Um soneto escrito em 15 minutos permanece vivo há dois séculos

SIM, quinze minutos teria sido o tempo que levou Keats para escrever um soneto que é hoje um clássico. Isso é que nos conta Péricles Eugênio da Silva Ramos sobre este soneto abaixo, traduzido pelo próprio autor da introdução ao volume de Poemas do inglês KEATS e cujo original vai abaixo transcrito, após a tradução.

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O original do poema “On the Grasshoper and Cricket” teria sido escrito por John Keats em uma competição havida na casa do poeta, ensaísta e jornalista Leigh Hunt. Este – um dos poucos amigos que Keats fez no mundo da literatura inglesa – teria proposto o tema “o canto do grilo” e se considerado batido pelo amigo Keats. O hoje famoso “O Gafanhoto e o Grilo” não foi o único poema gerado em competição.

Há, segundo Péricles Eugênio, também o famoso soneto “To the Nile” (Ao Nilo), em que este teria aparentemente superado Shelley, em 1818 – mas onde quem teria saído vitorioso fora o amigo jornalista-poeta (Hunt).

A tradução de Péricle Eugênio de “Sobre o Gafanhoto e o Grilo”

Original de “On the Grasshoper and Cricket”

***********por John Keats.

A poesia da terra nunca, nunca morre:
Quando ao vigor do sol languesce a passarada
E se abriga nas ramas, um zizio corre
De sebe em sebe, em torno à várzea já ceifada;

É o gafanhoto, que a assumir o mando acorre
No fausto do verão; e nunca dá parada
Ao seu prazer, pois de erva amável se socorre
Para descanso, ao fim de sua alegre zoada.

A poesia da terra nunca se termina:
Do inverno em noite só, quando com a geada cresce
O silêncio, do fogão se ergue de repente

O zinido do grilo, sempre mais ardente,
E para alguém zonzo de sono ele parece
O gafanhoto em meio à relva da colina.

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ORIGINAL do poema
“On the Grasshopper and Cricket”

The Poetry of earth is never dead:
  When all the birds are faint with the hot sun,
  And hide in cooling trees, a voice will run
From hedge to hedge about the new-mown mead;
That is the Grasshopper’s—he takes the lead
  In summer luxury,—he has never done
  With his delights; for when tired out with fun
He rests at ease beneath some pleasant weed.
The poetry of earth is ceasing never:
  On a lone winter evening, when the frost
    Has wrought a silence, from the stove there shrills
The Cricket’s song, in warmth increasing ever,
  And seems to one in drowsiness half lost,
    The Grasshopper’s among some grassy hills.
Source: 1884. Fonte: Poetryfoundation.org 
++++
Fonte: KEATS, John. Poemas de John Keats, trad. introdução e notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos. – São Paulo : Art Ed., 1985, p.71. [O livro citado foi premiado com o Jabuti 1986 da Câmara Brasileira do Livro].

louis_edouard_fournier_-_the_funeral_of_shelley_-_google_art_projectSobre Leigh Hunt (1784-1859). Autor de “The story of Rimini” (1816) era amigo de Keats, Byron e de Shelley, bem como de Hazlitt e Lamb. Teria sido “o homem de letras mais importante de que Keats cultivou a amizade…” diz-nos Péricles Eugênio, embora ressalte que respeitando Shelley, “dele Keats não se aproximou para preservar sua prória individualidade. Ou talvez porque a nobreza de Shelley não o atraísse. Extrema ironia do destino dos poetas, Shelley afoga-se tendo nos bolsos dois livros – um destes era o último livro de John Keats…

“John Keats aliás não se achegou a nenhum dos grandes poetas de seu tempo, como Wordsworth ou Coleridge, os quais veio a conhecer, admirando o primeiro, apesar de certas divergências (julgava sua poesia egotista, diretriz que não era a dele) e também o segundo, com o qual veio a ter mais tarde uma palestra proveitosa, segundo parece, e ao qual deu a impressão de que já trazia a morte nas mãos.” – afirma Péricles Eugênio na introdução ao volume de Poemas.

Hunt aparece no quadro de Fournier (fig. acima) como aquele que não observa a cremação. Shelley se afogou durante o naufrágio do barco em que insistira em tomar, apesar do mau tempo. Era o dia 8 de julho de 1822, e o poeta iria de Pisa para Livorno. O poeta teria sido aconselhado a esperar mais um dia para sair em seu barco, devido ao mau tempo. Mesmo assim partiu, e o barco se perdeu na tempestade. Morreram Shelley, Edward Williams e o grumete Charles Vivien.[7] Após algum tempo, o mar devolveu os corpos. Percy foi encontrado na praia perto da Via Reggio, tendo no bolso uma edição de Sófocles e o último volume de Keats.

O poeta e “La belle dame” (1)

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Alain Chartier (circa 1380-1433).

Alain CHARTIER , poeta e diplomata francês do séc. XV, foi também um orador célebre – considerado “o Sêneca Francês”. Dele sabemos ter nascido em Bayeux, cerca de 1380. Viveu, pois, no séc. XV – portanto, no chamado outono da Idade Média e madrugada do Renascimento. Teria o poeta sido beijado (enquanto dormia). Margaret da Escócia ? Teria conhecido o primeiro lírico da França e seu contemporâneo François Villon? essas e outras questões nascem da observação do quadro pintado por Edmund-Blair “Alain-Chartier-and-Margaret-of-Scotland” (foto 1).

Chartier viveu no séc. XV – portanto, no chamado outono da Idade Média e madrugada do Renascimento – época que o mestre Segismundo Spina diz viver  “ainda o Primado Italiano” (na obra-prima “A cultura literária medieval”, de 1997).

Já com mais precisão, acentua a sisuda Britannica que, em 1417, como secretário do rei Carlos VI, em virtude da invasão inglesa em França, e pela reação “bourguignonne” ao reinado (Borgonha), segue com a Corte para a Alta Normandia, e continua seu ofício de escritor no estilo dos poemas corteses da época. Em 1422, os males políticos de sua pátria, levam-no a escrever “O Quadrílogo” (Le Quadrilogue) sob forte influência de Sêneca e da oratória Latina antiga. Por sua técnica e estilo, Alain Chartier será conhecido em França como “O Pai da Eloquência“.
Alain Chartier morre por volta de 1449.

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Foto 1. Chartier e Margareth da Escócia*.

Chartier, se perguntado em um balanço final: “o que fizeste de tua vida?” – teria muito a responder.  Não sabemos ao certo, contudo, se Margaret da Escócia teria mesmo beijado o poeta enquanto dormia. Seria mais assunto para colunas sociais e não para a história da literatura francesa. Sabemos que o poeta-diplomata lá esteve para negociar o casamento desta com o futuro Luís XI.

Provavelmente, Chartier viu (santa) Joana D’Arc ser queimada viva (1431). Da santinha camponesa (santa, sim, para os católicos simples e o polemista Bernanos, não para o pessoal da Igreja e os combatentes que a traíram, entregando-a aos ingleses). Georges Bernanos que nos legou “Joana, relapsa e Santa” como o modelo da infância e da coragem dos que crêem – afinal “o coração do mundo está sempre batendo…A infância é esse coração”). Dela mesma, a “santa relapsa” teria dito o poeta Chartier:

Deixe Tróia celebrar Heitor, deixe a Grécia orgulhar-se de Alexandre, a África, de Aníbal, a Itália, de César e de todos os generais romanos. A França, embora conte com muitos destes, pode bem contentar-se apenas com sua donzela” – (Alain Chartier).

Teria Chartier copiado outro poeta ? Teria sido Baudet Herenc o verdadeiro autor da Balada original (como deixa crer um certo Piaget)?

Teria o poeta visto (e lido) o ‘baladeiro‘-mor  de sua época, Monsieur François Villon? –  ele Villon que se desgarrou de seus confrades da épcoa para o panteão da Literatura Francesa com “o maior lírico da Idade Média”?

– São perguntas que nos fazemos os que amamos a idade Média, quando pagamos o preço da honestidade intelectual e não, simplesmente, compramos a balela jornalística de que teria sido uma época de trevas  – mentira difundida à exaustão de se transformar em verdade, após a revolução Francesa e repetida hoje por neo-ateístas que se consagram como medievalistas – argh!

O ingresso na cultura medieval, em especial a literária – ressalta o mestre Spina – “não se faz sem pagarmos um pesado tributo; a compreensão dos valores dessa época exige do estudioso uma perspectiva ecumênica, pois as grandes criações do espírito medieval – na arte, na literatura, na filosofia – são frutos de uma coletividade que ultrapassa fronteiras nacionais. E uma visão de conjunto só se adquire depois de muitos anos de trato e intimidade.” (Segismundo Spina).

A Balada dos Enforcados (La Ballade des Pendus) é publicada em 1462. Está definitivamente no cânone da poesia e da história de França. E, Chartier, oh, pobre poeta menor, nem sequer, no meu tempo de Alliance Française, citado pelo guia de Thoraval (Jean) – Les Grandes Etapes de la Civilization Française. Dommage.

Por uma dessas coincidências literárias, no entanto, Chartier desperta diante do olhar deste sexagenário com tão grata e forte referência, a partir de um inglês – um talentoso poeta morto precocemente aos 26 anos de idade – John Keats (oops! havia escrito Jean!) que reinventa a balada, mesmo sendo conhecido mais por sua Odes… isso já é bem outra estória.

Para ler John Keats que em Chartier se inspirou, veja poema transcrito abaixo e recorra a dois bons sites de traduções de Keats em português: Escamandro e J. Keats on Tublr.

Voltemos às baladas. Primeiro a beleza do manuscrito. Só isso valeria ao bibliófilo a pesquisa mas há mais. Ainda estou à procura de uma tradução do longo poema de Chartier para o português.

Por segundo, e não menos importante, porque o original de Chartier é a inspiração para o poeta inglês, ressalta a Biblioteca de Chetham que é um manuscrito está em distintivo e formosamente executada por mão ‘bastarda’, criação típica das produções literárias francesas do século XV, e é indubitavelmente o resultado de uma comissão de um mecenas rico, com bom pergaminho, margens largas e colorido que ilumina a decoração.

Foto 2. Manuscrito do poema de Chartier, Chetham Library.

 

 

 

 

 

 

 

 

(c)Fotos:  1 – Encyclopædia Britannica Online. Web. 26 Dec. 2015. (Alain-Chartier-and-Margaret-of-Scotland-painting-by-Edmund-Blair).
Foto 2 – manuscrito do poema de A. Chartier do website da Chethams Library UK.


 

La Belle Dame sans Merci: A Ballad

By John Keats

O what can ail thee, knight-at-arms,
       Alone and palely loitering?
The sedge has withered from the lake,
       And no birds sing.
O what can ail thee, knight-at-arms,
       So haggard and so woe-begone?
The squirrel’s granary is full,
       And the harvest’s done.
I see a lily on thy brow,
       With anguish moist and fever-dew,
And on thy cheeks a fading rose
       Fast withereth too.
I met a lady in the meads,
       Full beautiful—a faery’s child,
Her hair was long, her foot was light,
       And her eyes were wild.
I made a garland for her head,
       And bracelets too, and fragrant zone;
She looked at me as she did love,
       And made sweet moan
I set her on my pacing steed,
       And nothing else saw all day long,
For sidelong would she bend, and sing
       A faery’s song.
She found me roots of relish sweet,
       And honey wild, and manna-dew,
And sure in language strange she said—
       ‘I love thee true’.
She took me to her Elfin grot,
       And there she wept and sighed full sore,
And there I shut her wild wild eyes
       With kisses four.
And there she lullèd me asleep,
       And there I dreamed—Ah! woe betide!—
The latest dream I ever dreamt
       On the cold hill side.
I saw pale kings and princes too,
       Pale warriors, death-pale were they all;
They cried—‘La Belle Dame sans Merci
       Thee hath in thrall!’
I saw their starved lips in the gloam,
       With horrid warning gapèd wide,
And I awoke and found me here,
       On the cold hill’s side.
And this is why I sojourn here,
       Alone and palely loitering,
Though the sedge is withered from the lake,
       And no birds sing.

NOTES: POL participants and judges: in this poem’s third-to-last stanza, recitations that include “Hath thee in thrall!” or “Thee hath in thrall!” are both acceptable.

*****

Fonte para J. Keats: Selected Poems (Penguin Classics, 1988).

 

 

 

T.S.Eliot (4) com Ivan Junqueira, poeta e tradutor

IVAN JUNQUEIRA e T.S. ELIOT ou:

Como um devoto quebra o altar onde  sua poesia é incensada

e, ainda assim, se torna o maior criador da poesia inglesa?

Eliot-Meia_Idade_thumb.jpg
 legenda

 

T.S. Eliot (1888-1965)

 

 

 


– Essa a pergunta que o poeta e crítico literário Ivan Junqueira tenta responder num ensaio belíssimo (lembrando que a palavra ensaio tem também o sentido da “tentativa“) – que é uma aula para compreender um poeta considerado enigmático e difícil, erudito e fragmentário.

Por entender que esta pergunta e suas múltiplas respostas tem em Junqueira um bom ponto de parte é que repercuto o ensaio neste e em outros dois posts.

Sob o título “Eliot e a Poética do Fragmento”, Ivan Junqueira
traça com seu estilo inconfundível uma visão da erudição de Eliot e a representação do que ele chama de “fragmentação” e citação – um debruçar-se sobre as janelas da tradição (poético-literária) e reinventá-la, respeitando-a e recriando-a como um poeta inovador – o poeta par excellence do séc.XX.

Leia mais

O Exílio de T.S. ElioT (1)

Caros amigos do blog:
Capa de TSEliot_Russell KirkT.S. ELIOT é o tema do tijolaço do Russel Kirk, intitulado “A Era de T.S. Eliot: a Imaginação Moral do séc. XX – da É Editora, SP, 2011, 655 páginas).
Entre uma e outra parte dos posts que pretendo dedicar à Escola de Frankfurt, permitam-me algumas anotações sobre ELIOT.
A primeira diz respeito ao capítulo 2, seção “O Exílio”.
Na primavera de 1914, Eliot partiu para descobrir “a diversidade européia”, que Kirk atribui ter-lhe sido comunicada por Santayanna, isto é, a partir da “limitação da Inglaterra”.
Eliot havia feito uma pós-graduação em Harvard (veja cronologia na obs. #1), onde fora aluno de Bertrand Russel, Irving Babbit e George Santayana – estes dois últimos os que mais o influenciaram, diz Kirk.

Depois, passara uma temporada em Paris e deixando para trás uma tese em andamento – só finalizada anos depois, de um doutorado do qual o poeta jamais sequer foi buscar o título…
”E assim, Eliot se dirigiu à bela e antiga Marburg, na primavera de 1914. Então, sem perceber o Velho Mundo o solicitava.” (pág. 172).

A estada em Marburg não permite a Eliot sequer desfazer a mala que o amigo Aiken lhe despachara, porque os acontecimentos de Saraievo colocaram os norte-americanos, às pressas, para fora do continente – diz Russell Kirk.

Na seção “O Exílio”, Russell Kirk mostra as dificuldades por que passou o poeta. Se, como queria Aiken, o incidente da partida de Marburg para a Inglaterra “provaria ser decisivo” é na Inglaterra que Eliot vai comer a “comida detestável dos britânicos” e respirar uma atmosfera de dificuldades financeiras (e diria até emocionais); porém, é na Inglaterra que “permaneceria a explorar e consolidar o novo terreno cultural, iniciando o laborioso trabalho de demarcar aquilo que lá seria o seu domínio” (Aiken, apud R. Kirk, pág. 173, citando carta da mãe do poeta – Charlotte C. Eliot a Bertrand Russell).

Em outubro de 1914, Eliot encontra-se por acaso com Bertrand Russel, que regressava de Harvard. O filósofo ex-professor – considerado por R. Kirk como “filósofo matemático iconoclasta” adota o poeta “solitário jovem norte-americano”, e diria: “duro”. Eliot vai morar,com a sua jovem esposa (Vivienne Haigh-Wood) de favor num quarto da casa de Bertrand Russel.

Os anos de dificuldade financeira levaram o poeta – que não desejava carreira acadêmica como professor universitário. E, ao contrário, foi professor assistente em escolas secundárias – como a Highgate Junior School – “um lugar adverso”, segundo um ex-aluno de Eliot; além de ministrar cursos de literatura para Adultos no Conselho do Condado de Londres.

R. Kirk assinala que o “professor-poeta ensinou francês, latim, matemática elementar, desenho, natação, geografia, história e besebol…”. Depois, ELIOT vai trabalhar no Lloyd’s Bank, no centro financeiro de Londres, onde passou a residir, tornou-se súdito britânico, tendo voltado raramente aos EUA, sendo a primeira vez 17 anos depois de ter deixado a pós-graduação em Harvard.
“…O intelectual norte-americano, hoje, quase não tem oportunidade de se desenvolver em seu país (…) deve ser um exilado”, disse T.S. Eliot em 1920. E mais: “era melhor ser um expatriado em Londres” – mesmo com a sua “detestável comida” – do que em Nova York, “a pior forma de exílio da vida norte-americana”, declarou Eliot (pág. 175).

Sobre a sua experiência como professor, ELIOT deixou frase lapidar que transcrevo em slide, justamente agora que a presidente da República “ameaça” aumentar salários dos professores, mas aguarda o melhor momento deste ano eleitoral…
T.S.Eliot cit.1
© Eliot em “To Criticize the Critic”, 1965, pág. 101 – via Google Books.

Trecho da citação acima, na tradução de Márcia Xavier de Brito:

“Sei com base na experiência que trabalhar em um banco das 9h15 às 17h30, e um sábado inteiro a cada quatro semanas, com duas semanas de férias ao longo do ano, era um descanso reparador se comparado a dar aulas em uma escola.”


(#1) A cronologia dos anos dos estudos formais do poeta Eliot é a seguinte:
Eliot Meia_Idade1906-1909 – Faz o “College” (faculdade) de Harvard, onde obtém o título de Bacharel;
1909-1910 (outonos) – Pós-Graduação em Harvard, onde obtém o grau de Mestre;
out/1910-jul/1911 – Estuda Literatura Francesa e Filosofia na Sorbonne em Paris;
Verão de 1911 – Munique (?)
1911-1913 – Harvard Graduate School – Estudos e Filosofias Hinduístas;
1913-1914 – Professor-Assistente de Filosofia em Harvard.
1914 – bolsista para Universidade em Marburg, Alemanha
(verão 14). “O Exílio” é seção do livro que se ocupa do tempo Eliotiano na Inglaterra.
(*) “Embora tivesse completado a dissertação sobre Francis Herbert Bradley em 1916, Eliot nunca requereu o título de doutor por Harvard nem buscou uma colocação profissional na Universidade” (Nota #36, pág. 168).
OBS.: A frase destacada na tradução de Márcia X. de Brito é o melhor trecho da citação de R. Kirk, mas há uma antecedente no slide que montei acima (pág.101 da obra citada), que é genial também, confira – tradução minha, portanto, sujeita a erros (aceito correções, s.v.p.):
(…) antes de preocuparmos em (contratar e) treinar mais professores, prefiro perguntar se estamos remunerando-os adequadamente. Eu nunca trabalhei numa mina de carvão, ou de urânio, nem como pescador de arenque, mas eu sei por experiência própria que, trabalhando num banco…” etc.

O Exílio de T.S. ElioT (1)

Caros amigos do blog:
Capa de TSEliot_Russell KirkT.S. ELIOT é o tema do tijolaço do Russel Kirk, intitulado “A Era de T.S. Eliot: a Imaginação Moral do séc. XX – da É Editora, SP, 2011, 655 páginas).
Entre uma e outra parte dos posts que pretendo dedicar à Escola de Frankfurt, permitam-me algumas anotações sobre ELIOT.
A primeira diz respeito ao capítulo 2, seção “O Exílio”.
Na primavera de 1914, Eliot partiu para descobrir “a diversidade européia”, que Kirk atribui ter-lhe sido comunicada por Santayanna, isto é, a partir da “limitação da Inglaterra”.
Eliot havia feito uma pós-graduação em Harvard (veja cronologia na obs. #1), onde fora aluno de Bertrand Russel, Irving Babbit e George Santayana – estes dois últimos os que mais o influenciaram, diz Kirk.

Depois, passara uma temporada em Paris e deixando para trás uma tese em andamento – só finalizada anos depois, de um doutorado do qual o poeta jamais sequer foi buscar o título…
”E assim, Eliot se dirigiu à bela e antiga Marburg, na primavera de 1914. Então, sem perceber o Velho Mundo o solicitava.” (pág. 172).

A estada em Marburg não permite a Eliot sequer desfazer a mala que o amigo Aiken lhe despachara, porque os acontecimentos de Saraievo colocaram os norte-americanos, às pressas, para fora do continente – diz Russell Kirk.

Na seção “O Exílio”, Russell Kirk mostra as dificuldades por que passou o poeta. Se, como queria Aiken, o incidente da partida de Marburg para a Inglaterra “provaria ser decisivo” é na Inglaterra que Eliot vai comer a “comida detestável dos britânicos” e respirar uma atmosfera de dificuldades financeiras (e diria até emocionais); porém, é na Inglaterra que “permaneceria a explorar e consolidar o novo terreno cultural, iniciando o laborioso trabalho de demarcar aquilo que lá seria o seu domínio” (Aiken, apud R. Kirk, pág. 173, citando carta da mãe do poeta – Charlotte C. Eliot a Bertrand Russell).

Em outubro de 1914, Eliot encontra-se por acaso com Bertrand Russel, que regressava de Harvard. O filósofo ex-professor – considerado por R. Kirk como “filósofo matemático iconoclasta” adota o poeta “solitário jovem norte-americano”, e diria: “duro”. Eliot vai morar,com a sua jovem esposa (Vivienne Haigh-Wood) de favor num quarto da casa de Bertrand Russel.

Os anos de dificuldade financeira levaram o poeta – que não desejava carreira acadêmica como professor universitário. E, ao contrário, foi professor assistente em escolas secundárias – como a Highgate Junior School – “um lugar adverso”, segundo um ex-aluno de Eliot; além de ministrar cursos de literatura para Adultos no Conselho do Condado de Londres.

R. Kirk assinala que o “professor-poeta ensinou francês, latim, matemática elementar, desenho, natação, geografia, história e besebol…”. Depois, ELIOT vai trabalhar no Lloyd’s Bank, no centro financeiro de Londres, onde passou a residir, tornou-se súdito britânico, tendo voltado raramente aos EUA, sendo a primeira vez 17 anos depois de ter deixado a pós-graduação em Harvard.
“…O intelectual norte-americano, hoje, quase não tem oportunidade de se desenvolver em seu país (…) deve ser um exilado”, disse T.S. Eliot em 1920. E mais: “era melhor ser um expatriado em Londres” – mesmo com a sua “detestável comida” – do que em Nova York, “a pior forma de exílio da vida norte-americana”, declarou Eliot (pág. 175).

Sobre a sua experiência como professor, ELIOT deixou frase lapidar que transcrevo em slide, justamente agora que a presidente da República “ameaça” aumentar salários dos professores, mas aguarda o melhor momento deste ano eleitoral…
T.S.Eliot cit.1
© Eliot em “To Criticize the Critic”, 1965, pág. 101 – via Google Books.

Trecho da citação acima, na tradução de Márcia Xavier de Brito:

“Sei com base na experiência que trabalhar em um banco das 9h15 às 17h30, e um sábado inteiro a cada quatro semanas, com duas semanas de férias ao longo do ano, era um descanso reparador se comparado a dar aulas em uma escola.”


(#1) A cronologia dos anos dos estudos formais do poeta Eliot é a seguinte:
Eliot Meia_Idade1906-1909 – Faz o “College” (faculdade) de Harvard, onde obtém o título de Bacharel;
1909-1910 (outonos) – Pós-Graduação em Harvard, onde obtém o grau de Mestre;
out/1910-jul/1911 – Estuda Literatura Francesa e Filosofia na Sorbonne em Paris;
Verão de 1911 – Munique (?)
1911-1913 – Harvard Graduate School – Estudos e Filosofias Hinduístas;
1913-1914 – Professor-Assistente de Filosofia em Harvard.
1914 – bolsista para Universidade em Marburg, Alemanha
(verão 14). “O Exílio” é seção do livro que se ocupa do tempo Eliotiano na Inglaterra.
(*) “Embora tivesse completado a dissertação sobre Francis Herbert Bradley em 1916, Eliot nunca requereu o título de doutor por Harvard nem buscou uma colocação profissional na Universidade” (Nota #36, pág. 168).
OBS.: A frase destacada na tradução de Márcia X. de Brito é o melhor trecho da citação de R. Kirk, mas há uma antecedente no slide que montei acima (pág.101 da obra citada), que é genial também, confira – tradução minha, portanto, sujeita a erros (aceito correções, s.v.p.):
(…) antes de preocuparmos em (contratar e) treinar mais professores, prefiro perguntar se estamos remunerando-os adequadamente. Eu nunca trabalhei numa mina de carvão, ou de urânio, nem como pescador de arenque, mas eu sei por experiência própria que, trabalhando num banco…” etc.

W.B. Yeats (2)

To The Rose Upon The Rood Of Time

Red Rose, proud Rose, sad Rose of all my days!w.b.yeats
Come near me, while I sing the ancient ways:
Chuchulain battling with the bitter tide;
The Druid, grey, wood-nurtured, quiet-eyed,
Who cast round Fergus dreams, and ruin untold;
And thine own sadness, whereof of stars, grown old
In dancing silver-sandalled on the sea,
Sing in their high and lonely melody.
Come near, that no more blinded by man’s fate,
I find under the boughs of love and hate,
In all poor foolish things that live a day,
Eternal beauty wandering on her way.

Come near, come near, come near – Ah, leave me still
A little space for the rose – breath to fill!
Lest I no more hear common things that crave;
The weak worm hiding down in its small cave,
The field-mouse running by me in the grass,
And heavy mortal hopes that toil and pass;
But seek alone to hear the strange things said
By God to the bright hearts of those long dead,
And learn to chaunt a tongue men do not know.
Come near; I would, before my time to go,
Sing of old Eire and the ancient ways:
Red Rose, proud Rose, sad Rose of all my days.

+++

A Rosa Na Cruz do Tempo
[Tradução de José Agostinho Baptista*]

Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias!
Aproxima-te, vem até mim, enquanto de outrora os tempos canto:
O de Cuchulain, em luta com a maré inclemente;

O do Druida sombrio, filho dos bosques, de olhos calmos,

Esse que alimentou os sonhos de Fergus e a indizível ruína;
É a tua tristeza o que antiqüíssimas estrelas

Dançando com sandálias de prata sobre o mar,

Cantam em sua alta e solitária melodia.
Aproxima-te pois, agora que já não me cega o destino do homem,

E posso encontrar sob os ramos do amor e do ódio,

E nas mais simples coisas que vivem apenas um dia,

A eterna beleza errante, errando ainda.
Aproxima-te, vem até mim, vem – Ah, deixa-me algum espaço
Que de seu hálito a rosa encha!

Que não seja eu quem não ouve o que implora;
O verme indefeso e oculto em seu pequeno esconderijo,

A ratazana que entre as ervas de mim foge,

E a terrível esperança mortal que labuta e morre;

Que seja eu quem ouve as estranhas coisas ditas
Por Deus aos luminosos corações dos mortos antigos.
E aprende essa língua que os homens ignoram.

Vem até mim; antes de partir queria o

Velho Eire cantar e cantar de outrora os tempos:
Rosa Vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias.

+++++
Fonte: “W.B.Yeats, Uma Antologia“, Ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 1996.