Ao nosso amor, poema em destaque

Fiquei muito feliz com este destaque dado pelo site do Instituto Cultural Sicoob ao meu poema (Ao nosso amor).
Para ler o poema, clique na figura abaixo.

Canto de Leitura Sicoob_Poema.png

Ao nosso amor…

                              Ao nosso amor_Poema Beto.png             à Helenir Queiroz.

Nada importa menos ao nosso amor
que a ingênua rima em flor – rosa nomeada.
Pouco importa, ainda que um soneto –
pouco importa a forma exata, a rima
ao nosso amor pouco importa.

Nada importa, amor, se lhe dou forma
no leito, em lugar e fora de hora
se cedo ou tarde, não importa,
se madrugada clara ou à nona hora.

Nada importa menos ao nosso amor
o tempo que sem cessar conforma
o outro ao desalento, ao desamor –
ao nosso amor pouco importa.

Ao nosso amor nada importa

menos. Pois, sem cessar, ele se conforma
ao leito como o rio ao que a chuva forma.

Ao nosso amor pouco importa o som
dos outros, a balbúrdia, bailado ou alaúde
pois a todos ele contorna: ao amor, à paz
volta-se; ao aconchego sem alarido; e amiúde
nosso amor pouco se importa
com o que se passa lá fora…

Nada em nosso amor seja triste
pois que à lágrima opor-se-á o vento –
no silêncio de nossas madrugadas estelares.

Só nós dois, amor, resistimos sob a chuva
ao frio e ao calor – entrelaçados, sim;
não importa – nada – amor, nem goteiras

de um telhado antigo e sob a chuva;
um pistilo se anunciando calmo,
um que duas estalactites soam:
plânctons, íons, átomos de um só.

Pouco importa ao nosso amor a morte.
./.


Goiânia, 31/5/17.

 

Ao nosso amor_Poema JUN2017.png

Quando dor rima com amor: salva-nos Emily Dickinson

Mes chers amis,
Numa semana em que passei frequentando médicos e clínicas, fazendo exames e sendo paciente em cada espera de hospital, pensei em minha poeta predileta por muitas vezes.

Pain has an element in blank”  declara Emily em poema já transcrito aqui. E se dor de amor ou dor real, não importa, minha tradutora predileta informa que o sintagma “blank” só veio a ser traduzido por “em branco” por tropeço e explica: “porque blank é espaço vazio, lacuna, frequentemente espaço não impresso ou escrito. Mentalmente, é um apagamento, um lapso subjetivamente sofrido. Referindo-se a atitudes e reações pessoais, significa também ´sem expressão`, sem sinal de receptividade, de compreensão ou interesse.

Pronto, eis-me definido nessa semana de corredores e cama de hospital e vai-e-vem de clínicas. Embora, eu próprio penso que dona Aíla tenha até razão se levarmos em conta a gíria “me deu um branco…” por causa da dor. No meu caso, esta era bem real e incomodava. Fui a médicos, pacientemente. Neste fim-de-semana, além da enorme solidariedade de amigos, repouso em casa, com um diagnóstico da dor e um tratamento longo pela frente.

Abandono minhas queixas e penas e vos deixo com Emily falando de Amor, de forma sempre admirável. Um bom fin-de-semaine a todos! (AQ).

Emily Dickinson, "Love"
Emily Dickinson, Love, trad. Aíla de Oliveira Gomes.

Post-Post: No domingo, dia 20.08.11, quando recebi a edição 2231, me deparei com a matéria de capa sobre “Dor, a aflição crônica de 40 milhões de brasileiros…” (dor física, não de amor, que essa se conta em outros tantos milhões). E, para minha agradável surpresa, a jornalista Giuliana Bergamo abre a longa reportagem justamente com Emily Dickinson, especialista em rimar Amor e Dor e, de quebra cita João Cabral de Mello Neto, nosso poeta especialista em dor real. Fico feliz que novos repórteres citem poetas (e filósofos, como o maluquinho do Friedrich N.) em seus artigos.
A quem interessar possa, a matéria citada esta nessa edição nr. 2231, de 24.AGO.2011, pág. 92-98.


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(*) Fonte: “Emily Dickinson uma Centena de Poemas”. Tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes. T.A.Queiroz/USP. S.Paulo, 1984, pág. 120/21. A observação sobre a tradução de “Pain” está no livro de dona Aíla (op.cit), pág.197. Para ouvir este e outros poemas de Emily D., clique neste link LibriVox.