fragmentos de uma grande confissão”, vejo surgir leitores de todas as idades, profissões e crenças que me enviam mensagens sobre experiências similares por eles vividas e até mesmo com reprovação pelo excesso de citações a escritores.

Minhas andanças pelo mundo começaram pela chegada a Goiânia, apesar da memória precária, que fontes não tem a quem recorrer para tirar dúvidas e validar a veracidade dos fatos cujos detalhes perdem a importância num caderno de lembranças.

Aprovado no vestibular de Física da UFG em 1973 e com 18 anos incompletos, vê-se o adolescente só diante do mundo – a tal grande realidade fora do Abrigo, sonhando estudar na Universidade Federal, paquerar todas as moças disponíveis e, principalmente, conseguir uma profissão. Morando de favor na casa de um amigo, estava distante dois ônibus e uma soneca das atividades acadêmicas na Praça Universitária. Mas logo aprendi os meandros de onde e quando pegar o ônibus certo para cumprir meus compromissos.

Cabeça raspada e o coração disparado, o jovem calouro de Física corre de um canto para outro, obtém carteira de trabalho, alista-se no Exército e, após a dispensa militar por insuficiência física, começa a procurar emprego. Consegui um trabalho temporário de meio expediente na Radibra, uma loja de consertos de eletrônicos no bairro Popular.

Na Universidade, vivíamos uma situação provisória, porque nossa turma da Física ´73 deveria ir direto para as instalações do Campus II, mas por uma circunstância qualquer nos vimos instalados no prédio do Direito na praça, fazendo uma “recuperação” em Matemática e Física. Ali conheci um dos meus monitores mais instruídos, o Tonhão, que me ensinou tanto princípios da Física, como modos de driblar os transtornos da recuperação e do início tumultuado na cidade já grande.

Sem mesada ou fontes extras de recursos, tratei logo de conseguir emprego melhor: fui ser professor de Matemática e Física no Ronepe – um colégio em Campinas. Em seguida, consegui uma vaga na Casa do Estudante Universitário, onde passei a morar a poucos metros do ponto de ônibus para o Campus II e a um passo do paraíso nos fins de semana – o bar do Chafariz, por onde desfilava a juventude goianiense e onde, no ano seguinte, eu estaria degustando um Campari na companhia da minha namorada.

Ela vivia rodeada de rapazes pois era uma das poucas meninas das ciências exatas e a única do curso de Engenharia Elétrica. Foi numa aula de Cálculo que a conheci, mas foi no ponto de ônibus que a conquistei ao falar da Comédia Humana de Balzac, numa prova de que a literatura sempre teve papel relevante na minha vida.

Sem nenhuma paráfrase musical, numa noite de São João começamos a namorar.

Essa história de quase meio século foi embalada ao som de músicas copiadas em fitas K7 dos Beatles, Pink Floyd, The Moody Blues e do meloso Johnny Mathis.

Nossa juventude era ocupada com estudos, luta pelo dinheiro minguado, às vezes um filme europeu no Cine Rio. A soma de tudo deixava pouco espaço para enxergar o que se passava lá fora: um país dividido, sob a violência da guerrilha e da repressão, e sob o comando dos militares.

Na cena, vista de hoje, percebo que eu não tinha consciência de que começava ali, em Goiânia, a grande aventura da minha vida de adulto, ao tomar uma rota definida rumo a uma jornada de altos e baixos, e que ali mesmo se esboçava boa parte do meu futuro.

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