
Sobre o deserto e o mar
Por Adalberto de Queiroz, para o Jornal O POPULAR
Depois de uma longa travessia, chegamos a Dubai, primeira etapa da nossa jornada em direção à China.
O jet lag castigou-nos como uma chibatada em nossas costas idosas e em nossos cérebros cansados. Ficamos inertes no hotel e só consegui sair para ir até um serviço de câmbio. Para evitar o sol, portava um boné e muito ânimo para enfrentar o calor.
Com alguns Dirhams no bolso e uma sede de camelo, voltei prometendo a mim mesmo não sair mais a pé nessa cidade.
Em Dubai, dominam a opulência e um “estilo novo-rico”, até na arquitetura. Um bom exemplo é o prédio Burj Khalifa, uma espécie de Torre de Babel pós-moderna. O excesso me faz sentir deslocado, mas aproveito o que me é ofertado como turista – excelentes hotéis e restaurantes onde os atendentes são gentis e cordiais.
Nessa cidade tudo é muito caro e dinheiro só não dá em arvores porque é espécie que não dá frutos no deserto. Vem-me à mente a frase: “Gastai, infiéis”, como uma espécie de contrassenha ao que os cristãos disseram aos muçulmanos nas Cruzadas: “Tremei, infiéis!”
Estamos no Ramadan que é o período de penitência e jejum dos muçulmanos que devem se abster até de água do nascer ao pôr do sol. Enquanto isso, podemos beber e comer à tripa forra desde que estejamos dispostos a gastar muito. This is Dubai! Nada que muito dinheiro não possa comprar.
O período de Ramadan que vivi quando mais jovem, em viagem ao Marrocos, não tem comparação com este. O Marrocos que eu visitei era um reino pobre e mais estressado pelas carências dos crentes: sem água, sem sexo, sem comida até o pôr-do-sol.
Da janela do quarto em Dubai, fotografei a paisagem ao crepúsculo, quando as mesquitas anunciam a hora de comer. Os restaurantes ficam lotados pois os islamitas contam com descontos generosos para o fiel comer com fartura, quase uma espécie de compensação pelo jejum prolongado.
Antoine de Saint-Exupéry, o escritor e aviador francês, imortal autor do Pequeno Príncipe, teria dito que a viagem (o deslocamento) é apenas o prefácio dos lugares que visitamos. Discordo do amável e destemido aviador francês, fundador do Correio Aéreo, que teve grande vínculo com a América do Sul e o Brasil.
Eu e Helenir sempre apreciamos o deslocamento quando feito por terra, como em nossas inúmeras viagens de carro pelo Brasil, Itália e nos Estados Unidos. Encaro ficar inúmeras horas em uma aeronave mais como um preço a pagar para chegar ao destino, ao contrário de Exupéry que pilotava sozinho um equipamento sem recursos. E, no entanto, o bravo francês dizia em carta: “mãezinha, vou ali numa viagenzinha – cinco mil quilômetros sobre o deserto e o mar…” e partia para enfrentar as dificuldades de seu equipamento precário e a sanha dos berberes que queriam que o avião tivesse uma pane no deserto para que fossem feitos reféns…
Não é o caso agora de viajar num Airbus com comissários de bordo que ao todo dominavam dezenove idiomas. Em terra é bem parecido. Com 95% da população constituída por estrangeiros, em Dubai se concentra uma amostra do mundo. Achei divertido tentar decifrar a nacionalidade de turistas e atendentes, tal a diversidade de sotaques, fisionomias e comportamentos.
Estudei um pouco a história e o crescimento da região. Isso não me deixou nem um pouco mais à vontade com Dubai. O desconforto diante do exageradamente rico e opulento, no meio de uma Pax arábica, me põe em sobressalto, sabendo que o primeiro nome da região foi “Costa dos Piratas” e só em 1971 se unificou como Emirados Árabes Unidos.
Mas o deserto já ficou para trás; e, agora, encaramos outra realidade bem mais amena, diante da primavera que se anuncia em Hong Kong. Com a paisagem das pequenas ilhas, coloridas com o pôr do sol e com suas roseiras florindo, o perfume da China já se anuncia acolhedor.

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