Hermann Broch (I)

“(…) Toda pessoa que realiza um trabalho de valor adquire certo direito a ser chamado de artista” – do simples escriturário ao grande general ou um bem-sucedido homem de negócios, todos eles “realizam sua atividade de uma forma que, “em certo sentido podemos dizer “artística”.

Essa afirmação do ex-industrial, engenheiro têxtil e escritor austríaco coincide com a afirmação de Santo Tomás quando fala sobre o ofício do sábio e o liga às ‘artes’ (ofícios) e à sua ordenação:

“…Todos quantos têm o ofício de ordenar as coisas em função de uma meta devem haurir desta meta a regra do seu governo e da ordem que criam, uma vez que todo ser só ocupa o seu devido lugar quando é devidamente ordenado ao seu fim, já que o fim (finalidade) constitui o bem de todas as coisas…

 

“Assim também acontece no setor das artes. Constatamos, efetivamente, que uma arte, detentora de um fim, desempenha em relação a uma outra arte o papel de reguladora e, por assim dizer, de princípio. A medicina, p.ex., preside à farmacologia e a regula, pelo fato de que a saúde, que é o objeto da medicina, constitui a meta ou o objetivo de todos os remédios cuja composição compete à farmacologia. (…)

E assim, S. Tomás conclui por chamar de sábios (artistas) o mestre dos mares (o piloto dos navios), o construtor destes, o grande general, a cavalaria e os fornecimentos militares, os arquitetos … e os mestres dos ofícios que presidem os demais, a esses denomina Tomás ‘arquitetos’ que fazem jus ao nome de sábios… mas isso é outra estória (para a qual voltarei em breve!). Cito, repentindo Tomás: I Cor. 3:10-11 quando S.Paulo afirma de si mesmo (com a humildade ou loucura dos santos!) que “Segundo a Graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao Fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo.”

E Louvado Seja N.Senhor Jesus Cristo!

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Fontes: BROCH, Hermann. “Poesia e Investigacion”. Barral Edit., Barcelona, 1974. pág.406-7. DE AQUINO, Santo Tomás (e Dante Alighieri). Ed. Nova Cultural. Trad. Luiz J Baraúna, S.Paulo, 1988, pág. 59/60.

De um Dante a outro, o dom da Poesia ou: Alighieri traduzido por Dante Milano

QUANDO UM AMIGO, mesmo que ‘virtual’, nos leva a retirar um livro da estante, é um momento importante para retomarmos leituras antigas e queridas, que fizeram parte de certa fase de nossas vidas. É quando reler é reviver. Dia desses foi meu amigo Juan Asensio, crítico francês que me trouxe de volta o universo de Guimarães Rosa, com seu artigo sobre o universal escritor das Minas Gerais, que sendo relido em França me animava a retirar volumes da estante e reviver momentos bons de minha vida de leitor faminto e nem sempre tão atento às nuances como Asensio o é.

AGORA É A MEG – blog SubRosa, referência para toda blogsphere que ama e respeita os livros e a cultura em geral. Quando completa 10 anos de blog, MEG nos premia com um convite a reler Dante Milano.

RETIRO da estante meu empoeirado Dante Milano DSC01410e com ele, os cantos do bardo italiano traduzidos pelo poeta brasileiro.
Se a MEG já nos brindou com alguns bons poemas, cabe-me transcrever algumas traduções e com elas a aula de carpitaria do humilde tradutor do outro imortal Dante, o Alighieri.
Sabe-se que Milano só veio a publicar aos 50 anos e, mesmo tardio, ganhou elogios de Manuel Bandeira, que nele reconheceu “um grande poeta” e a “garra de um mestre”. As traduções, publicou-as Milano nos suplementos “Autores e Livros” e nos “Cadernos de Cultura” (do Mec). Essa 3a. edição, de que me sirvo para este post é de 1971, exemplar numerado (0678), com prefácio de Sérgio Buarque de Hollanda, intitulado “Mar Enxuto”, que por primeiro aparecera no Diário de Notícias de 6 de março de 1949, saudando a publicação do volume de Poesias de Milano que fora publicado originalmente pela José Olympio em 1948.
Como o foco aqui não é transcrever a poesia de Milano e sim suas traduções, adicione-se que suas notas de introdução aos Cantos é antológica:
“SEI o muito que custa e o pouco que vale o esforço, entre os vários feitos em nossa língua, para traduzir o célebre Canto V do Inferno, os terríveis tercetos em que perpassa o frêmito de uma paixão que se tornou imortal.
”É enorme a diferença entre o verbo forte e ás
pero de Dante e a nossa língua de índole branda. Para evitar más interpretações devo dizer que, longe de pretender menoscabar o nosso idioma, eu o considero o mais agradável de todos pela naturalidade com que as palavras saem da boca sem forçá-la a trejeitos, por sua espontânea suavidade, o gosto casto de água, a simplicidade que dispensa o adorno – não obstante possa ostentar, como em Filinto Elísio e Odorico Mendes, um vocabulário imenso e insólito, que me parece supérfluo e não ouso empregar.

“O vigor musical, ao mesmo tempo ríspido, da dicção dantesca, se dilui na singela fluência do verbo português: as palavras, traduzidas embora em outras rigorosamente equivalentes, provocam, pela mera mudança de tonalidade, reações dissemelhantes. Exemplifico: as nítidas terminações em tt – smarritto – , a marcada acentuação silábica, a rugidora pronúncia dos ‘rr’ (Dante poderia ser cognominado ‘o poeta do ‘r’’) contrastam com a pronúncia amena do nosso idioma. Assim o épico torna-se lírico. Aquelas palavras que na boca de Dante são violentas e arrebatadas, como no verso

La bocca mi baciò tutto tremante

transpostas para a nossa língua tomam um ar mais calmo, que não muda o sentido mas altera e suaviza a ação. Ao pé da letra:
A boca me beijou todo tremente
ou
Todo trêmulo a boca me beijou.
Ou ainda, como preferi traduzir, por achar mais de acordo com o ímpeto e a intensidade lírica, mas fortes que o próprio sentido das palavras,
Beijou-me a boca, trêmulo, ofegante.

”Creio que ‘o certo’ não seria traduzir ‘italianizando’ e forçando a nossa língua, mas obediente à sua índole, adaptar o verso, procurando escrevê-lo ‘do modo por que Dante o faria se escrevesse em português’, isto é, tirando o máximo partido da língua, que é sempre a primeira lei do verso.

“De nenhum modo me satisfaria o mero traslado em prosa, a maior traição que se pode fazer ao verso dantesco, que procurei ‘imitar’ o mais possível, guardando o contorno dos tercetos, sem o que não poderia dar idéia da ‘forma’ do Poeta. Fiel o mais possível à letra do texto, fiz tudo para que não sentissem o tradutor, mas o autor.” (…)

E conclui, o Milano:
“(…) Dante possuía a arte de figurar coisas difíceis de dizer, quase inexprimíveis, e só por transparência perceptíveis. Ideias que afloram como da extremidade fina do caule surge a rosa num mistério tão natural. Ele sabia desse seu dom de tornar manifesto o impalpável e comunicar o indizível:

Non avea pur natura ivi dipinto
ma di soavitá di mille odori
vi facea un incognito indistinto.

(Não só de cores tudo estava tinto
como do trescalar de mil odores
se fazia um incógnito indistinto.)

A linguagem de um poeta não pode ser trasladada a outro idioma; pode-se traduzir o que ele quis dizer, mas nunca o que ele disse. Sirva isto de escusa às deficiências desta e de qualquer tradução”, conclui Dante Milano.

Espero que as cópias abaixo sejam legíveis aos que se interessam pelo poeta-tradutor e homônimo do Alighieri e anime o leitor deste blog a conhecer mais o nosso Dante, o Milano. Recomendo também a leitura suplementar sobre Dante Milano contida no Ricardo Vieira Lima – Artigo de Ricardo Vieira Lima, UM POETA À REVELIA DE SI MESMO. Há também poemas transcritos Alguma poesia

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Fonte: MILANO, Dante. Poesias. 3a. Edição, revista e acrescida da tradução de Três Cantos do Inferno, de Dante Alighieri. Edit. Sabiá/MEC, 1971. 186 p.

Elogio ao riso

*Um texto antigo que foi dedicado ao amigo (sumido!) Fábio Ulanin.

Pensava que talvez a proximidade do Carnaval fosse a causa da aridez de temas novos, até que folheando um velho livro do inglês Gilbert Keith Chesterton, uma frase sublinhada na página se ofereceu como a fruta madura da mangueira vizinha: “a seriedade emana dos homens naturalmente, enquanto o riso é como um salto.”

Dia desses, numa manhã em que encontrei a adequada mistura de sonatas e cafeína, anotara um novo aforismo: “rir demais de tudo é como afogar-se em açúcar de confeiteiro”.

O riso pode advir do dia-a-dia, sim, sem que nenhum autor o provoque, mas o comum é que seja fruto da provocação simples ou profissional de um agente: o humorista. Usando o senso lúdico, este alcança o que o normal dos homens não encontrou como equilíbrio do riso – o salto, a pirueta, por vezes atingindo a graça de um riso rarissímo – uma espécie de “duplo twist carpado” do humor.

Em outra medida, pode-se pensar como Gustavo Corção para quem o humorismo seria “uma espécie de poesia dos canhotos”. Aceita a classificação dos humoristas em poetas do riso restringe-se o grupo destes a um conjunto bem pequeno, enquanto em quantidade pululam, mesmo, o dos humoristas profissionais que mais pendem para aquele riso que sufoca como o dito açúcar de confeiteiro.

O restrito conjunto dos que fazem humor mais próximo da poesia incluíria Chesterton, Machado, Dickens, Millôr, entre outros que o leitor achará em sua memória afetiva do melhor riso. Mas há os que, ao contrário desses, praticam aquele outro tipo de humor que, conforme Gabriele Bretzke, “incita ao deboche ou à zombaria sarcástica”, associados, por exemplo, a temas políticos e meramente eróticos. O que concorda com uma observação de Gustavo Corção:

Entendendo por humorismo, quanto à forma, o que fizeram Chesterton, Machado e Dickens, reconheceremos que o engraçado, o cômico, a palhaçada, a anedota, pelo que têm de excessivo, desatado e enfático, parecem-se mais com os discursos políticos do que com a obra daqueles três autores.”

A professora Gabriele que, recentemente comentando o best-seller de C.S.Lewis, “Screwtape Letters” (1) – as famosas 31 cartas de um diabo a seu sobrinho – ressaltou que “C.S. Lewis – com insuperável sutileza – mostra o caráter problemático que há no humor que se alimenta de zombaria e escárnio e não da verdadeira e desinteressada alegria”. Há nessa espécie de humor um senso de proporção, uma espécie de equilíbrio poético e de economia narrativa”.

Aprende-se com C.S. Lewis que o lugar do riso não é o mesmo do esgar, do trejeito, da careta medonha que se opõe à alegria desinteressada. Só a geografia do riso é a mesma: a boca do que sorri. Mas a alma do que sorri, separa bem aquela lama do esgar do límpido riso desinteressado e puro. Esses distam entre si com o mesmo e extenso vale que separa a gargalhada macabra do sorriso da criança. O riso da criança, este sim mais próximo do poeta e do humor, é leve como uma gag de Monsieur Hulot, na criação fílmica de Jacques Tati.

E já  que aprendemos com Chesterton e C.S.Lewis que “a seriedade demasiada não é uma virtude”, tentemos o salto, praticando o riso sadio, certo de que este não é o texto mais convincente para convencê-lo ao salto. Confessa o cronista não ter nem de longe o senso de humor de GKC, que concluiu: “é mais fácil escrever um editorial para o Times do que uma boa piada para o Punch”; o que, transposto para nossos dias, seria como comparar um editorial para “O Globo” a uma anedota para os bons humoristas de plantão (o que, definitivamente, não sou nem candidato!).

Eric Voegelin, by Michael Federici

No meu anseio de aprofundar o conhecimento do pensamento de Eric Voegelin, adquiri novos livros nessa minha jornada no Arizona (dez, 08/jan, 09). Devo como sempre mais à Amazon do que a Barnes & Noble. A primeira acha o que não tem em estoque e te entrega, com rapidez e exatidão. A segunda, por seu turno, mirrou sua prateleira de bons filósofos e adotou a prateleira de filosofia miúda, i.e., Filosofia = Ateísmo.  Sorry about that, guys. Na B&N você encontrará o mesmo e bom café da Starbucks, mas a filosofia…(what a shame) com f minúsculo.

Pois bem, foi na Amazon que encontrei esta magnífica introdução ao pensamento de Eric Voegelin. A atendente ilustrada mas apática  da Barnes sequer sabia pronunciar e jamais tivera notícia do nome de Voegelin!

O livro de Michael Federici é da excelente coleção da ISI Books (Wilmington, Delaware), ed. 2002, intitulada “Library of Modern Thinkers” e tem entre outros escritores os ilustres nomes de Ludwig Von Mises, Robert Nisbet, Wilhelm Röpke, Jouvenel e Richard Weaver.

Como ainda não tenho uma resenha do livro, uso a idéia de transcrição de trechos como uma isca para que você, ao contrário da nada simpática atendente da B&N de Surprise (Az), se interesse por Voegelin.

Library of Modern Thinkers, ISI Books, 2002
Library of Modern Thinkers, ISI Books, 2002

Caracterizando a Crise da “Western Civilization” como um “processo que vem de um século e meio atrás” e que talvez persista por mais um século, Voegelin levanta o que chama de “Western disorder“,  elaborando a genealogia que exige “thinkers, ideas and historical experiences that often have been given scant or improper attention by scholars be put in their proper context“. Um exemplo desse tipo de gente é Augusto Comte (1798-1857). Voegelin o caracteriza como “is the first great figure of the Western crisis” and referes to him as “a spiritual dictator of mankind“. E lista outras figuras ao longo do séc. XVIII como d´Alembert, Voltaire, Diderot, Bentham e Turgot. Esses autores, juntos, são responsabilizados por “have mutilated the idea of man beyond recognition“.
Essa mutilação é descrita por Voegelin (de acordo com Federici) como “reduction of man and his life to the level of utilitarian existence” – ´an attitude that is ubiquitous in contemporary Western culture.  This mutilation included the loss of the Christian understanding of mankind`.
Segundo Voegelin, citado por MF:

“There arises the necessity of substituting for transcendental reality an intrawordly evocation which is supposed to fulfill the functions of transcendental reality for the immature type of man. As a consequence, not only the idea of man but also the idea of mankind has changed its meaning. The Christian idea of mankind is the idea of a community whose substance consists of the Spirit in which the members participate; the homonoia of the members, their likemindedness through the Spirit that has become flesh in all and each of them, welds them into a universal community of mankind. (cit. de “Enlightening to Revolution – FER”, Duke Univ. Press, 1975, pág. 95-96).

Individuos como Turgot, Voltaire, Diderot e Bentham transpõem essa ideia clássica e cristã do homem para um modelo que deprecia a natureza espiritual do homem, afirma Federici. E assim, transpõem a comunidade de indivíduos (a fraternidade cristã) em uma massa total e anônima, presa apenas por um ideal. Essa “masse totale” é o que se chama de construção ideal de Turgot. A visão utilitária em que seres humanos são contados como o valor que dão à construção do ´progresso`.  O positivismo contribui assim para a corrupção espiritual, numa clara crise que é, no final, de caráter existencial.

Se existe uma restauração possível – e ao autor não parece uma tarefa tão rápida – essa seria recobrar a consciência dessa “masse totale” , o que não é difícil apenas nas sociedades totalitárias mas também em países de tradição cristã como os EUA, diz Federici, interpretando Voegelin.  Nos EUA, Voegelin nota que esforços de restauração da Ordem terão que enfrentar “the soul-killing pressure of the progressive creed” (FER, 102), assinala Federici. Mas Voegelin é firme em sua posição e dá-nos uma lição digna deste dia de São Brás (em que escrevo este post):

No one is obliged to take part in the spiritual crisis of a society; on the contrary, everyone is obliged to avoid this folly and live his life in order
(Science, Politics and Gnosticism, Chicago, Regnery Gateway, 1968, p.22-23, apud Federici).

Paz e Bem!

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Fonte: Federici, Michael P. “Eric Voegelin: the restoration of order“/ 1st. ed. – Wilmington, Del.: ISI Books, 2002.

(1) scant – adj. escasso, raro; limitado, reduzido; estreito; deficiente.

Post-post:

Voegelin, Eric, 1901-1985

Hitler e os alemães / Eric Voegelin; introdução e edição de texto
Detlev Clemens e  Brendan Purcell; tradução Elpídio Mário Dantas Fonseca.

– São Paulo: É Realizações, 2007. –

(Col. Filosofia Atual)

Título original: Hitler and the Germans

ISBN 978-85-88062-49-8

CDD-943.086092

Índice do catálogo sistemático: 1.Alemanha : Chefes de estado : Período do 3º Reich :

Biografia 943.086091

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Voegelin, Eric, 1901-1985

Reflexões autobiográficas / Eric Voegelin; introdução e edição de texto Ellis Sandoz ; tradução Maria Inês de Carvalho ; Notas Martim Vasques
da Cunha. – São Paulo: É Realizações, 2007. –

(Col. Filosofia Atual)

Título original: Hitler and the Germans

ISBN 978-85-88062-50-4

CDD-193

Índice do catálogo sistemático: 1.Filósofos Alemães : Biografia e obra 193

Biografia 943.086091

Oração do Amanhecer

Senhor!
No silêncio deste dia que amanhece, venho pedir-te a Paz, a Sabedoria e a Força.
Quero olhar, hoje, o mundo com os olhos cheios de amor; ser paciente, compreensivo, manso e prudente.
Quero ver os meus irmãos além das aparências, quero vê-los como Tu mesmo os vês e, assim, não ver senão o Bem em cada um.
Cerra, Senhor, os meus ouvidos a toda calúnia. Guarda a minha língua de toda a maldade.
Que só de bênçãos se encha o meu espírito.
Que eu seja tão bondoso e alegre, que todos os que se aproximarem de mim sintam a Tua presença. Reveste-me de tua beleza, Senhor.
E que, no decurso deste dia, eu Te revele a todos.

Amém!
+++++
Fonte: “Diálogo com Deus”, Ed.Paulinas, SP, 1988.

Poema de Gerardo Mello Mourão

ENDEREÇO*

O poeta não tem endereço
senhor de senhorio
e usufruto do tempo
mora na cabana da sílaba
onde anoitece o verso – ali
onde triunfa algum dissílabo
funda a morada.
Mora nas cidreiras de Catarina
depois nas touceiras de violeta de Marina – mora
no anel de topázio de Joana
– ó virilhas de Joana!
no punho do punhal de ouro de Cellini – mora
no sermão de Bacio della Porta, Edi,
no sermão de Madalena
no sopro de Melpômene e Afrodite
no assobio de Ganimedes:
estes e outros são
seu endereço certo incerto:
ruas sem nome, memórias de Polymnia,
labirintos de Tegucigalpa, onde andava Dolores.

Mora na vida e na morte
sua pátria não tem chão
mora morto – em vida morto
mora noite e madrugada
nalguma constelação.
Rio de Janeiro, 1997.

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Fonte “Cânon & Fuga”, Ed. Record, RJ, 1999.

Motivação, segundo Ortega Y Gasset

Motivação:

“Antes de fazer alguma coisa, cada homem tem que decidir, por sua conta e risco, o que ele vai fazer. Porém essa decisão torna-se impossível se o homem não possui algumas convicções sobre o que são as coisas ao seu redor, ou os outros homens, ou ele mesmo. Unicamente tendo em vista tudo isto, ele pode preferir uma ação à outra, pode, em resumo, viver.

Daí que o homem tenha que estar sempre em alguma crença e que a estrutura de sua vida dependa primordialmente das crenças em que ele esteja e que as mudanças mais decisivas na humanidade sejam as mudanças de crenças, a intensificação ou enfraquecimento das mesmas. O diagnóstico de uma existência humana – de um homem, de um povo, de uma época – tem que começar assentando o repertório de suas convicções, que são a base da nossa vida. Por isso se diz que o homem está nelas. As crenças são o que verdadeiramente constitui o estado do homem, e eu as tenho chamado de “repertório” para indicar que a pluralidade de crenças em que um homem, um povo ou uma época está nunca possui uma articulação completamente lógica, isto é, não forma um sistema de idéias, como o é, ou aspira a sê-lo, por exemplo, uma filosofia.

(Ortega y Gasset).

Refiro-me à releitura atenta de Candide de Voltaire, na chácara de um amigo no interior de São Paulo, na pequena Boituva. Fico pensando nas desventuras do herói de Voltaire e suas implicações, seja como leitura de mero divertissement, seja como convite à reflexão.

A lição final em que se reúne todo os personagens em volta de Candide está clara:

“É preciso cuidar da nossa horta!”

“O trabalho nos livra de três dissabores: os vícios, as contrariedades e a pobreza” (check it!)

Atenção e cuidado com minha família (minhas três damas, as Amaral Queiroz), cuidado com minhas azaléias, minha ida à missa dominical, minhas aulas de catecismo…minhas cefaléias e insônias, meus livros, minhas croniquetas, meus poeminhas “bobinhos” (à la Marcos Caiado): minha vida, enfim…

Julián Marías

“A felicidade é para as pessoas o que a perfeição é para os entes”.

Com esse pensamento-síntese, idéia “arrancada do grande rincão que é a obra de Leibniz“, poderíamos sintetizar o livro de Julian Marías*.
Marias

Sempre que termino a leitura de um livro dessa grandeza, penso em como a literatura, em seus diversos estilos e gêneros, pode ajudar-nos – sem cair na prateleira ostensiva do termo auto-ajuda! – a enxergar melhor, a ser melhores, convivendo com mais integração com o mundo à nossa volta; e com nossos semelhantes em nossa caminhada como cristãos.

Livros, filmes, discos, relatos, conferências podem abrir-nos rumos para a nossa busca da felicidade – dentro da “realidade projetiva” que somos, pois, afinal, como bem conclui Marías: “nossa vida consiste no esforço por alcançar parcelas, ilhas de felicidade, antecipações da felicidade plena”.

Dia desses recebi um dessas mensagens iluminadas de um dos meus brilhantes amigos, que ainda escrevem em blogs para exaltar o Bem, o Belo e o Verdadeiro (seus posts são comentados por muito poucos, pois, a maioria prefere o ruído vazio do sensualismo e da exaltação dos ‘valores’ da modernidade descrente de tudo). Pois bem, este amigo me dizia sobre seu ofício de comentarista:

O que desejo é não me transformar em um Hans Castorp.

A referência é sofisticada, fala do personagem de Thomas Mann (em “A Montanha Mágica”) e está naturalmente coberta de significado, trazendo o condão de afirmar o propósito de desenvolver uma certa pedagogia no seu blog. Hoje, mais do que nunca, é urgente que tenhamos propósitos didáticos indicando através das leituras, dos comentários de audições musicais, na apropriada escolha dos temas, enfim, rumos da verdade num mundo cada vez mais dominado pela mentira, pela empulhação e pela desfaçatez.

Eis o propósito que me move a escolher essas citações de Julián Marías. Espero que isso motive o leitor a procurar o livro do pensador espanhol, discípulo de Ortega Y Gasset.

O que se fala nesse livro – que não é de auto-ajuda ressalte-se mais uma vez – ajuda o leitor porque é a meditada e madura reflexão de um homem sábio. Os trinta capítulos que correspondem a 30 conferências em um curso no Instituto de Espanha, com o mesmo título, examina a fundo o significado de felicidade, do passado filosófico aos nossos dias, passando pela mística cristão, o utilitarismo, o reducionismo do ´welfare state` até a antropologia metafísica e à intimidade da vida de cada um.

No fim e ao cabo, torna-se, pois, um livro de auto arazoamento, de convite à reflexão, de convite ao exercício do pensar sobre a felicidade – e, pois, se pode dizer da vida humana, daí porque não é uma referência à felicidade dos cães ou dos animais de criação, mas da Criação por excelência na terra – fala-se da Felicidade Humana.

Num mundo que exalta a infelicidade, um livro assim pode ser um roteiro de pensar como retornar ao projeto original de se continuar procurando a felicidade – esse alvo móvel.

Muitas pessoas deixam a felicidade se perder sem que isso seja inevitável; às vezes, por desgraça o é; mas muitas vezes se a dá por perdida quando o que se perde é algo que, a seu lado, quase não tem importância. Por que isso acontece? Porque não se dá atenção ao que é a condição mesma da vida“.

A felicidade conclui Maríás em um dos mais importantes capítulos (XIX) do livro “é a vida mesma: quando alcança sua plenitude, é felicidade”.

O autor consegue demolir alguns equívocos do pensamento atual que identifica a felicidade com a acumulação de riquezas, a dissipação de si mesmo nos prazeres ou nas atividades sociais, o reducionismo de felicidade como ´bem-estar` e a limitação do horizonte da felicidade à vida terrena (sem a esperança cristã da vida eterna).

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Post originalmente publicado no Verbeat em 29/08/2006.
Fonte: “A Felicidade Humana”, Julián Marias, Ed. Duas Cidades, 1989.