JUAN ASENSIO relê BERNANOS (3)

A atualidade de Georges BERNANOS fica provada a cada leitor atento que se debruça sobre a obra do católico-escritor-combatente.
EM JUAN ASENSIO encontramos essa figura do leitor incansável, do crítico, do polemista que talvez Bernanos a ele lançasse seus olhos claros a dizer: este me entendeu e me levou adiante…como com o bastão da boa literatura devemos os leitores fiéis sempre realizar passo-a-passo:

La Grande Peur des bien-pensants de Georges Bernanos, que je continue de lire, l’ayant décidément lu trop jeune, après son premier roman, Sous le soleil de Satan, en 1988, et que n’importe lequel de ces innombrables radoteurs que l’on presse de questions banales sur les plateaux de télévision, en leur demandant de lâcher leur parole tiède comme un pet discret, devrait à tout prix relire ou plutôt : lire, pour se pénétrer de grand style, de colère, de littérature et de politique, de vie, ne cesse de m’étonner par la qualité de sa rage, la tessiture si particulière de son honneur blessé, son secret désespoir de gamin trahi…”

Aos não-francófonos, tradução livre (não de erros do tradutor amador, étonné aussi pelo estilo grandioso do Asensio!):
O livro “O Grande Medo dos “bem-pensantes”  de G.Bernanos – [ÉRealizações, eis mais uma obra ainda não traduzida em Português!], que eu continuo a ler, porque o li muito jovem, depois de ter lido o primeiro romance dele (Bernanos): “Sob o Sol de Satã”, em 1988.
Penso em qualquer desses fastidiosos e inumeráveis apresentadores de TV, a eles peço que abandonem seus comentários “mornos”, que são uma espécie de flato silencioso, eles deveriam e ler a qualquer preço; quem sabe, talvez, reler Bernanos – para que pudessem penetrar seu grande estilo, sua cólera em literatura e política, penetrar na vida de Bernanos – vida e obra que não me cansam de surpreender pela qualidade de sua raiva, da tessitura tão particular de uma honra ferida – que é, enfim, seu desespero de criança traída…”

Ilustração Bernanos_VouloirArchivesEROE

(c) imagem by Vouloir Archives EROE_Bernanos

Cartas do cotidiano-Sobre Bernanos e os teólogos da corte…

Caderno de notas do cotidiano

EU e o JORNAL DIÁRIO: uma carta publicada no jornal local de Goiânia (GO), Brasil.

Carta ao Popular, Goiânia
Adalberto Queiroz a’O Pop, Goiânia.

Georges BERNANOS sempre atual
BERNANOS e os sacerdotes da Igreja!

Donissan e Cénabre: exemplo e contra-exemplo da conduta cristã.

Sobre Bernanos e a prática dos sacerdotes hoje…
Carta a’O Popular (Goiânia-GO).

Luto, deuil (inter)national

O silêncio de Asterix, Obelix e Ideafix não cede ao terror.
Homenagem d’Uderzo aos mortos em Paris. Pela liberdade de expressão.

SILENCIOSO, expresso minha solidariedade à França que eu amo e que não se cala.
La France que inclui meus mestres: BERNANOS, François MAURIAC, Claudel, Bloy, Maritain e tantos outros…escritores, cantores, compositores, uma plêiade de homens e mulheres que honram o valor universal da Liberdade (de Expressão, sobretudo!).

La France de Trénet et Aznavour. A França de De Gaulle et Souchon, a França de meus amigos e das canções do coração – do meu amigo e professor, mestre Serge Evreinoff e Lelê e Marie e Tania Evreinoff: FRANÇA que nenhum pedaço (bom ou ruim, sadio ou podre, calmo ou raivoso) do Islam poderá jamais apagar de meu coração.

EU sou Cristão, sou Georges Bernanos – muito antes de Charlie; Charlelie Couture, antes de Cabu; Charlemagne; antes de Wolinski; St. Martin de Tours, antes de Charb; Bernard antes de Tignous…Meu abraço solidário a todas as famílias que hoje choram seus mortos: Wolinski, Cabu, Charb et Tignous e outras tantas mais.

Meu lápis escreve a palavra Liberté! como um valor sagrado, entre os iguais e os semelhantes. La France catholique e mãe da Liberdade, eu rezo por Ti, doce segunda pátria sempre amada, que nos deu o mais brasileiro dos Francos: G. Bernanos, o caipira mineiro universal. Em minha página do FB, citei os amigos virtuais e reais abaixo:

– Euler Fagundes De França Belém Denise Rodrigues Monica Manna Raquel Teixeira Yves Bernanos Jean-Louis Beylard-Ozeroff César Miranda Helio Moreira Maria Abadia Silva Francisco Barros Le Groupe Français d’Albuquerque.

Grand Georges

“Trabalhe, disse-me ele, faça pequenas tarefas, dia após dia. (…) É assim que o bom Deus espera nos ver, quando nos abandona às nossas próprias forças. As pequenas tarefas não parecem importantes, mas dão paz. São como as flores do campo, você sabe. Achamos que não têm perfume, mas, quando juntas, rescendem. A oração das pequenas coisas é inocente.”
(Georges Bernanos).
Mais Aqui.

Sob o domínio da Esperança

Ces prophètes de malheur [Bloy et Bernanos] écrivent sous la dictée de la petite fille Espérance (Pierre-Robert Leclerq, d´après Juan Asensio).

Quem é Georges Bernanos?

Termino com entusiasmo a leitura de “La Joie”, romance de Georges Bernanos, sempre me perguntando por que este importante escritor francês do século passado tem apenas um romance traduzido no Brasil e tão poucos comentários.
coletânea georges-bernanosAfinal, me perguntam jovens e até cinquentões acadêmicos, quem é Bernanos?

– Bernanos é um escritor francês do século XX, que fez parte do movimento chamado “nova literatura católica na França” – bloco impressionante, embora não homogêneo – na designação de Otto Maria Carpeaux.

Bernanos nasceu em 20 de fevereiro de 1888 em Paris, filho de pai de origem espanhola, mas “francês desde o início do séc. XVII, fixados na região da Lorraine”.

Para resumir em poucas palavras o que foi sua formação religiosa e moral, nas palavras do próprio autor:

– “Fui criado no respeito, no amor, mas também na mais livre compreensão possível. Na minha família católica e monarquista, sempre ouvi falar muito e livremente, com frequência e com dureza de monarquistas e de nós católicos”.

Leitor precoce de Balzac, Zola, Barbey D´Aurevilly, sir Walter Scott, Hello e Drumont – Bernanos se engajou desde cedo na causa monarquista e na Action Française (AF) – sem jamais se sentir confortável em qualquer das classificações políticas habituais (direita, esquerda, monarquista, republicano etc.).

Segundo seu filho Jean-Loup, ele foi sempre “profundamente católico e a sua maneira, ao mesmo tempo, anti-clerical e anti-conservador”. Um exemplo claro disso: em sua vida, nômade por excelência, Bernanos reagiu fortemente à repressão franquista à ilha de Majorca (onde morou por um período, em um dos seus inúmeros endereços em toda a vida) e, se isso o aproximou da esquerda, foi crítico da direita do pré-guerra de 45. E depois, após a vitória aliada, o ´sucesso` da esquerda francesa lhe parecia insuportável e o deixava em desconforto. Quando deixa a França, mudando-se para Majorca, ele próprio afirma:

– “Pude observar a que profundidade o veneno totalitário pode corromper as consciências católicas e até mesmo as consciências sacerdotais”.

Tendo um dos seus livros condenado pelo papa Pio XI, por influência dos católicos espanhóis, Bernanos deixa a Espanha em 37 e volta à França onde encontra um “clima de derrota e ruína das consciências” que o faz prever a derrota militar iminente. Há o que ele chama de tripla corrupção – nazista, fascista e marxistaonde não havia nada preservado daquilo que aprendera a respeitar e amar. E por isso, Bernanos, deixa a França.

Bernanos vem para o novo continente – primeiro para o Paraguai e depois para o Brasil, fixando-se em uma fazenda em Minas Gerais. Nessa fazenda isolada, o escritor católico influencia toda uma inteligência cristã que o ouve aqui, apesar do aparente isolamento em Paracatu e Cruz das Almas, e envia artigos para jornais franceses, até com prejuízo para a sua criação literária.

Falando com um jovem e dileto amigo que me perguntava porque só podemos encontrar um único livro (Diário de um Pároco de Aldeia, Paulus, 2000) seu traduzido em português, fico meio sem resposta.

– Talvez porque os ditos escritores católicos pouco interessam hoje ou, por outra, e talvez certamente, há um complô contra os escritores moralistas e que por sua literatura não contribuem para a ´revolução gramsciana` em vigor na mídia brasileira. Vide o exemplo de toda uma inteligência católica não lida, não divulgada, não comentada, até diria expurgada do noticiário.

Esse escritor nômade, que enfrentou as adversidades de sua vida, fixa-se em Cruz-das-Almas, que me encanta com sua obra de ficção diz de si mesmo:

Para mim, a obra de um artista não é nunca a soma de suas decepções, sofrimentos e dúvidas, do mal e do bem de toda sua vida, mas de sua vida ela própria, transfigurada, iluminada, reconciliada. Sei bem que não se prova nunca do vinho novo desta reconciliação consigo próprio, senão quando a colheita é feita – como a dor física que pode se prolongar muito depois de terminada a sua causa – e assim, tendo acontecido essa reconcialiação, fruto de um esforço imenso, nós continuamos ainda a desejá-la. Porque nossa felicidade interior não nos pertence mais do que a obra que ela motiva: é preciso que nós tenhamos nos doado, à medida que morremos vazios, que morremos como natimortos (…) antes de despertar, de um `seuil franchi´ na doce piedade de Deus, como de uma manhã fresca e profunda.
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Fonte: “Georges Bernanos: Romans“, Edit. Librairie Plon, 1994, Prefácio de Michel del Castillo, nota biográfica de Jean-Loup Bernanos.