Escrevo esta crônica ainda sob os efeitos do jet lag, com João Guimarães Rosa no pensamento:

O senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou (…) o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia…

Nossas viagens são precedidas de um longo planejamento, então começamos a travessia muito antes do embarque. Isso significa muitas leituras dos escritores da região a ser visitada.

Assim, vou acumulando lembranças ao longo dos anos e de tantas travessias em inúmeros recantos do Brasil e fora dele.

Quando finalmente partimos, levamos na bagagem (e trazemos de volta talvez até mais) novas histórias, nossas e de outros que vão nos encantando ao longo do percurso.

Como o escritor escocês Robert Louis Stevenson agradeço a Deus por “ser livre para vaguear, livre para ter esperança e livre para amar”, mesmo quando o viajante se dá conta de que “uma escura ansiedade está sentada em sua mochila”.

Valho-me da memória, que, como a preocupação, embarca em navios de ferro e cavalga atrás de quem parte.

Não é a primeira vez que viajo seguindo pegadas literárias. Alguns anos atrás procurei os caminhos de James Joyce em Trieste, cidade onde ele escreveu parte decisiva de sua obra. Já tentei reconhecer em Tóquio os cenários urbanos que atravessam os romances de Haruki Murakami. Também percorri o sul da Itália, na companhia de Leopardi, Vergara e Torquato Tasso.

Há algo de curioso nesse tipo de peregrinação literária: caminhamos por ruas muito concretas, mas sempre acompanhados pela ficção e seguido de perto por personagens, livros e anotações de memórias.

Nesta viagem, o caminho planejado começa por Frankfurt, cidade natal de Goethe, passa por Ratisbona, cidade ligada à trajetória intelectual de Joseph Ratzinger, nosso saudoso Papa Bento XVI.

Estaremos no meio da travessia ao chegar na cidade de Franz Kafka, Praga, onde suspeito que as ruas devem guardar ecos de histórias que nunca se resolvem inteiramente.

Se para Kafka um livro deve ser “o machado que quebra o mar congelado dentro de nós”, quem sabe esse mar de histórias se descongele ali.

Pretendo seguir rastros inversos de europeus que migraram para o Brasil, pouco antes ou durante a Segunda Guerra Mundial, como Paulo Rónai, Stefan Zweig e Vilém Flusser que no nosso país encontraram uma nova pátria.  

Suspeito que, entre uma caminhada e outra, será inevitável confirmar minha vocação de viajar para seguir rastros, atravessar memórias e descobrir que certas histórias sobrevivem aos personagens e ficam inscritas nas cidades. Concordo com Stevenson quando diz:

Viajo não para ir a algum lugar, mas para ir; viajo pela viagem em si. E para escrever a respeito depois, considerando que o público terá a condescendência de ler”.

Assim, vou reexaminando “biografias”, não apenas como um livro ou filme sobre a vida de alguém, mas uma espécie de procura, num rastreamento da trilha física de alguém através do passado, na perseguição de suas pegadas…”






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