O espaço

O Espaço
*********Adalberto de Queiroz

Porque a poesia nos coloca
em estado-de-emergência –
como dizia o Gaston,
Eu vos digo: eis-me aqui, acólito
do ritual canônico do verbo
criando stanzas velhas – atónito (!)
com o poder etéreo, soberbo.


Sem impertinências, nem pedras pelo caminho,
– pedras estão diante dos olhos!
as pedras clamarão, agora clamam.
Não há senão as que me levem de volta à casa do Pai.
– Eis-me aqui, Senhor, de corpo e alma;
inaugurando uma forma:
voando pelo Espaço
sem deixar a doida da casa
roubar-me o plano de voo.
./.

Adalberto de Queiroz, Destino Palavra, 2016. p.50.
Este poema encontra-se gravado no SoundCloud, falado por mim, para ouvi-lo, clique no link abaixo.

Amor, Love, Valentine’s Day

A AMÉRICA intitulou-os “Poems by occasions“. Eles existem em profusão e não estão no meu radar de leitor. A Poesia me basta pelo universo paralelo que engendra…pois creio que “ermas de melodia e conceito/elas se refugiaram na noite, as palavras.

O poeta maior da língua portuguesa no séc. xx – CDA – aconselhava a não fazer versos sobre acontecimentos; mas vamos lá uma só concessão ao coração dos que amam ou desejam ser amados.

“Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.”

Portanto, façamos aqui uma pausa crítica,
para Valentine’s Day e poemas de amor e de anti-amor.valentine-feature-1

Primeiro, um poema de John Donne “Definição de Amor”, na tradução de Aíla de Oliveira Gomes. Depois, algo mais de Poesia Metafísica, que já citei outrora, sem data especial nem nada, só pela beleza e qualidade da poesia.image

+Dois Poemas de Poesia Metafísica*

1) John Donne – Preleção sobre a Sombra

Espera, que uma preleção eu vou te ler,
Amor, sobre o amor e sua filosofia.
Nessas três horas de nosso lazer,
Aqui vagando, um par nos precedia
De sombras, que eram por nós mesmos projetadas;
Ora o sol está a pino sobre nós, tu vês,
E nossas sombras, sob nossos pés;
E tudo se reduz à brava claridade.
Assim, ao que nosso amor infante crescia,
Nossas sombras, o nosso disfarce, sumia
De nós e nossos medos; mas avança o dia.

Nenhum amor atinge o seu mais alto grau
Enquanto a vista alheia teme, como um mal.

A menos que o amor no zênite haja parado,
Produziremos novas sombras do outro lado.
Se as primeiras servem a nos ocultar,
Aos outros cegando; estas, a atuar
Atrás de nós, é qual a nós mesmos cegar.
Se nosso amor definha e declina  no poente.
Tu a mim e eu a ti, falsamente,
Nossas ações deixamos se disfarcem
Entre nós. As sombras da manhã se desfazem;
Estas crescem sempre mais, todavia,
Pois, ai! se o amor se esvai, curto é o dia.

O amor é uma luz sempre crescente e constante;
Seu primeiro minuto após meio-dia é noite.

2) Henry Vaughan – Instante – slide abaixo.

INSTANTE, poema de Henry Vaughan
Instante – poema de Henry Vaughan, trad. Aíla de Oliveira Gomes.

ΨΩΨ
FONTE: Poesia Metafísica / William Shakespeare…[et alli]; seleção, tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes. – S. Paulo: Companhia das Letras, 1991.

Crédito da Ilustr. imagem destacada: Raphael (Raffaello Santi), school of. 1483-1520.“Venus and Adonis”, Hermitage Museum. Mas sobre Valentine’s Day e a Poesia no link de Poetry Foundation.

A PRECE, Emily Dickinson

PRAYER is ……
Pintura_Sassoferrato-The-Virgin-in-Prayer MilleChristi

Prayer is the little implement
Through which Men reach
Where Presence – is denied them.
They fling their Speech

By means of it – in God’s Ear –
If then He hear –
This sums the Apparatus
Comprised in Prayer –
*

A prece é o minúsculo petrecho
Com que o homem alcança
Onde sua presença é proibida.
Sua palavra arremessa.

Por esse meio, aos ouvidos de Deus;
Se por Ele é ouvida –
Isto então totaliza a aparelhagem
Compreendida na prece.
*****
Trad. dona Aíla de Oliveira Gomes.
Emily Dickinson: Uma centena de Poemas
Ed. TA Queiroz/USP, 1984, p.76/77.

Poesia Metafísica (3)

John Donne

(c) genius.com

DIFÍCIL DIZER ALGO RELEVANTE, agora,
neste século em que o mundo se mostra às avessas,
de ponta-cabeça; difícil quando o que temos é apenas…

“um….mundo
Fora dos eixos,
como de nascença, manco…”

QUANDO o amigo te anuncia solene o veredicto dos ‘especialistas’:

“Não publique versos, principalmente não os publique em linhas destacadas, i.e., versos alinhados como versos foram compostos, paridos, suados, tirados à fórceps da idéia do poeta…que os tirou de alhures, do éter, do Todo…
É como se anunciasse a morte de Elizabeth Drury ou de Laura, a Donne ou a Petrarca. Penso:

“….o corpo é nada, morto o coração,
A não ser que te nutras (banquetear-te, não!)
Do alimento transcendente – a Religião.”

As pessoas não lêem. Não se interessam por versos… E, afinal, todos queremos ser lidos, todos queremos audiência.
Um dos males do século é a audiência. O desejo dela. A ausência.
O inopinado desejo de possui-la, mesmo que ao preço do estupro mental.
Se cresces assim, à caça de tal público…segreda-me Elizabeth:

“….Por mais que cresças, cresces apoucado e seco.”

Continuar lendo

Poesia Metafísica (3)

John Donne

(c) genius.com

DIFÍCIL DIZER ALGO RELEVANTE, agora,
neste século em que o mundo se mostra às avessas,
de ponta-cabeça; difícil quando o que temos é apenas…

“um….mundo
Fora dos eixos,
como de nascença, manco…”

QUANDO o amigo te anuncia solene o veredicto dos ‘especialistas’:

“Não publique versos, principalmente não os publique em linhas destacadas, i.e., versos alinhados como versos foram compostos, paridos, suados, tirados à fórceps da idéia do poeta…que os tirou de alhures, do éter, do Todo…
É como se anunciasse a morte de Elizabeth Drury ou de Laura, a Donne ou a Petrarca. Penso:

“….o corpo é nada, morto o coração,
A não ser que te nutras (banquetear-te, não!)
Do alimento transcendente – a Religião.”

As pessoas não lêem. Não se interessam por versos… E, afinal, todos queremos ser lidos, todos queremos audiência.
Um dos males do século é a audiência. O desejo dela. A ausência.
O inopinado desejo de possui-la, mesmo que ao preço do estupro mental.
Se cresces assim, à caça de tal público…segreda-me Elizabeth:

“….Por mais que cresças, cresces apoucado e seco.”

Continuar lendo

Poesia Metafísica (2)

Cenas de poesia explícita em Antologia da Poesia Metafísica.
Poesia Metafísica

Uma Antologia.
Organização, tradução, introdução e notas de
Aíla de Oliveira Gomes

>>AQUI AMOSTRAS DO AMOR “Sensous Thought” na Poesia Metafísica.<< Áudio de Naxos Poetas Metafísicos (em inglês) Retiro outros poemas e outro trecho do TRABALHO CAPRICHOSO feito por minha tradutora predileta – D. Aíla de Oliveira Gomes -, de quem divulgo há muito tempo as traduções impecáveis de Emily Dickinson (devo ainda em breve dedicar-me às traduções de Gerard Manley Hopkins feitas por D. Aíla) – aqui, agora, o foco é em “Poesia Metafísica”. Recorro, ainda, às anotações de leitura de anos atrás. Já havíamos ressaltado o “pensamento e a sensibilidade” advindas da prática da meditação cristã na obra dos poetas desta “escola”. A profundeza da concepção cristã da vida e o forte pendor espiritual que os aproxima da poesia medieval, ainda que composições datadas dos “Seiscentos”. O segundo aspecto ressaltado pela organizadora do volume citado é o “sensous thought em uma aura de wit”. Continuar lendo

Poesia Metafísica (2)

Cenas de poesia explícita em Antologia da Poesia Metafísica.
Poesia Metafísica

Uma Antologia.
Organização, tradução, introdução e notas de
Aíla de Oliveira Gomes

>>AQUI AMOSTRAS DO AMOR “Sensous Thought” na Poesia Metafísica.<< Áudio de Naxos Poetas Metafísicos (em inglês) Retiro outros poemas e outro trecho do TRABALHO CAPRICHOSO feito por minha tradutora predileta – D. Aíla de Oliveira Gomes -, de quem divulgo há muito tempo as traduções impecáveis de Emily Dickinson (devo ainda em breve dedicar-me às traduções de Gerard Manley Hopkins feitas por D. Aíla) – aqui, agora, o foco é em “Poesia Metafísica”. Recorro, ainda, às anotações de leitura de anos atrás. Já havíamos ressaltado o “pensamento e a sensibilidade” advindas da prática da meditação cristã na obra dos poetas desta “escola”. A profundeza da concepção cristã da vida e o forte pendor espiritual que os aproxima da poesia medieval, ainda que composições datadas dos “Seiscentos”. O segundo aspecto ressaltado pela organizadora do volume citado é o “sensous thought em uma aura de wit”. Continuar lendo

Poesia Metafísica (1)

CEREBRAL e de profunda espiritualidade, eis a Poesia Metafísica, reabilitada para os leitores modernos.
CENAS POÉTICAS DA ANTOLOGIA organizada por Aíla de Oliveira Gomes.

Poesia Metafísica

Uma Antologia, org., trad. introd. e notas de                          D. Aíla de Oliveira Gomes

TRABALHO CAPRICHOSO da minha tradutora predileta – D. Aíla de Oliveira Gomes que já conhecíamos de traduções impecáveis de Emily Dickinson e Gerard Manley Hopkins – agora selecionou, organizou, traduziu e, ainda mais, brindou-nos com uma introdução magnífica deste volume de 1991, pela Schwarcz Editora (Cia das Letras).

Retiro o volume da estante com as anotações de 1993, feitas à época sob o influxo dos estudos que eu fazia e que me foram úteis à minha própria visão de mundo e do fazer poético.

Se T.S. Eliot compôs um clássico ensaio (“The metaphysical poets”) sobre a chamada poesia metafísica do séc. XVII, D. Aíla, com sua introdução a essa Antologia, alcança o mérito de nos situar nessa releitura de Eliot, como um guia seguro do leitor moderno que se aventura a viajar nesta “amálgama muito típico de paixão e pensamento“.

Pensamento e Sensibilidade
Tomamos gosto e passamos a apreciar essa “unificação do pensamento e sensibilidade” que entre os poetas metafísicos foi favorecida e exercitada pela prática da meditação sobre os temas religiosos fundamentais, muitas vezes desenvolvida na forma de oração mental.
A meditação cristã tem raiz em santo Inácio de Loyola (Exercícios Espirituais, 1548), relata-nos dona Aíla. John Donne, de família e formação católica muito enraizada, recebeu influência de seu tio, missionário jesuíta, que, ao que consta, morreu como mártir da Fé católica. Robert Southwell, poeta jesuíta e fervoroso adepto da meditação, teria sido o iniciador do movimento poético de “sensous thought” (Marz).
Três estágios são observados na meditação jesuítica:
i) Composição do cenário;
ii) Súplica ou análise de uma situação;
iii) Tentativa de comunicação com a divindade ou “exortação do devoto a si próprio, no sentido de um compromisso com seus bons propósitos.
São Francisco de Sales preconizava a prática da meditação cristão, à qual fora introduzido por Nicholas Ferrar, piedoso anglicano de Little Gidding. O livro de S. Francisco de Sales – “Introdução à vida devota” (1609) é inspiração para os católicos do séc. XVII na Inglaterra. Seria, segundo dona Aíla, “de natureza mais suave que a recomendada por Loyola em “Exercícios Espirituais”.

“A profundeza da concepção cristã da vida e o forte pendor espiritual entre os poetas metafísicos  – o humano, para eles, estando indissoluvelmente ligado ao divino – aproxima-os em sua inspiração, mais da poesia medieval (naturalmente em outra ambiência cultural) que da elisabetana; com esta, seus pontos de contato consistem no cunho erudito da arte que praticavam, na adoção frequente de certas formas poéticas – mormente o soneto -, no gosto pela imagística de navegação e descoberta de novas terras, no tema do efêmero da vida.” (Aíla de Oliveira Gomes).

Dois Poemas de Poesia Metafísica

1) John Donne – Preleção sobre a Sombra

Espera, que uma preleção eu vou te ler,
Amor, sobre o amor e sua filosofia.
Nessas três horas de nosso lazer,
Aqui vagando, um par nos precedia
De sombras, que eram por nós mesmos projetadas;
Ora o sol está a pino sobre nós, tu vês,
E nossas sombras, sob nossos pés;

E tudo se reduz à brava claridade.
Assim, ao que nosso amor infante crescia,
Nossas sombras, o nosso disfarce, sumia
De nós e nossos medos; mas avança o dia.

Nenhum amor atinge o seu mais alto grau
Enquanto a vista alheia teme, como um mal.

A menos que o amor no zênite haja parado,
Produziremos novas sombras do outro lado.
Se as primeiras servem a nos ocultar,
Aos outros cegando; estas, a atuar
Atrás de nós, é qual a nós mesmos cegar.
Se nosso amor definha e declina  no poente.
Tu a mim e eu a ti, falsamente,
Nossas ações deixamos se disfarcem
Entre nós. As sombras da manhã se desfazem;
Estas crescem sempre mais, todavia,
Pois, ai! se o amor se esvai, curto é o dia.

O amor é uma luz sempre crescente e constante;
Seu primeiro minuto após meio-dia é noite.

2) Henry Vaughan – Instante.

INSTANTE, poema de Henry Vaughan

Instante – poema de Henry Vaughan, trad. Aíla de Oliveira Gomes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte:


(1) Seg. Louis L. Marz, cit. by Aila de Oliveira GOmes.
(2) Poesia Metafísica / William Shakespeare…[et alli]; seleção, tradução, introdução e notas Aíla de Oliveira Gomes. – S. Paulo: Companhia das Letras, 1991.
1.Poesia Inglesa – Coletâneas I.Shakespeare, William, 1564-1616. II. Gomes, Aíla de Oliveira.
ISBN 85-7164-198-6.