Veja o texto original (e completo) abaixo da figura do jornal O POPULAR.

Sabe o benévolo leitor que o auge do meu dia a dia no Abrigo, naquela época, eram os fins de tarde, quando, depois do banho e de tomar nossa sopa cotidiana, eu já adolescente ficava postado em frente ao arco de entrada do prédio principal, observando o pôr do sol e as revoadas de periquitos na matinha de eucaliptos do outro lado da rua. Ali era o caminho que dava acesso às terras dos missionários americanos, lugar de passagem e de ritos importantes em minha caminhada futura.
Tudo começa naquela fase pela obtenção de alguns direitos que só “os grandes” possuíam: sair sozinho ou em companhia de um irmão mais velho, no meu caso, com a minha irmã adotiva predileta – a Laíde, a mesma do acordeon e sua inesquecível interpretação de “Saudades do Matão” [por favor, revisor, deixar o termo em francês, mesmo incorrendo em um galicismo, pois foi assim que o incorporei ao meu poema e ao meu léxico].
Percorrendo aquele caminho por entre os eucaliptos, minha irmã e eu alcançávamos em menos de um alqueire as terras do Colégio Couto Magalhães e, sozinho, com mais meio alqueire, estaria frente à porta da casa do missionário Reverendo Archibald e sua esposa Dona Mildred, onde estava a um passo de um copo de leite gelado com bolo de chocolate, servido com afeto e conversação sempre agradável, onde sobressaía o paternal tratamento que eu recebia do chefe da casa.
Carrego comigo valiosas reminiscências daquele momento em que poderia ter aprendido inglês diretamente da fonte com falantes nativos, mas eis um feito que não fui capaz de realizar à época. Depois, segui frequentando as escolas de inglês, primeiramente no Yázigi cuja primeira lição ainda guardo de cor: “Doctor Thomas Baker, an American architect, his wife Susan and their two children have just arrived at Galeao International Airport…”
Ali estava o menino à beira de se tornar um rapazinho desejoso de saber mais sobre “o mundo lá-fora”, sobre tudo o que havia para além do bosque de eucaliptos. Que eventos lhe estariam reservados para o depois da epifania do pôr do sol e seus periquitos tagarelas?
Relendo o extraordinário escritor norte-americano Cormac McCarthy (1933-2023) anotei uma frase de grande sabedoria sobre o que aquele período pôde ter sido e o que é para todo menino: “era bom que Deus escondesse as verdades da vida dos garotos quando começavam a vida senão eles não teriam coragem sequer de começar.”
Foram inúmeras dificuldades, sim, o que encontrei à frente, mas nada me impediu que eu desse partida à vida de adolescente e depois de jovem adulto; nada me desanimou de enfrentar os desafios que me fortaleceram para chegar a esta quadra da existência de sexagenário. Hoje considero aqueles inolvidáveis fins de tarde eventos históricos na vida privada de um menino que sentia na pele a passagem da infância à adolescência – tudo parecia, como aprendi mais tarde em Mircea Eliade, camuflar significados de ordem espiritual e revelar uma nova dimensão existencial – quem sabe, uma onírica experiência da liberdade absoluta.

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