No mínimo…#12

JOÃO CABRAL DE MELO NETO em inglês, versão de autoria de Gallway Kinnell*.

Dando sequência à série de poemas e mais motivado por essa notícia lida hoje cedo, transcrevo mais um poema do mestre Cabral, da Antologia organizada por Elizabeth Bishop e Emanuel Brasil (1972).

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Da Antologia “Brazilian Poetry”, An Anthology of Twentieth-Century, Bishop & Brasil, 1972, p.150/51. 

No mínimo…#11

ManuelBandeira_thumb.jpgMANUEL BANDEIRA (1886-1968), poema vertido ao inglês por Elizabeth Bishop.

O ÚLTIMO POEMA MY LAST POEM
Asssim eu queria o meu último poema I would like my last poem thus
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos
intencionais
That it be gentle saying the simplest and least
intended things
Que fosse ardente como um soluço de                                                     lágrimas That it be ardent like a tearless sob
Que tivesse a beleza das flores quase sem                                              perfume That it have the beauty of almolst scentless                                                          flowers
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos The purity of the flame in which the most limpid Diamonds are consumed
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação. The passion of suicides who kill themselves without explanation.

Esta Antologia provê uma visão de 14 poetas brasileiros notáveis à altura da publicação (1972), de uma geração que os editores intitulam “Modern Generation” e da Geração do pós-guerra (A Geração de ’45). De Manuel Bandeira a Ferreira Gullar, a antologia contempla aqueles poetas que passaram na seleção de leitura da “estrangeira” Bishop vivendo no Brasil, com a sua sensibilidade poético-cultural aguçada. Incluir Marcos Konder Reis entre os 14 seletos, parece um critério advindo do grupo de convivência da poetisa e de sua companheira Lota de Macedo Soares, quem sabe?!

Constata-se que Bishop e Emanuel Brasil conseguem uma visão interessante, embora não abrangente da poesia brasileira, para americano v(l)er, reunindo diversos tradutores – entre eles Ashley Brown que encarou com êxito a versão para o inglês de alguns trechos de Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto.

Ainda na mesma antologia, temos 20 poemas de João Cabral de Melo Neto (incluindo os trechos de Morte e Vida), vertidos ao inglês por diferentes poetas (e tradutores) norte-americanos. Cabral é o mais aquinhoado na antologia e isso porque deve ter correspondido ao que mais agradou a Elizabeth Bishop – em sua descoberta do nosso país – onde viveu por mais de 15 anos, aprendendo a ler e a escrever nosso idioma (a falar nem tanto, como dizia em carta a amigos).

Quem sabe em futuro próximo, volte com outras transcrições? Por ora, fica o Bandeira acima e esta imagem “scanned” de A Educação pela Pedra, traduzido por James Wright.
CabralEm Ingles By Wright


Fonte: An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry”, Edição e introdução de Elizabeth Bishop e Emanuel Brasil. Trad. Bishop et alli. Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut, 1972; p.2/3.

Coisas de Cabeceira, Recife & Sevilha: Tecendo a Manhã

Capa_Antologia Cabral

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
Que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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Coisas de Cabeceira: Recife
Diversas coisas se alinham na memória
numa prateleira com o rótulo: Recife.
Coisas como de cabeceira da memória.
a um tempo coisas e no próprio índice;
e pois que em índice: densas, recortadas,
bem legíveis, em suas formas simples.
2
Algumas delas, e fora as já contadas:
o combogó, cristal do número quatro;
os paralelepípedos de algumas ruas,
de linhas elegantes, mas grão áspero;
a empena dos telhados, quinas agudas
como se também para cortar, telhados;
os sobrados, paginados em romancero,
várias colunas por fólio, imprensados.
(Coisas de cabeceira, firmando módulos:
assim, o do vulto esguio dos sobrados).
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Coisas de cabeceira: Sevilha
Diversas coisas se alinham na memória
Numa prateleira com o rótulo: Sevilha.
Coisas, se na origem apenas expressões
De ciganos dali; mas claras e concisas.
A um ponto de se condensarem em coisas,
Bem concretas, em suas formas nítidas.
2
Algumas delas, e fora as já contadas:
não esparramar-se, fazer na dose certa;
por derecho, fazer qualquer que fazer,
e o do ser, com a incorrupção da reta;
con nervio, dar a tensão ao que se faz
da corda de arco e a retensão da seta;
pies claros, qualidade de quem dança,
se bem pontuada a linguagem da perna.
(Coisas de cabeceira somam: exponerse,
fazer no extremo, onde o risco começa).
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Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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FONTE: Poemas da Antologia “Poesias Completas: João Cabral de Melo Neto”, Ed. José Olympio, 1979, 3a.ed.

Poesia Falada – Poemas de João Cabral de Melo Neto

SEGUIDA DE ALGUNS POEMAS.

A Educação Pela Pedra (1)
*******

A trilha sonora – graças a GooglePlay com Sérgio Ferraz.
Suite Ibérica – Sérgio Ferraz.

Sérgio Ferraz

Suíte Ibérica


Começar do ‘zero’

Uma página em branco é sempre desafio para quem escreve.
“Pain – has an element of Blank –
It cannot recollect
When it begun – or if there were
A time when it was not – *
(…)


É uma história já tão repetida que os sucessivos sofredores, frente ao mesmo problema, se repetem.

Minha referência continua sendo o poema de João Cabral de Melo Neto – que assim reza:

“Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.”

Como começar? Eis o Poeta a tudo desenhando, com a economia das palavras, o incêndio de suas páginas ou – como dizer até em meio ao cuspe, em meio às fezes, aos fluídos todos do Humano; e as flores do bem do mal se abrem, do inusitado Nada d’alma que se torna Tudo – que advém do Todo.

Só assim o poeta pode ousar escrever “a terceira das virtudes teologais” – com a discrição de quem sequer tem direito de dizer em voz alta: Amor, Caridade. Age o poeta como quem acende uma candeia, no dizer humilde e grandioso da poetisa Sônia Maria dos Santos ao justificar (se justificativas fossem necessárias) o título “Lúcida Chama”, livro lançado ontem…

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Eis-nos diante da página em branco.

Folha em Branco. Blanche. Blank...Vida!

TAMBÉM no comércio e nas atividades empresariais há um símile da “página em branco” Cabralina…

Quando se inicia um negócio, é preciso ter uma idéia.
Eis que esta surge como se estivesse o empreendedor diante de uma página em branco. Blank.
Por onde começar?
Há outra página em branco, quando o empreendimento falha. O que faliu sabe do que estou falando…
Grandes empresas às vezes contratam empreendedores que faliram para mostrar aos bem-postos em cargos nada vitalícios o que evitar e o que aprender com quem já enfrentou duas vezes o “Blank”.

O que inicia está diante da página em branco de que nos fala o poeta, ao fazer o plano de negócios.
Este é seu “poema”. Este é o plano humano, à imagem e semelhança do divino plano.
@the end.
O que foi à falência, está de novo diante da bendita página.
Há que buscar forças interiores para enfrentar “uma nova e inusitada página em branco“.
A que “proscreve o sonho” – ou a que o prescreveBroken heart(u)?
Nos dois casos não pode ‘dar branco‘, o desafio da página se deixa conduzir pelo sonho. O agente quase enlouqueceu.

Essa dimensão do sonho (ou do pesadelo), tem entre os índios xavantes, em sua rotina de sonhadores, uma interpretação assim:

Com o sono eu sonho
     Durmo e sonho
Os outros vão cantando

Eu sonho pra tornar felizes
  Os outros que cantarão
           meu sonho
     Eu durmo e sonho
O que os outros cantarão.*

Se isso me fez aplicar à poesia – em meu primeiro livro individual “Frágil Armação”, não deixa de ser verdade para os empreendedores. É preciso convencer o(s) Outro(s) a embarcar com você, se sonha realizar algo coletivo. A inteligência coletiva já é um passo adiante. Por ora, é preciso reter a dimensão do sonho que se sonha xavantinamente…Como um xamã que prepara a cura, como um pajé que prepara a festa ou a guerra.
Sonhar o que os outros irão cantar, costurar, desenvolver, ler, escrever, teclar etc. etc. – eis uma tarefa de poeta e empreendedor.
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*Citação-legenda do livro “Frágil Armação”, de minha autoria, Edit. Barão de Itararé, 1985.
(*)Post-post – o poema de Emily Dickinson foi assim traduzido por dona Aíla de Oliveira Gomes:

A dor – tem um elemento em branco.
Desde quando doi
Não se recorda, nem se houve
Tempo em que ela não foi.

Seu futuro – só ela mesma;
Seu infinito contendo
O seu passado – que deixa ver
Novos períodos – doendo.
**********************************
DONA Aíla explica no prefácio que

Emily passava pela crise maior de sua vida, e sentiu, com segura intuição, que só a atividade criadora a salvaria de queda num vazio fora do tempo e do espaço, e já além da dor: “Pain has an element of blank”, diria ela. Esse “em branco” [blank], ela só podia enchê-lo com poesia – ou perder-se nele. (…). 

Começar do ‘zero’

Uma página em branco é sempre desafio para quem escreve.
“Pain – has an element of Blank –
It cannot recollect
When it begun – or if there were
A time when it was not – *
(…)


É uma história já tão repetida que os sucessivos sofredores, frente ao mesmo problema, se repetem.

Minha referência continua sendo o poema de João Cabral de Melo Neto – que assim reza:

“Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.”

Como começar? Eis o Poeta a tudo desenhando, com a economia das palavras, o incêndio de suas páginas ou – como dizer até em meio ao cuspe, em meio às fezes, aos fluídos todos do Humano; e as flores do bem do mal se abrem, do inusitado Nada d’alma que se torna Tudo – que advém do Todo.

Só assim o poeta pode ousar escrever “a terceira das virtudes teologais” – com a discrição de quem sequer tem direito de dizer em voz alta: Amor, Caridade. Age o poeta como quem acende uma candeia, no dizer humilde e grandioso da poetisa Sônia Maria dos Santos ao justificar (se justificativas fossem necessárias) o título “Lúcida Chama”, livro lançado ontem…

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Eis-nos diante da página em branco.

Folha em Branco. Blanche. Blank...Vida!

TAMBÉM no comércio e nas atividades empresariais há um símile da “página em branco” Cabralina…

Quando se inicia um negócio, é preciso ter uma idéia.
Eis que esta surge como se estivesse o empreendedor diante de uma página em branco. Blank.
Por onde começar?
Há outra página em branco, quando o empreendimento falha. O que faliu sabe do que estou falando…
Grandes empresas às vezes contratam empreendedores que faliram para mostrar aos bem-postos em cargos nada vitalícios o que evitar e o que aprender com quem já enfrentou duas vezes o “Blank”.

O que inicia está diante da página em branco de que nos fala o poeta, ao fazer o plano de negócios.
Este é seu “poema”. Este é o plano humano, à imagem e semelhança do divino plano.
@the end.
O que foi à falência, está de novo diante da bendita página.
Há que buscar forças interiores para enfrentar “uma nova e inusitada página em branco“.
A que “proscreve o sonho” – ou a que o prescreveBroken heart(u)?
Nos dois casos não pode ‘dar branco‘, o desafio da página se deixa conduzir pelo sonho. O agente quase enlouqueceu.

Essa dimensão do sonho (ou do pesadelo), tem entre os índios xavantes, em sua rotina de sonhadores, uma interpretação assim:

Com o sono eu sonho
     Durmo e sonho
Os outros vão cantando

Eu sonho pra tornar felizes
  Os outros que cantarão
           meu sonho
     Eu durmo e sonho
O que os outros cantarão.*

Se isso me fez aplicar à poesia – em meu primeiro livro individual “Frágil Armação”, não deixa de ser verdade para os empreendedores. É preciso convencer o(s) Outro(s) a embarcar com você, se sonha realizar algo coletivo. A inteligência coletiva já é um passo adiante. Por ora, é preciso reter a dimensão do sonho que se sonha xavantinamente…Como um xamã que prepara a cura, como um pajé que prepara a festa ou a guerra.
Sonhar o que os outros irão cantar, costurar, desenvolver, ler, escrever, teclar etc. etc. – eis uma tarefa de poeta e empreendedor.
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*Citação-legenda do livro “Frágil Armação”, de minha autoria, Edit. Barão de Itararé, 1985.
(*)Post-post – o poema de Emily Dickinson foi assim traduzido por dona Aíla de Oliveira Gomes:

A dor – tem um elemento em branco.
Desde quando doi
Não se recorda, nem se houve
Tempo em que ela não foi.

Seu futuro – só ela mesma;
Seu infinito contendo
O seu passado – que deixa ver
Novos períodos – doendo.
**********************************
DONA Aíla explica no prefácio que

Emily passava pela crise maior de sua vida, e sentiu, com segura intuição, que só a atividade criadora a salvaria de queda num vazio fora do tempo e do espaço, e já além da dor: “Pain has an element of blank”, diria ela. Esse “em branco” [blank], ela só podia enchê-lo com poesia – ou perder-se nele. (…).