Nesse domingo de Ramos, caminhando do hotel em direção à Igreja dos Agostinianos, em Viena, um vento com chuva fria me empurrava para a Missa, num cenário que mais se parece ao inverno do que à primavera anunciada.

Senti que o rosto de Deus é mais do que raios de sol ou gotas de chuva, do que estações que se alternam, mais do que pigmentos numa tela. Esse rosto pode ser visto na celebração, nos rituais e na música, é a própria tela.

Na Semana Santa de 2026, o cronista tem uma epifania com a música sacra em Viena, na Igreja dos Agostinianos.

Na igreja, me sinto mais próximo da alma do mundo e sou tomado por uma epifania, donde surge um sentido maior que aponta para uma ordem transcendente, para o Sagrado.

O pensamento sobre a dor e o degredo espiritual, que a guerra e o nazismo impuseram às pessoas que aqui viveram, dá lugar ao olhar e ao sentido da dor do sacrifício de Cristo que na Missa se celebrava.

Ao som de Mozart, a pedra fria em que me ajoelhei para rezar dissolveu-se em puro sentido, provando que o universo simbólico e o mundo da vida convergem para o altar. Ali, a música gerou uma compreensão superior, traduzindo o Evangelho em uma linguagem que o intelecto não domina, mas que o espírito reconhece como sua pátria definitiva.

A celebração seguiu um arco dramático que parecia narrar a própria existência humana transfigurada em Cristo. A doçura da música de Mozart acolheu os fiéis, aproximando-nos da graça. A entrada solene de metais e órgão, que se seguiu à leitura do Evangelho, elevou o rito a uma dimensão heroica, onde o som nos tirava o fôlego, como a própria afirmação de um mundo que resiste ao esvaziamento de sentido.

Então, me dei conta de que a arquitetura de pedra do templo e a arquitetura de vento e chuva se tornam uma só; pois a beleza, em sua forma mais majestosa, apresenta-se como uma prova irrefutável de que a vida possui uma ordem invisível e soberana. Ouvi a música das esferas celestes e me dei conta da minha pequenez.

O ambiente criado pela música demonstrava que a harmonia do universo revela uma inteligência ordenadora, algo que muitos filósofos identificam com o divino. Mesmo que não possamos ouvir essa música, nossa alma reconhece essa ordem como algo familiar e profundo.

Então, me dou conta de que homem é capaz de se imaginar tocando o sol, mas sua verdade última reside no reconhecimento da própria fragilidade diante do infinito; e aos 71 anos, entre o silêncio e o eco, compreendi que a epifania não estava na pompa do rito, nem na arquitetura do templo, mas na ressonância interna de uma harmonia que já preexiste no cosmos.

Ao sair da igreja para enfrentar o tempo fechado que prometia chuva, tinha a certeza de que o mundo ainda tem alma e ela se manifesta sempre que nos permitimos vibrar em sintonia com a música das esferas celestes.

Alheio à nuvem pesada que ainda prometia chuva, trazia comigo, de volta ao hotel, o peso do julgamento de Cristo – testemunhado na Missa, e a percepção aguda da insignificância do homem diante do Deus encarnado. Repetia baixinho o estribilho do hino de Bach: “Das profundezas da aflição, eu clamo a Ti.

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