Dante Milano Revisitado

DANTE MILANO (1889-1991) *

Poeta Dante Milano (Portinari)

Dante Milano (1889-1991)

EM “MAR ENXUTO” navega a poesia de Dante Milano, desde que Sérgio Buarque de Holanda saudou a publicação do volume “Poesias” do Milano, lançado pela José Olympio Editora, em 1948, como algo único na paisagem do modernismo brasileiro:

“…provavelmente um dos acontecimentos mais importantes de nossa vida literária nos últimos tempos. Nada, nos seus versos, se assemelha profundamente ao que foi escrito entre nós nestes vinte e trinta anos.”

PARA este leitor, amante da Poesia, o Milano foi como uma “mensagem na garrafa” que navegou nesta “planície devastada, neste mar enxuto“, desde que me chegou às mãos e conquistou-me a imaginação poética na XXIII Feira do Livro de Porto Alegre, em 1977, no verdor dos meus 22 anos…

E tal como no rosto de Eurídice – no poema Elegia de Orfeu,  este leitor:

“Em sua face expande-se o sorriso
De quem quer ser feliz sendo mortal,
E põe sua esperança no infinito,
Devastada planície, mar enxuto,
Onde reflui o sonho do que foi,
Onde o tempo passado continua.”

Enquanto me preparo para falar o longo poema Elegia de Orfeu, aproveite estes poemas falados que gravei em Soundcloud.

*Biografia do Poeta (Enciclopedia Itaú) 
Dante Milano (Rio de Janeiro RJ 1899 – Petrópolis RJ 1991). Ainda na infância, Dante Milano sofre dificuldades financeiras após o pai, o músico Nicolino Milano (1876 – 1962), abandonar a família. Impedido de cursar o ginásio, Dante torna-se auto-didata e aprende inglês, francês e italiano. Torna-se ajudante de revisor na redação do Jornal da Manhã e, aos 17 anos, revisor na Gazeta de Notícias. Ainda na adolescência, começa a escrever seus primeiros poemas. Trabalhar no Setor de Recenseamento do Estado onde conhece o diplomata e poeta Olegário Mariano (1889 – 1958), de quem se torna grande amigo. Na década de 1920, conhece muitos intelectuais e artistas ligados ao modernismo como o poeta Manuel Bandeira (1886 – 1968) e o músico Jayme Ovalle (1894 – 1955). Organiza uma antologia de poetas modernos, publicada em 1935, e traduz algumas odes do poeta latino Horácio (65 AC – 8 AC) e cantos da Divina Comédia do poeta italiano Dante Alighieri (1265 – 1321). Apenas em 1948, com quase 50 anos, Dante Milano publica o volume Poesias, reunindo sua obra então. Faz uma única viagem fora do Rio de Janeiro, seu estado natal, para visitar o pintor Cândido Portinari (1903 – 1962) no interior de São Paulo. Funcionário público aposentado desde 1964, Dante muda-se para Petrópolis em 1985. Três anos depois, recebe o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Morre em 1991 aos 92 anos de idade.

Comentário Crítico
Dante Milano, contemporâneo do movimento modernista, não se torna entusiasta do experimentalismo proposto pela vanguarda. Longe do lirismo cotidiano ou do poema-piada cultivados pelos modernistas da primeira geração, sua poesia procura outras fontes de referências e apresenta-se de modo bastante distinto ao leitor.

O poeta prefere adotar as formas fixas, em especial o soneto, e recuperar temas universais tais como o amor, a morte e o sonho – o tripé temático de sua obra, segundo o poeta Ivan Junqueira (1934). Por conta dessa distinção, Dante talvez tenha evitado publicar um livro de poemas nas décadas de 1920 ou 1930, realizando-o apenas na década de 1940 quando os temas universais e as formas fixas reaparecem na obra de poetas da 2ª geração modernista.

Dante Milano não participa, contudo, de nenhum grupo: sua poesia mantém uma unidade impressionante de temas, formas e estilos durante toda sua trajetória poética. Para Ivan Junqueira, Dante Milano participa de uma tradição de “poetas do pensamento emocionado”. Conjugando emoção e pensamento, percebe-se na poesia de Dante Milano uma predominância do símile sobre a metáfora, ou seja, há mais comparações diretas e transparentes do que imagens misteriosas e/ou fantásticas. (c)Enciclopédia Itaú, cfme. link citado acima.

De um Dante a outro, o dom da Poesia ou: Alighieri traduzido por Dante Milano

QUANDO UM AMIGO, mesmo que ‘virtual’, nos leva a retirar um livro da estante, é um momento importante para retomarmos leituras antigas e queridas, que fizeram parte de certa fase de nossas vidas. É quando reler é reviver. Dia desses foi meu amigo Juan Asensio, crítico francês que me trouxe de volta o universo de Guimarães Rosa, com seu artigo sobre o universal escritor das Minas Gerais, que sendo relido em França me animava a retirar volumes da estante e reviver momentos bons de minha vida de leitor faminto e nem sempre tão atento às nuances como Asensio o é.

AGORA É A MEG – blog SubRosa, referência para toda blogsphere que ama e respeita os livros e a cultura em geral. Quando completa 10 anos de blog, MEG nos premia com um convite a reler Dante Milano.

RETIRO da estante meu empoeirado Dante Milano DSC01410e com ele, os cantos do bardo italiano traduzidos pelo poeta brasileiro.
Se a MEG já nos brindou com alguns bons poemas, cabe-me transcrever algumas traduções e com elas a aula de carpitaria do humilde tradutor do outro imortal Dante, o Alighieri.
Sabe-se que Milano só veio a publicar aos 50 anos e, mesmo tardio, ganhou elogios de Manuel Bandeira, que nele reconheceu “um grande poeta” e a “garra de um mestre”. As traduções, publicou-as Milano nos suplementos “Autores e Livros” e nos “Cadernos de Cultura” (do Mec). Essa 3a. edição, de que me sirvo para este post é de 1971, exemplar numerado (0678), com prefácio de Sérgio Buarque de Hollanda, intitulado “Mar Enxuto”, que por primeiro aparecera no Diário de Notícias de 6 de março de 1949, saudando a publicação do volume de Poesias de Milano que fora publicado originalmente pela José Olympio em 1948.
Como o foco aqui não é transcrever a poesia de Milano e sim suas traduções, adicione-se que suas notas de introdução aos Cantos é antológica:
“SEI o muito que custa e o pouco que vale o esforço, entre os vários feitos em nossa língua, para traduzir o célebre Canto V do Inferno, os terríveis tercetos em que perpassa o frêmito de uma paixão que se tornou imortal.
”É enorme a diferença entre o verbo forte e ás
pero de Dante e a nossa língua de índole branda. Para evitar más interpretações devo dizer que, longe de pretender menoscabar o nosso idioma, eu o considero o mais agradável de todos pela naturalidade com que as palavras saem da boca sem forçá-la a trejeitos, por sua espontânea suavidade, o gosto casto de água, a simplicidade que dispensa o adorno – não obstante possa ostentar, como em Filinto Elísio e Odorico Mendes, um vocabulário imenso e insólito, que me parece supérfluo e não ouso empregar.

“O vigor musical, ao mesmo tempo ríspido, da dicção dantesca, se dilui na singela fluência do verbo português: as palavras, traduzidas embora em outras rigorosamente equivalentes, provocam, pela mera mudança de tonalidade, reações dissemelhantes. Exemplifico: as nítidas terminações em tt – smarritto – , a marcada acentuação silábica, a rugidora pronúncia dos ‘rr’ (Dante poderia ser cognominado ‘o poeta do ‘r’’) contrastam com a pronúncia amena do nosso idioma. Assim o épico torna-se lírico. Aquelas palavras que na boca de Dante são violentas e arrebatadas, como no verso

La bocca mi baciò tutto tremante

transpostas para a nossa língua tomam um ar mais calmo, que não muda o sentido mas altera e suaviza a ação. Ao pé da letra:
A boca me beijou todo tremente
ou
Todo trêmulo a boca me beijou.
Ou ainda, como preferi traduzir, por achar mais de acordo com o ímpeto e a intensidade lírica, mas fortes que o próprio sentido das palavras,
Beijou-me a boca, trêmulo, ofegante.

”Creio que ‘o certo’ não seria traduzir ‘italianizando’ e forçando a nossa língua, mas obediente à sua índole, adaptar o verso, procurando escrevê-lo ‘do modo por que Dante o faria se escrevesse em português’, isto é, tirando o máximo partido da língua, que é sempre a primeira lei do verso.

“De nenhum modo me satisfaria o mero traslado em prosa, a maior traição que se pode fazer ao verso dantesco, que procurei ‘imitar’ o mais possível, guardando o contorno dos tercetos, sem o que não poderia dar idéia da ‘forma’ do Poeta. Fiel o mais possível à letra do texto, fiz tudo para que não sentissem o tradutor, mas o autor.” (…)

E conclui, o Milano:
“(…) Dante possuía a arte de figurar coisas difíceis de dizer, quase inexprimíveis, e só por transparência perceptíveis. Ideias que afloram como da extremidade fina do caule surge a rosa num mistério tão natural. Ele sabia desse seu dom de tornar manifesto o impalpável e comunicar o indizível:

Non avea pur natura ivi dipinto
ma di soavitá di mille odori
vi facea un incognito indistinto.

(Não só de cores tudo estava tinto
como do trescalar de mil odores
se fazia um incógnito indistinto.)

A linguagem de um poeta não pode ser trasladada a outro idioma; pode-se traduzir o que ele quis dizer, mas nunca o que ele disse. Sirva isto de escusa às deficiências desta e de qualquer tradução”, conclui Dante Milano.

Espero que as cópias abaixo sejam legíveis aos que se interessam pelo poeta-tradutor e homônimo do Alighieri e anime o leitor deste blog a conhecer mais o nosso Dante, o Milano. Recomendo também a leitura suplementar sobre Dante Milano contida no Ricardo Vieira Lima – Artigo de Ricardo Vieira Lima, UM POETA À REVELIA DE SI MESMO. Há também poemas transcritos Alguma poesia

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Fonte: MILANO, Dante. Poesias. 3a. Edição, revista e acrescida da tradução de Três Cantos do Inferno, de Dante Alighieri. Edit. Sabiá/MEC, 1971. 186 p.