Autores do séc. 21 (2) – Karleno Bocarro

Neste segundo dos quatro artigos em que me proponho a comentar jovens autores que não estão a serviço das utopias do século passado, comento a obra “As almas que se quebram no chão“, de Karleno Bocarro*.

“Por meio da obra de Karleno Bocarro, é possível compreender os males da crença no coletivismo e da muleta do escapismo”
“Na obra, o centro do mal não decorre da ação política do protagonista
ou das demais personagens, mas sim provém de dentro da alma destes.”

Confira no link abaixo (clique na figura para ler o artigo em Opção Cultural, ed.2162)

(*) Para adquirir o livro, clique no link da editora É Realizações.

Reflexões num dia muito especial

“Nos nossos dias, muitas vezes, o efeito extraordinário está em descobrir uma luz nas coisas mais simples, pois a verdadeira revolução em nossas vidas está em descobrir as pequenas coisas intensas e absolutas no que mais próximo está de nós, no menos inovador, às vezes, mesmo o mais tradicional.”
G.Corção.

Livros: montanhas e brisas

Na literatura há também montanhas e brisas. Os livros que encontramos são, na maior parte, como as correntes de ar; e sua leitura tem a brevidade e o enfado de uma gripe. Leu-se, sofreu-se, acabou-se…
(G. Corção)

Pensando nisso (como um Twitt estendido), ao lembrar o dia em que fechei a leitura deste autor admirável e um livro doloroso (un tissu pas legère), que me deixam a pensar na frase do Corção e em muito mais, sofrimento que persiste. Léon Bloy é, certamente, mais do que uma corrente de ar.

O livro escrito para mim

3 Alqueires + 1 vaca.
Essa fórmula romântica de um distributivista de direita tem mais dicas de vida e ficção do que de economia.
Convenhamos, há que se considerar como verdade absoluta que o leitor desejado pelo escritor é o que recebe o livro como carta que esperasse há muito tempo“.
É claro que um  livro nem sempre “traz a força de uma resposta” – como pretende Corção.

Partindo da frase de Stevenson de que “o livro é uma carta particular aos amigos do escritor… e o público é apenas o generoso patrocinador das despesas postais“, Corção elabora sobre os segredos da escrita…

O leitor desejado pelo escritor é, pois, o que recebe o livro como uma carta pessoal, que esperasse há muito tempo… Então, quando isso acontece (eu o digo como testemunha desse evento, não só com este livro, mas principalmente “A Descoberta do Outro“), “uma profunda reorganização se opera em nossa vida“.

Então, é o momento que o leitor termina a leitura saboreando a frase inaudita: “eis o livro que eu queria ter escrito”. Ou, frase ainda mais generosa e grata: “este é o livro que foi escrito PARA MIM…”

Há ainda, nas obras ditas por Corção ( e válidas para todos nós ainda hoje ) como GENUÍNAS uma espécie de REFRAÇÃO, quando nós leitores autênticos vemos no que lemos um reflexo dos livros que já temos como LIDOS e ASSIMILADOS.

O fato final, diz GC, é que “na cultura universal corre uma seiva comum, tornando as obras comunicantes e comunicadas“.

No entanto, este livro lido e amado continua decisivo e interessante porque situado como todo livro deveria ser “um objeto situado no mundo espírito” . Corção sempre viveu na contra-corrente e afirmar que obras de arte formam uma “trama orgânica”, citando obras díspares e autores de espectros políticos diversos mostra a generosidade e capacidade crítica de GC, juntando no mesmo pack da obra de Otávio Faria (tão esquecido!): Homero, Tertuliano, Santo Agostinho, Erasmo e Pascal, Verlaine e Proust…

Essa a essência do capítulo “Há uma carta em cada livro”. Essa a essência da leitura em todos os livros essenciais.

Por tudo isso e muito mais para quem achar e ler esse opúsculo, esse livro foi escrito pra mim… nascido 2 anos depois de sua edição (53) e lido bem recentemente, com muita emoção. Como quem repetisse o bordão: esse livro foi escrito para mim!

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Fonte: CORÇÃO, Gustavo. “Três Alqueires e Uma Vaca”. Ed. Agir, RJ, 1953. pág. 26 e ss.