O amor é um farol permanente
Por Adalberto de Queiroz, especial para O POPULAR.

Se o amor em linhas gerais infunde simpatia e sentido à história, sobre cujo fim vogam inexatidões, convindo [aceito que] se componham; o amor e seu milhão de significados

– Hoje me convém recordar esta citação de uma leitura antiga, feita há meio século, mas ainda presente e válida. A frase de um livro de Guimarães Rosa está anotada num velho diário que iniciei durante as férias do distante janeiro de 1974.

Naquele ano, eu retomava as atividades do curso de Física, estudando Cálculo, Desenho Técnico, Geometria Analítica etc., mas entre as exatidões dos estudos, a mente, com suas incertezas, tentava seguir o coração que pulsava forte e voava longe na procura pelo Afeto.

Não me importava muito se a Seleção brasileira viria a perder o campeonato mundial de futebol de 1974, disputado na Alemanha; e só por um momento me alegrei com o presidente Geisel lançando grandes obras como a hidrelétrica de Itaipu, a ponte Rio-Niterói e a Rodovia Transamazônica.


A política não me interessava, embora soubesse que havia uma guerra quase civil que se encerrava naquele ano. O que eu buscava era um lugar ao sol, mesmo me sentindo muito só em Goiânia e no mundo, como no poema de Drummond: “sozinho no quarto/(…)sozinho na América”. Também este cronista “precisava de mulher/que entrasse neste minuto, /recebesse este carinho, /salvasse do aniquilamento/um minuto e um carinho loucos/que tenho para oferecer.

E de uma forma meio torta o destino começava a agir para transformar os rumos que minha vida tomava.

Meu amigo Ivo, colega duas vezes – na UFG e como morador da CEU –, queria me apresentar uma amiga da namorada dele, o que faria de nós um quarteto de jovens sonhadores na difícil vida na Capital naquela época.

Racional como todo estudante de engenharia, Ivo encorajou o jovem tímido que eu era a me aproximar da moça: ela gosta muito de ler, é inteligente, baixinha e cheia de personalidade – argumentou. Mas antes que ele nos apresentasse o destino nos colocou sentados lado a lado numa aula de Cálculo onde se misturavam os alunos da Física e da Engenharia.

Quando Ivo nos apresentou ela comentou de pronto: já o conheço! É o rapaz da voz bonita. Nas memórias dela, no livro “De um jeito ou de outro” (2020) o leitor fica sabendo que teria sido minha voz que a fez olhar com atenção para o jovem magro e de cabelos longos sentado ao seu lado.

Única garota da Engenharia Elétrica à época e com um namorado rico, eu certamente não teria nenhuma chance, mas a literatura sempre opera milagres nos romances e na vida real.

Numa manhã gelada de final de maio, ao estilo de cena de filme, em câmera lenta, coloquei minha jaqueta nos ombros dela, para protegê-la do frio, enquanto esperávamos a chegada do ônibus. Foi golpe baixo, mas fazia parte do jogo de xadrez da conquista.

Em pouco tempo, eu já me havia rendido ao charme discreto da musa que ela passou a ser e estava encantado demais com a possibilidade de conquistá-la; o que tornava os detalhes secundários. A partir daí, passamos a nos encontrar nos intervalos das aulas para falarmos de Balzac, de Stendhal, de Drummond e dos nossos sonhos. Pouco mais de um ano depois estávamos nos casando em um compromisso que mudaria radicalmente e para melhor a minha vida.

Quando penso neste meio século de relacionamento, lembro-me do soneto 116 do poeta inglês William Shakespeare, que serve neste caso como síntese poética, por isso encerro transcrevendo alguns versos, em tradução livre:

“O amor é um farol permanente, tempo afora/Que enfrenta os temporais, fazendo-se invencível/É a estrela para as naus, cujo poder se ignora, / O amor não é joguete em mãos do tempo(…) Não muda em dias, não termina em uma hora, /Porém até o final das eras se prorroga.”

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