Paulo Hecker Filho (2)

“Sei que os fatos nos atravessam como a água aos campos – sumindo… Mas deixam atrás uma verde novidade, delícia dum momento, embora! delícia.

“Cadernetas [em viagens]… são ladras da vida.
“[se]só restar da vida o que ficou nas cadernetas, ou muito pouco, sensações esparsas surgindo súbito em recordações que as desfiguram, manchando-as da emoção de as termos tido nalgum dia irrecuperável.

“Só me consolava a frase de Ciro dos Anjos:  `Carlota, a vida é um tecido de equívocos`…

“Sinto-me em estado de prece, isto é, cansado. Menos corporalmente que no tempo.

“A cidade está cheia de gente. Pela primeira vez [viagem a B.Aires]. Dizer que está cheia de gente, que chuva de êxtases! Sou capaz de ser Buenos Aires inteira; e como te agradeço a sensação, meu ilimite.

“A amizade também amanhece com o dia.
“Agora no avião não há mais nada; Buenos Aires cada vez mais longe, mais longe… Enxuga-se meu lirismo da noite de ontem, hoje de madrugada, assobiando aquele blue pelas ruas frias, apalpando sôfrego as paredes, espetada na garganta a angústia de deixar tudo aquilo, de partir…Ah, não estar mais ali, nunca mais, ainda que volte outra vez e espalme de novo a mão numa das janelas da Confiteria Cabildo – essa mesma em que escrevi que ia ver “Las Burlas Veras” de Lope [de Vega], todo trêmulo da emoção de conhecer – e recolha a mão cheia de pó, bendito pó de saudade e distância, estrangeiro e noite, e a deixe sem limpar imediatamente, sentindo-a pesada dum querido resquício da cidade que ia me escapar, que me escapava…
“Balbuciava “Buenos Aires… Buenos Aires…” entre os gritos que o blue plantava em minha alma. E nas lágrimas que eu não vertia se concentrava um amor que alguns dos teus filhos, cidade, terão tido por ti. Alguns dos teus filhos…
“E eu ia me embora, já estava indo, algumas horas, instantes nos enlaçavam! E tudo que eu não mordera em ti, cidade, tudo que não soubera ver e nem sequer tive tempo de olhar, parecia se transformar nos olhos úmidos das tuas lâmpada num último apelo de amante sequiosa, num desnudar-te, num ferir em mim a fraqueza destes braços que impossivelmente te abraçariam! (…)
ψ
“Ficção é exemplo, e a razão do romance exemplificar com a verdade. Um Madame Bovary é uma encruzilhada de caminhos heróicos, em que os próprios Homais o são até o heroísmo, até a arte. Por que escrever romances senão para transcender a realidade numa atmosfera respiravelmente heróica? Para que escrevê-los senão para ensinar aos homens um modo de respirá-la?
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Fonte:
HECKER Filho, Paulo. A Alguma Verdade: Crítica e autocrítica, Porto Alegre, Ed. do Autor, 1952.

Paulo Hecker Filho (1)

Lendo com encantamento “A Alguma Verdade”.
Enfim, encontro alguém que leu, entendeu e amou (1) Bloy, Schmidt, Jorge de Lima, Unamuno, Pascal, Scheler, Dostoievski, Gide, Otávio de Faria et beaucoup d´autres, entre nós, brasileiros…
Um crítico que é difícil de ser clonado ou reeditado no cenário da literatura atual (2).
Post-post :
(1) A frase deveria ser “parece ter lido“, mas a empolgação do início da releitura me fez gravá-la (e grafá-la) assim e assim fica.
(2) Que crítica? A pergunta ficou ecoando em minha mente por muito tempo, mas fica também a idéia de que a formação literária, a generosidade e a independência de PHF é única e não tem ambiente para ser reproduzida. Como acho difícil reproduzir o modelo literário dos escritores citados logo no início de “A Alguma Verdade” – que tanto me entusiasmaram a continuar na (re)leitura (alguns trechos novos; outros dos anos 80): Bloy, Schmidt, Jorge de Lima, Unamuno, Pascal, Scheler, Dostoievski, Gide…
(3)Depois desse micro-post inicial, que deveria ser quase uma legenda para uma entrada da “blipfm” (na verdade um reblip), achei um conhecido de muitos anos atrás (diria um conhecido de minha juventude), ambos cinquentões hoje e distantes há muito tempo, que é um verdadeiro escriba e que tem (ele sim) o que dizer de Paulo Hecker – e o faz com muita propriedade. Deliciem-se meus 3 leitores com esse texto: PAULO HECKER FILHO OU A ÉTICA DO NÃO.
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Op.Cit.: HECKER Fº, Paulo. A Alguma Verdade: Crítica e autocrítica, Porto Alegre, Ed. do Autor, 1952.