
A invenção do cais
Por Adalberto de Queiroz, especial para O POPULAR (Goiânia)
Quando cruzei a floresta de eucaliptos ao atravessar a rua e deixar o Abrigo, não sabia o que estava por acontecer, só me animava o fato de que iria ser o mais jovem entre os adultos, o mais moço entre os moços que se preparavam para a carreira de pastor evangélico. É como se o menino não tivesse visto passar o tempo da escola dominical, mas continua se lembrando dos flanelógrafos e das professoras que ensinavam de maneira didática (e leve) as parábolas e a vida do Cristo.
Era como se quase não guardasse memória da liga juvenil, onde participou ativamente, cantando com a alegria os “corinhos”, aqueles cantos animados para crianças e adolescentes entre os protestantes dos anos 1960 e 70. Convivia com fé ao lado de irmãs e irmãos adotivos mais musicais e era responsável pelas leituras bíblicas e até ousava algumas explanações da Palavra.
Da mocidade, não participaria, porque fui estudar teologia, o que não durou muito, tendo sido apenas um passo que o menino dera para se tornar adolescente. A consciência logo me alertou que meu chamado era outro, não me sentia vocacionado à vida sacerdotal. Queria estudar Física e seguir carreira de pesquisador, após o entusiasmo que me causou ler a vida da pesquisadora franco-polonesa Marie Curie por sugestão de minha mãe adotiva, Dona Modesta.
Mais tarde, ouvindo apaixonado as músicas de Milton Nascimento, descubro razões para partir em busca do futuro incógnito, o porquê de ter optado pelas ciências exatas, e delas desistir anos depois…No ano em que me preparava para o Vestibular na Federal de Goiás, eu repetia com entusiasmo a letra de uma música dele que, a certa altura, me trazia respostas sobre o desconhecido: “Eu queria ser feliz/Invento o mar/Invento em mim o sonhador”.
Sonhador, continuava o adolescente que se preparava para o vestibular com o professor Edésio, no Cosmorama, cursinho preparatório de Anápolis, morando de favor na casa do Milson, primo em segundo grau. E dali lançava seu olhar, com pouca segurança, para o futuro incerto. O sonho o carregava e ele firmava estatuto de que o conselho de Milton era viável: “para quem quer se soltar/invento o cais…” Estudar era inventar o cais daquela hora vital.
O menino já não usa calças curtas quando cruza o campo de eucaliptos, e o cabelo não era mais cortado “à escovinha” como o padre Júlio Maria das memórias de Murilo Mendes e da minha realidade de quando era pequeno – ao contrário, seguindo os moldes da época, usava cabelos longos como o do ídolo da Jovem Guarda, o rei Roberto Carlos.
Curta era a autoestima e, por isso, sem ter pai, mãe ou irmão a quem recorrer, buscava auxílio transcendente – rezava e rezava, muitas vezes aquela prece silenciosa que tão bons efeitos traz à alma do menino no corpo do velho de agora.
A ida para Goiânia após o êxito no vestibular de 1973 descortina horizontes imensos para alguém que tinha na Vila Jaiara a referência de “o lugar lá fora” e para quem a maior distância era ter percorrido sozinho a viagem até Taguatinga, subúrbio de Brasília, onde passava as férias com os primos, filhos dos tios Adalberto e Luzia. Ah, Goiânia, agora só e com o direito a exercer toda a liberdade! Goiânia, dos grandes cartazes em neon nos prédios altos, da Crush e dos pastéis, da primeira cerveja e o primeiro Campari; Goiânia da praça Universitária. Goiânia, a cidade do (Ó)cio de José Mendonça Teles. O adolescente diante de um arsenal de aventuras possível, solfejava ao som de Milton:
“Cantar era buscar o caminho
Que vai dar no sol
Tenho comigo as lembranças do que eu era…”

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