T.S.Eliot (4) com Ivan Junqueira, poeta e tradutor

IVAN JUNQUEIRA e T.S. ELIOT ou:

Como um devoto quebra o altar onde  sua poesia é incensada

e, ainda assim, se torna o maior criador da poesia inglesa?

Eliot-Meia_Idade_thumb.jpg
 legenda

 

T.S. Eliot (1888-1965)

 

 

 


– Essa a pergunta que o poeta e crítico literário Ivan Junqueira tenta responder num ensaio belíssimo (lembrando que a palavra ensaio tem também o sentido da “tentativa“) – que é uma aula para compreender um poeta considerado enigmático e difícil, erudito e fragmentário.

Por entender que esta pergunta e suas múltiplas respostas tem em Junqueira um bom ponto de parte é que repercuto o ensaio neste e em outros dois posts.

Sob o título “Eliot e a Poética do Fragmento”, Ivan Junqueira
traça com seu estilo inconfundível uma visão da erudição de Eliot e a representação do que ele chama de “fragmentação” e citação – um debruçar-se sobre as janelas da tradição (poético-literária) e reinventá-la, respeitando-a e recriando-a como um poeta inovador – o poeta par excellence do séc.XX.

Leia mais

“Porque estás vivo aqui, agora e sempre…” Adeus, poeta!

IVAN JUNQUEIRA, 1934-2014, poeta e tradutor, autor entre outros de “Os Mortos” (1964), “Três Meditações na Corda Lírica” (1977), “A Rainha Arcaica” ( 1980). Tradutor a quem devemos o melhor de T.S. Eliot em português – “Quatro Quartetos” (1967) e T.S.Eliot Poesia Completa (1981) e os Ensaios (1991). Para consultar uma 
bibliografia completa visite este link da ABL.

No último dia 03 de julho, em meio às notícias geradas pela Copa do Mundo da Fifa/14, somos comunicados da morte do poeta Ivan Junqueira. Entre os inúmeros obituários, dou a preferência a este, escrito no website do colégio em que o poeta fez seus primeiros estudos – o Colégio Notre Dame de Ipanema no Rio de Janeiro.

Membro da Academia Brasileira de Letras, o ex-aluno do Notre Dame, estudou Medicina e Filosofia, sem terminar os cursos, voltando-se ao chamado das letras na imprensa e como tradutor e, principalmente, poeta. Dele disse o presidente da ABL, ao saber de seu passamento: “…grande poeta, mestre indiscutível nas artes do ensaio crítico e da tradução literária, Ivan deixa um legado que enriquece a nossa tradição e a história literária do Brasil.”

Li pela vez primeira os poemas de Ivan na década de 80, com o belo volume de “A rainha arcaica”.

Dentro do volumezinho lido e relido – tantas vezes assustado com a grandeza do poeta, que me deixa(va) envergonhado de me pretender poeta, encontro um recorte da Folha de S.Paulo, em que Nogueira Moutinho exalta a poesia de Ivan, com frase lapidar:

“O poeta pertence, realmente, à família dos que preferem sugerir e entremostrar em vez de praticar uma incisão nítida na  placa metálica da linguagem. Não é um gravador, é antes um debuxador de ‘fusains’. Nesses desenhos a carvão que são alguns de seus poemas, eu destacaria as ‘Três Meditações na Corda Lírica”, sobretudo a primeira, em que Ivan Junqueira parece delinear os princípios de sua arte poética, fora do tempo, mas no tempo audível” .

Talvez por essa observação gravada no recortezinho, apaixonei-me pelo poema, que reproduzo aqui  – como minha forma de dizer Adeus ao poeta Ivan e aos leitores: sei que o poeta está vivo…

Ivan Junqueira

Três Meditações na Corda Lírica (1)

(À Margarida)

“Only trough time time is conquered” (T.S.Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92).

Deixa tombar teu corpo sobre a terra
e escuta a voz escura das raízes,
do limo primitivo, da limalha
fina do que é findo e ainda respira.

O que passou (não tanto a treva e a cinza
que os mortos vestem para rir dos vivos)
mais vivo está que toda essa harmonia
de claves e colcheias retorcidas,
mais vivo está porque o escutas limpo,
fora do tempo, mas no tempo audível
de teu olvido, partitura antiga,
para alaúde e lira escrita, timbre
que vibra sem alívio no vazio,
coral de sinos, música de si
mesma esquecida, aquém e além ouvida.

O que passou (à tona, cicatriz)
é dor que nunca dói na superfície,
ao nível do martírio, mas na fibra
da dor que só destila sua resina
quando escondida sob o pó das frinchas
e que, doída assim tão funda e esquiva,
é mais que dor ou cicatriz: estigma
aberto pela morte de outras vidas
nas pálpebras cerradas do existido,
espessa floração de espinhos ígneos,
solstício do suplício, dor a pino
de te saberes resto de um menino
que anoiteceu contigo num jardim
entre brinquedos e vogais partidas.

E tudo é apenas isso, esse fluir
de vozes quebradiças, ida e vinda
de ti por tuas veias e teus rios,
onde o tempo não cessa, onde o princípio
de tudo está no fim, e o fim na origem,
onde a mudança e movimento filtram
sua alquimia de vigília e ritmo,
onde és apenas linfa e labirinto,
caminho que retorna ao limo, à fina
limalha do que é findo e ainda respira
para depois, o mesmo, erguer-se a ti,
ao que serás, porqu estás vivo aqui,
agora e sempre, antes e após de tudo.

Deixa tombar teu corpo e te acostuma,
húmus, à terra – útero e sepulcro.
+++++
Fonte: JUNQUEIRA, Ivan. “A rainha arcaica”, Rio de Janeiro, Nova Fronteira Edit. , 1980.

“Porque estás vivo aqui, agora e sempre…” Adeus, poeta!

IVAN JUNQUEIRA, 1934-2014, poeta e tradutor, autor entre outros de “Os Mortos” (1964), “Três Meditações na Corda Lírica” (1977), “A Rainha Arcaica” ( 1980). Tradutor a quem devemos o melhor de T.S. Eliot em português – “Quatro Quartetos” (1967) e T.S.Eliot Poesia Completa (1981) e os Ensaios (1991). Para consultar uma 
bibliografia completa visite este link da ABL.

No último dia 03 de julho, em meio às notícias geradas pela Copa do Mundo da Fifa/14, somos comunicados da morte do poeta Ivan Junqueira. Entre os inúmeros obituários, dou a preferência a este, escrito no website do colégio em que o poeta fez seus primeiros estudos – o Colégio Notre Dame de Ipanema no Rio de Janeiro.

Membro da Academia Brasileira de Letras, o ex-aluno do Notre Dame, estudou Medicina e Filosofia, sem terminar os cursos, voltando-se ao chamado das letras na imprensa e como tradutor e, principalmente, poeta. Dele disse o presidente da ABL, ao saber de seu passamento: “…grande poeta, mestre indiscutível nas artes do ensaio crítico e da tradução literária, Ivan deixa um legado que enriquece a nossa tradição e a história literária do Brasil.”

Li pela vez primeira os poemas de Ivan na década de 80, com o belo volume de “A rainha arcaica”.

Dentro do volumezinho lido e relido – tantas vezes assustado com a grandeza do poeta, que me deixa(va) envergonhado de me pretender poeta, encontro um recorte da Folha de S.Paulo, em que Nogueira Moutinho exalta a poesia de Ivan, com frase lapidar:

“O poeta pertence, realmente, à família dos que preferem sugerir e entremostrar em vez de praticar uma incisão nítida na  placa metálica da linguagem. Não é um gravador, é antes um debuxador de ‘fusains’. Nesses desenhos a carvão que são alguns de seus poemas, eu destacaria as ‘Três Meditações na Corda Lírica”, sobretudo a primeira, em que Ivan Junqueira parece delinear os princípios de sua arte poética, fora do tempo, mas no tempo audível” .

Talvez por essa observação gravada no recortezinho, apaixonei-me pelo poema, que reproduzo aqui  – como minha forma de dizer Adeus ao poeta Ivan e aos leitores: sei que o poeta está vivo…

Ivan Junqueira

Três Meditações na Corda Lírica (1)

(À Margarida)

“Only trough time time is conquered” (T.S.Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92).

Deixa tombar teu corpo sobre a terra
e escuta a voz escura das raízes,
do limo primitivo, da limalha
fina do que é findo e ainda respira.

O que passou (não tanto a treva e a cinza
que os mortos vestem para rir dos vivos)
mais vivo está que toda essa harmonia
de claves e colcheias retorcidas,
mais vivo está porque o escutas limpo,
fora do tempo, mas no tempo audível
de teu olvido, partitura antiga,
para alaúde e lira escrita, timbre
que vibra sem alívio no vazio,
coral de sinos, música de si
mesma esquecida, aquém e além ouvida.

O que passou (à tona, cicatriz)
é dor que nunca dói na superfície,
ao nível do martírio, mas na fibra
da dor que só destila sua resina
quando escondida sob o pó das frinchas
e que, doída assim tão funda e esquiva,
é mais que dor ou cicatriz: estigma
aberto pela morte de outras vidas
nas pálpebras cerradas do existido,
espessa floração de espinhos ígneos,
solstício do suplício, dor a pino
de te saberes resto de um menino
que anoiteceu contigo num jardim
entre brinquedos e vogais partidas.

E tudo é apenas isso, esse fluir
de vozes quebradiças, ida e vinda
de ti por tuas veias e teus rios,
onde o tempo não cessa, onde o princípio
de tudo está no fim, e o fim na origem,
onde a mudança e movimento filtram
sua alquimia de vigília e ritmo,
onde és apenas linfa e labirinto,
caminho que retorna ao limo, à fina
limalha do que é findo e ainda respira
para depois, o mesmo, erguer-se a ti,
ao que serás, porqu estás vivo aqui,
agora e sempre, antes e após de tudo.

Deixa tombar teu corpo e te acostuma,
húmus, à terra – útero e sepulcro.
+++++
Fonte: JUNQUEIRA, Ivan. “A rainha arcaica”, Rio de Janeiro, Nova Fronteira Edit. , 1980.

Eu bebo, logo existo (2)

Mais uma dose de bom texto e bom vinho:

Segundo R. Scruton, a famosa descrição de T.S.Eliot de uma “jornada espiritual” (em Little Gidding, 4 Quartetos) pode-se aplicar a nossa “jornada de conhecimento do Vinho”. Será?
“We shall not cease from exploration,
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.” (T.S.Elliot)
++++
Em português, na tradução de Ivan Junqueira:
“Não cessaremos nunca de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E o lugar reconhecer ainda
Como da primeira vez que o vimos.”
(Lido por
Tom O’Bedlam o poema ficou assim: Little Gidding, Four Quartets, Eliot, from 4 Quartetos original inglês, por T.S. Eliot)

A boa cepa desta dose vem de “I Drink Therefore I Am” (A Philosopher’s Guide to Wine), p.54, cap. 3 (Le Tour de France). E a tradução, do vinhedo sempre exuberante do poeta brasileiro Ivan Junqueira em “POESIA, T. S. Eliot”, Nova Fronteira, 1981, pág. 234. Scruton fala do “claret”, vinho popular na Inglaterra de sua infância e quando faz o Tour de France é natural que volte ao pensador inglês, nestes termos:
”T.S.Eliot’s famous description of our spiritual journey applies equally to our journey into wine. Beginning from ‘claret’, we venture out in search of strange fruit, exotic landscapes, curious lifestyles and countries with nothing to recommend them save their wines. And after punishing body and soul wint Australian Shiraz, Argentine Tempranillo, Romanian Cabernet Sauvignon and Greek Retsina, we crawl home like the Prodigal Son and beg forgiveness for our folly. ‘Claret’ extends a warm and indulgent embrace, renewing the ancient bond between English thrist and Gascon refreshment, soothing our penitent thoughts with its quiet and clear aroma, sounding its absolution in the depths of the soul. This is the wine that made us and for which we were made, and it often astonishes me to discover that I drink anything else…” (p.54, op. cit.).
(*) Vinhos Clarete, como se diz hoje, é a forma usada para descrever os vinhos tintos de Bordeaux. Em geral, grafado com o “t” mudo: Claret. O que me lembra dos personagens de Whila Cather sobre o livro “A Morte Vem Buscar o Arcebispo”.