Poema de Natal

Natal, 2016

Vendo piscantes luzes à vitrine exposta,
à véspera do Natal de Jesus; acende-se
em mim de pronto este mortal desgosto
do falso brilho emanado dessa luz.

Não há nesses presentes ouro, incenso e mirra.
Sábios de bom gosto; presentes de dois mil anos;
antes fossem hoje mimos a compor eterno hino.

Entanto, hoje, não há senão mercadoria
n’alma do infante extasiada e fria —
que marca p’ra sempre a criança inerte.

Há múltiplos bens  todos vazios:
comprando o que de Graça teríamos —
a vida e a alegria do Jesus Menino.

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*Draft de poema inédito em livro.

Noite de Natal

Um menino pobrecito
Numa manjedoura
E hoje, nós todos tão faceiros,
A visitar shoppings
– Eis que salta a pergunta:
Onde o sapatinho,
Na janela?
No quintal?
Ah, o quintal de nossas memórias.
Aqui se vê a estrela de Belém?
– Não. Só o escambo apressado.
Eis-nos diante de abraços não-dados.
Eu os quero.
Dar e receber abraços e afagos.
Eis-nos diante do Amor não recebido.

Mas há quem nos diga
Com gestos simples
Papa e enfermo
O que é mesmo essa data.
– Contemplar o milagre
Do Deus-Menino
Num gesto apenas.
Onde o menos vale muito mais.
++++
Feliz Natal, caros leitores.
Paz & Bem.

Ainda e sempre, é Natal*

Em meio à noite, eu me recordo das palavras de um velho escritor português e seu tom arcaico, pronunciado em crônica datada de 1886, a frase não me chega inteiramente como deve ser agora lembrada aos leitores:

“…Dia seguido a dia, melancolicamente, esterilmente, nos foge o tempo… O dia de Natal vai de novo chegar. Com quanta saudade do doce e risonho tempo da minha infância eu o digo! Vai dar a hora de se retirar do presépio iluminado e florido, do centro do grupo orante dos pastores e dos Reis Magos, a sorridente imagem do mimoso e terno Menino destinado a padecer e a morrer crucificado para remir os homens”.
(*) Texto originalmente publicado em 2004, no site Oito Colunas.

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