Leituras da Quaresma 2012

LENDO BENTO XVI sobre “Jesus de Nazaré”, descobrimos isso:
(…) Não há nenhuma oposição entre S.Mateus, que fala dos pobres segundo o espírito, e S. Lucas, segundo o qual o Senhor se dirige simplesmente aos ´pobres`.
Foi dito que S.Mateus teria espiritualizado o conceito de pobreza que segundo S.Lucas seria originariamente entendido de um modo material e real, e assim tê-lo-ia despojado da sua radicalidade.

Quem lê o Evangelho de S. Lucas sabe perfeitamente que precisamente este evangelista nos apresenta os ´pobres em espírito`, que eram por assim dizer os grupos sociológicos nos quais o caminho terreno de Jesus e da sua mensagem poderia tomar o seu início. E é inversamente claro que S. Mateus permanece totalmente na tradição da piedade dos Salmos e, assim, na visão do verdadeiro Israel, que nela encontrou sua expressão.

“A pobreza de que aqui se trata não é um fenômeno simplesmente material. A simples pobreza material não redime, ainda que certamente os preteridos deste mundo possam contar, de um modo muito especial, com a bondade de Deus. Mas o coração daqueles que nada possuem pode estar endurecido, envenenado, ser mau interiormente cheio de cobiça pela posse das coisas, esquecendo-se de Deus e cobiçando as propriedades externas.

“Por outro lado, a pobreza de que lá se fala também não é uma simples atitude espiritual. É evidente que a atitude radical que nos foi e nos é apresentada por tantos verdadeiros  cristãos, desde o pai do monaquismo Stø. Antão até S. Francisco de Assis; e até os exemplarmente pobres do nosso século não é obrigatória para todos.

Mas a Igreja precisa sempre, para estar em comunhão com os pobres de Jesus, dos grandes renunciadores; ela precisa das comunidades que os seguem, que vivem na pobreza e na simplicidade e que assim nos mostram a verdade das bem-aventuranças, para sacudir a todos para que estejam despertos, para compreenderem a propriedade apenas como serviço, para contraporem à cultura do ter uma cultura da liberdade interior e assim criarem os pressupostos para a justiça social.

“O Sermão da Montanha como tal não é nenhum programa social, isto é verdade. No entanto, somente onde estiver viva no pensar e no agir a grande orientação que ele nos dá, somente aí onde a força da renúncia e da responsabilidade para com o próximo e para com tudo vier da Fé, somente aí pode crescer a justiça social. E a Igreja como um todo deve manter-se consciente de que deve permanecer reconhecível como a comunidade dos ´pobres de Deus` Como o Antigo Testamento se abriu a partir dos pobres de Deus para a renovação da nova aliança, assim também toda a renovação da Igreja deve partir daqueles nos quais vive a mesma decisiva humildade e a mesma bondade disponível para o serviço.” (…)

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Fonte: RATZINGER, Joseph (Bento XVI, Papa). “Jesus de Nazaré”, 1a. parte, trad. J.J Ferreira de Farias. S. Paulo, edit. Planeta do Brasil, 2007, pág. 81/82.

O profeta do Pai

O evangelho deste 4o. domingo do Tempo Comum (Lc 4, 21-30) nos leva a pensar sobre o profeta que não é bem recebido em sua própria terra. Seria como pensar sobre o ditado brasileiro: “santo de Casa não faz Milagre“.
Milagres?
– Jesus, O Cristo, os fez. E por isso, os circunstantes estavam maravilhados. Até que Ele completa o discurso sobre o tema do profeta que não tem crédito em sua própria terra “Eu vos asseguro: nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra”. E reabilita os exemplos de Elias e Eliseu.

Então, ocorre a virada da recepção da platéia, que passa da apreciação à insatisfação (sua audiência no Templo, no tempo, hoje…).
Contra tudo e todas as circunstâncias, Jesus termina seu discurso e, inclusive, como relata Lucas, foge à agressão iminente dos insatisfeitos com sua ação: “passando pelo meio deles“.

O problema humano aqui é a insatisfação com a verdade: a interpretação que o Cristo dá à leitura da ação dos profetas expõe a sua fala inicial, pois, inicialmente há um encantamento com a leitura e a linguagem e, logo depois, um desancantamento e uma perseguição.

(É provável que a interpretação de um leitor privilegiado como mestre René Girard – ou César Miranda, profeta em nossa terra – devem lançar mais luz sobre esse trecho do Evangelho. Nosso jovem padre, em sua homilia, com suas limitações, não abarcou isso, tampouco tem esse blogueiro tamanha pretensão, senão explicitar um encantamento.

Eis esboçada, no entato, o que pra mim é a essência das leituras deste quarto domingo do Tempo Comum.
Viva Nosso Senhor Jesus Cristo!
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