Psicologia

Junguiana I


Carl G Jung
O que mais me atrai neste livro de Jung é seu profundo compromisso com a verdade. Seus sonhos e suas análises, seus relatos das passagens da infância me soam absolutamente verdadeiros. Ao redigir um texto sobre este amado livro, por provisório que seja, queria me sentir na pele do menino Carl entregando sua redação ao professor e certo de que havia sido absolutamente verdadeiro.

As reflexões que faço durante a leitura são persistentes. Torço para terminar o dia e me encontrar de novo com seus sonhos e reflexões. Vez por outra, no meio da estafante rotina comercial, flagro passagens dos sonhos dele a me espreitar desde o alto da divisória do escritório com uma inusitada e inconsciente idéia antiga, chamando-me para passear no campo, jogar pedras no lago, perder-me no cerrado da infância interiorana.

Hoje na cadeira da dentista (é, penso, ao final da sessão: eis-me de novo aqui, para depois, ouvir, vitorioso da minha dentista: viu, você sobreviveu!) pensei na situação que me leva a essa neura antiga. Meus nervos em frangalhos desde a véspera, deixam-me inabilitado para grandes tarefas. Sei que não resisto às sugestões de implantes, dolorosos desde a véspera, dolorosos desde o neles pensar como susceptíveis. Vejo as fotos desses místicos hindus, dedicados à sua vida espiritual e despreocupados com os dentes. Ei-los nas fotos da grande rede sorridentes, com os dentes em frangalhos, cacos de dentes sob uma montanha de espiritualidade.

Um episódio da infância em Anápolis, nos tardios 60, agora trazido pelas memórias jungianas leva-me à hora precisa em que comecei a ouvir o barulho característico dos motores das salas de dentistas (estes parecem não mudar nunca), enquanto levava meus irmãos menores ao consultório do doutor Edwards (doutor Vadinho, pra todos nós meninos do Abrigo).

Parece que não sou capaz de apagar aquela tarde da pacata Anápolis de minha adolescência, quando, ao sair do dentista, logo à frente do consultório esbarramos com um corpo de menino – quase da mesma idade daquele que eu tinha pela mão. Ele jazia no asfalto, o rosto coberto por uma folha de O Anápolis, o pavé ensangüentado, toda a gente em volta e ao lado em pânico com o atropelamento.

O sol da tarde absolutamente inerte nem apagar se apagou. Voltamos todo o percurso quase sem trocar palavra, o ônibus do Colégio. que nos levaria de volta ao Abrigo, era como se entrássemos nas velhas carroças puxadas por mulas fortes, que transportavam os caixões dos enterros que transitavam em frente à antiga casa de meu tio Adalberto, em Garanhuns.

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Post originalmente publicado no Verbeat, em 05.07.2006

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