Poesia Falada – Poemas de João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

SEGUIDA DE ALGUNS POEMAS.

A Educação Pela Pedra (1)
*******

A trilha sonora – graças a GooglePlay com Sérgio Ferraz.
Suite Ibérica – Sérgio Ferraz.

Sérgio Ferraz
Suíte Ibérica


Assim foi a “1a. Noite Cultural Acieg/Ube-GO – Homenagem a Augusto Frederico Schmidt

Lvireto-memória Evento

AMIGOS da Acieg e da Ube; diletos associados e escritores – recebam meu mais sincero “Muito Obrigado!” pela acolhida e o carinho que demonstraram participando da organização e da celebração da 1a. Noite Cultural – “Homenagem a Augusto Frederico Schmidt”.

À Fundação Yedda & Augusto, meu muito obrigado por repercutir.
Aos parceiros do evento, um super-Obrigado, em especial a Mário Zeidler Filho e Editora Livraria Caminhos.

Homenagem a Augusto Frederico Schmidt (pág.1)
Homenagem a Augusto Frederico Schmidt (pág.1). Editora Caminhos.Acieg/Ube.Org.  Adalberto de Queiroz.

Que venham outras noitadas de poesia na Acieg.
Saiba como foi o evento no site da Acieg.
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Colagem Schmidt, Acieg
Colagem de momentos da Homenagem a Augusto Frederico Schmidt, Acieg, Goiânia, 21/MAI/2015.


**Obs.: Sobre o Poema Falado do vídeo –

Trechos de Soneto sobre a Luz (e não ‘Luz do Mar’, como os técnicos fizeram constar sobre o vídeo).

Poema Falado – vídeo.

Espírito Humano x Comunismo, por Murilo Mendes

https://pbs.twimg.com/media/Bq-qyIWCcAMyjoM.jpg
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Fonte: MENDES, Murilo. “O Discípulo de Emaús”, Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar (Murilo: Poesia Completa e Prosa), p.832, aforismo #160.

Quando a Poesia é uma forma de oração (I)

HÁ POETAS PARA QUEM escrever é uma forma de rezar.
Um exemplo evidente do que estou dizendo vem de boa parte da poesia de Jorge de Lima. E se cantar é rezar duas vezes,  diria que fazer (ou ler) poemas dessa natureza é, sim, uma forma de prece silenciosa.

“Para Claudel, o poeta cristão está em contínua celebração, pois é por ela que expressa o desejo mais profundo: “A louvação, a celebração é talvez a maior elevação da poesia, porque ela é a expressão do desejo mais profundo da alma, a voz da alegria e da vida. O dever de toda criação. Aquele que cada criatura tem desejo de todos os outros.” (de Gilberto Mendonça Teles, na Revista da PUC, Rio, Poesia e Religião. (2)

Poema do Cristão – Jorde de Lima*

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.|
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas,
que eu decomponho e absorvo com os sentidos,
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros como as estrelas-do-mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém.
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas,
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo com a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita,
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais,
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega,
[peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou
[tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado,
[tenho mantos de púrpura, e de estamenha, sou burríssimo
[como São Cristóvão, e sapientíssimo como Santo Tomás.
[E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para
[todos os séculos, louco de Deus, amém!

E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem
[e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!

Anoto algumas amostras de como a poesia de Jorge alcança o estado de prece. Não sem razão isso o faz distinguir de tantas outras vozes poéticas brasileiras, pois, seg. Gilberto Mendonça Teles
se houve poeta visceralmente religioso em nossa poesia, se houve escritor cuja obra foi toda penetrada de uma substância mística, foi sem dúvida alguma Jorge de Lima…” E, isso, o destaca mesmo entre os membros da ilustre “trindade sagrada da Poesia Católica Brasileira” – ele, Jorge de Lima, Murilo – que Jorge considerava “o Grade Poeta Amigo –, e Augusto Frederico Schmidt. Fico com Jorge:

a) De “A Túnica Inconsútil” – onde se encontra esta espécie de “valor de eternidade, de permanência” que destacou Mário de Andrade, em Nota Preliminar à edição da Aguilar (1958). Queria ele, Jorge de Lima que “A Túnica…” fosse considerado “um poema só” e não um livro de poemas.

Pois bem, um ou muitos poema(s), o valor ali está, assinalado por Mário, no ato de o Poeta “rastrear, poética e tematicamente a Bíblia”; e este valor aumenta com o preenchimento com “pouca sonoridade” (diz Mário), mas “cheio da mais rica e mesmo surpreendente imaginação” poética.

“Poema do Cristão” – a leitura de todo o(s) poema(s) de “A Túnica…” pressupõe mais do que o sr. Mário de Andrade, do alto de seu posto de crítico literário pôde ver, naquele artigo de 1938, publicado n’O Estadão e que virou prefácio do livro.
O mais é a possibilidade de descortinar a visão do Jorge de Lima, místico.

Ao abrir o livro, Jorge nos lança uma dicotomia que nos dá pistas importantes para a leitura do poema como forma de oração:

(1) “sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas…
que decomponho e absorvo com os sentidos”

E de outra parte:

(2) “e compreendo com a inteligência
      transfigurada em Cristo.”

(3) E conduz o leitor à conclusão mais pertinente da adoção desta postura de Fé:
”Tenho os movimentos alargados.”

Analisemos a expressão “inteligência transfigurada”.

Segundo a The Catholic Encyclopedia,

“…a Transfiguração de Cristo é o ponto culminante de sua vida pública, como o Seu batismo é o seu ponto de partida, e Sua Ascensão ao fim. Além disso, este glorioso evento tem sido relacionada em detalhes por S.Mateus ( 17:1-6 ), S. Marcos ( 9:1-8 ), e S. Lucas ( 9:28-36 ), enquanto S. Pedro ( 2 Pedro 1:16-18 ) e S. João ( 01:14 ), duas das testemunhas privilegiadas, fazem alusão a ela.

“Cerca de uma semana depois de sua estada em Cesaréia de Filipe , Jesus tomou consigo Pedro e Tiago e Joãoe levou-os a um alto monte, onde Ele foi transfigurado diante de seus olhos violadas. S. Mateus e S. Marcos expressarem este fenômeno pela palavra metemorphothe , que a Vulgata torna transfiguratus est. Os evangelhos Sinópticos explicam o verdadeiro significado da palavra, acrescentando “o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a neve“, segundo a Vulgata , ou “como a luz“, segundo o texto grego.

“Este deslumbrante brilho que emana de todo o Seu corpo foi produzido por um brilhante interior de sua Divindade. O falso judaísmo havia rejeitado o Messias , e agora o verdadeiro judaísmo , representado por Moisés e Elias , a Lei e os Profetas , o reconhece e adora o Cristo, enquanto no o “Segundo tempo” Deus Pai proclamou Seu unigênito e bem-amado Filho .

Por esta manifestação gloriosa do Divino Mestre , que tinha recém-anunciado sua paixão ao Apóstolos ( Mateus 16:21 ), e que falou com Moisés e Elias antes dos julgamentos que Ele esperara em Jerusalém , fortaleceu a de seus três amigos (Pedro, Tiago e João) e preparou-os para a luta terrível de que eles deveriam ser testemunhas em Gethsemani , dando-lhes uma antecipação da glória e celeste se deleita em que alcançamos pelo sofrimento.”

Parece-nos que o Poeta quer buscar esse momento culminante da vida pública de Jesus para trazer à página poética uma expressão que trará o brilho que a compreensão “dos sentidos” seria incapaz de fazer.

Etimologicamente, a palavra “transfigurado” provém do grego: “metemorphothe”, donde decorre metamorfose. Nós usamos esta palavra para descrever a mudança que ocorre, p.ex., quando uma lagarta se torna uma borboleta. Analistas dizem que Jesus tranfigurado é descrito nos evangelhos de forma similar ao que fora Moisés no Sinai: “a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante a sua conversa com o Senhor; (…) todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele (…) e havia um véu no seu rosto. Mas, entrando Moisés diante do Senhor para falar com ele, tirava o véu até sair. E, saindo, transmitia aos israelitas as ordens recebidas. Estes viam irradiar a pele de seu rosto; em seguida Moisés recolocava o véu no seu rosto até a próxima entrevista com o Senhor.”
(Êxodo, 34:29-35).

Que metamorfose(s) procura o poeta? Seria (a) luz que aos olhos do leitor possa iluminar territórios nunca vistos? Deixaria, em meio à transfiguração, véus que haveremos de desvelar para entender toda a Poema do Cristão Jorge?

Encontramos alguns porquês e algumas mais de (suas) decorrências ou consequências – que são deliberados vôos, na poesia de Jorge (e de resto na Poesia tout court); e a razão (esses tantos porquês) às vezes faz despencar do alto vôo em nossa pobre humanidade. Por certo, mesmo na escuridão da busca de entendimento, pode-se entender que uma coisa é do estado larval (a lagarta que sonha em alçar vôo) e o Poeta-pássaro capaz de vôos – “vôos eram fora do mundo”. Vôos que são a própria finalidade

– “Não há escuridão mais para mim.” Declara aquele que “compreende” com a “inteligência transfigurada em Cristo”.

Por isso mesmo, talvez, é que possa o poeta “transfigurado” afirmar:

“Opero transfusões de luz nos seres opacos”.

Eis-me opaco para tão alta compreensão, diria o leitor; para quem armar-se da mera inteligência (Razão) diante da Poesia é sempre pouco – tal como os apenas os sentidos o são para, depois de “decomposto e absorvido” transformar num caldo tão rico de místicos vôos…

É preciso mais ao poeta e sua “inspiração” em direção ao fecho do poema, a prece:

”Nada sou.
”Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!”
[Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo sua misericórdia infinita].

(*) No próximo post, a releitura do poema “Confissões, Lamentações e Esperança a Caminho de Damasco” e no terceiro da série falarei sobre os (b) De “Tempo e Eternidade”.
+++++
Fontes:
(1) LIMA, Jorge de. “A Túnica Inconsútil”, Edit. Aguilar, “Jorge de Lima: Obra Completa”, Rio de Janeiro, 1958, p. 425/6.
(2) REVISTA MAGIS – CADERNOS DE FÉ E CULTURA, Ed. 2006.
(3) The Catholic Encyclopedia – verbete Transfiguration.

Quando a Poesia é uma forma de oração (I)

HÁ POETAS PARA QUEM escrever é uma forma de rezar.
Um exemplo evidente do que estou dizendo vem de boa parte da poesia de Jorge de Lima. E se cantar é rezar duas vezes,  diria que fazer (ou ler) poemas dessa natureza é, sim, uma forma de prece silenciosa.

“Para Claudel, o poeta cristão está em contínua celebração, pois é por ela que expressa o desejo mais profundo: “A louvação, a celebração é talvez a maior elevação da poesia, porque ela é a expressão do desejo mais profundo da alma, a voz da alegria e da vida. O dever de toda criação. Aquele que cada criatura tem desejo de todos os outros.” (de Gilberto Mendonça Teles, na Revista da PUC, Rio, Poesia e Religião. (2)

Poema do Cristão – Jorde de Lima*

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.|
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas,
que eu decomponho e absorvo com os sentidos,
e compreendo com a inteligência
transfigurada em Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressoo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de todos os irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros como as estrelas-do-mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém.
E, tendo a vida eterna, posso transgredir leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas,
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo com a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a sua túnica,
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita,
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais,
e sobre os ombros A conduzo
através de toda a escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E tendo a luz eterna nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou palhaço, sou alfa e ômega,
[peixe, cordeiro, comedor de gafanhotos, sou ridículo, sou
[tentado e perdoado, sou derrubado no chão e glorificado,
[tenho mantos de púrpura, e de estamenha, sou burríssimo
[como São Cristóvão, e sapientíssimo como Santo Tomás.
[E sou louco, louco, inteiramente louco, para sempre, para
[todos os séculos, louco de Deus, amém!

E, sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem
[e a medida;
sou a balança, a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!

Anoto algumas amostras de como a poesia de Jorge alcança o estado de prece. Não sem razão isso o faz distinguir de tantas outras vozes poéticas brasileiras, pois, seg. Gilberto Mendonça Teles
se houve poeta visceralmente religioso em nossa poesia, se houve escritor cuja obra foi toda penetrada de uma substância mística, foi sem dúvida alguma Jorge de Lima…” E, isso, o destaca mesmo entre os membros da ilustre “trindade sagrada da Poesia Católica Brasileira” – ele, Jorge de Lima, Murilo – que Jorge considerava “o Grade Poeta Amigo –, e Augusto Frederico Schmidt. Fico com Jorge:

a) De “A Túnica Inconsútil” – onde se encontra esta espécie de “valor de eternidade, de permanência” que destacou Mário de Andrade, em Nota Preliminar à edição da Aguilar (1958). Queria ele, Jorge de Lima que “A Túnica…” fosse considerado “um poema só” e não um livro de poemas.

Pois bem, um ou muitos poema(s), o valor ali está, assinalado por Mário, no ato de o Poeta “rastrear, poética e tematicamente a Bíblia”; e este valor aumenta com o preenchimento com “pouca sonoridade” (diz Mário), mas “cheio da mais rica e mesmo surpreendente imaginação” poética.

“Poema do Cristão” – a leitura de todo o(s) poema(s) de “A Túnica…” pressupõe mais do que o sr. Mário de Andrade, do alto de seu posto de crítico literário pôde ver, naquele artigo de 1938, publicado n’O Estadão e que virou prefácio do livro.
O mais é a possibilidade de descortinar a visão do Jorge de Lima, místico.

Ao abrir o livro, Jorge nos lança uma dicotomia que nos dá pistas importantes para a leitura do poema como forma de oração:

(1) “sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas…
que decomponho e absorvo com os sentidos”

E de outra parte:

(2) “e compreendo com a inteligência
      transfigurada em Cristo.”

(3) E conduz o leitor à conclusão mais pertinente da adoção desta postura de Fé:
”Tenho os movimentos alargados.”

Analisemos a expressão “inteligência transfigurada”.

Segundo a The Catholic Encyclopedia,

“…a Transfiguração de Cristo é o ponto culminante de sua vida pública, como o Seu batismo é o seu ponto de partida, e Sua Ascensão ao fim. Além disso, este glorioso evento tem sido relacionada em detalhes por S.Mateus ( 17:1-6 ), S. Marcos ( 9:1-8 ), e S. Lucas ( 9:28-36 ), enquanto S. Pedro ( 2 Pedro 1:16-18 ) e S. João ( 01:14 ), duas das testemunhas privilegiadas, fazem alusão a ela.

“Cerca de uma semana depois de sua estada em Cesaréia de Filipe , Jesus tomou consigo Pedro e Tiago e Joãoe levou-os a um alto monte, onde Ele foi transfigurado diante de seus olhos violadas. S. Mateus e S. Marcos expressarem este fenômeno pela palavra metemorphothe , que a Vulgata torna transfiguratus est. Os evangelhos Sinópticos explicam o verdadeiro significado da palavra, acrescentando “o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a neve“, segundo a Vulgata , ou “como a luz“, segundo o texto grego.

“Este deslumbrante brilho que emana de todo o Seu corpo foi produzido por um brilhante interior de sua Divindade. O falso judaísmo havia rejeitado o Messias , e agora o verdadeiro judaísmo , representado por Moisés e Elias , a Lei e os Profetas , o reconhece e adora o Cristo, enquanto no o “Segundo tempo” Deus Pai proclamou Seu unigênito e bem-amado Filho .

Por esta manifestação gloriosa do Divino Mestre , que tinha recém-anunciado sua paixão ao Apóstolos ( Mateus 16:21 ), e que falou com Moisés e Elias antes dos julgamentos que Ele esperara em Jerusalém , fortaleceu a de seus três amigos (Pedro, Tiago e João) e preparou-os para a luta terrível de que eles deveriam ser testemunhas em Gethsemani , dando-lhes uma antecipação da glória e celeste se deleita em que alcançamos pelo sofrimento.”

Parece-nos que o Poeta quer buscar esse momento culminante da vida pública de Jesus para trazer à página poética uma expressão que trará o brilho que a compreensão “dos sentidos” seria incapaz de fazer.

Etimologicamente, a palavra “transfigurado” provém do grego: “metemorphothe”, donde decorre metamorfose. Nós usamos esta palavra para descrever a mudança que ocorre, p.ex., quando uma lagarta se torna uma borboleta. Analistas dizem que Jesus tranfigurado é descrito nos evangelhos de forma similar ao que fora Moisés no Sinai: “a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante a sua conversa com o Senhor; (…) todos os israelitas, notaram que a pele de seu rosto se tornara brilhante e não ousaram aproximar-se dele (…) e havia um véu no seu rosto. Mas, entrando Moisés diante do Senhor para falar com ele, tirava o véu até sair. E, saindo, transmitia aos israelitas as ordens recebidas. Estes viam irradiar a pele de seu rosto; em seguida Moisés recolocava o véu no seu rosto até a próxima entrevista com o Senhor.”
(Êxodo, 34:29-35).

Que metamorfose(s) procura o poeta? Seria (a) luz que aos olhos do leitor possa iluminar territórios nunca vistos? Deixaria, em meio à transfiguração, véus que haveremos de desvelar para entender toda a Poema do Cristão Jorge?

Encontramos alguns porquês e algumas mais de (suas) decorrências ou consequências – que são deliberados vôos, na poesia de Jorge (e de resto na Poesia tout court); e a razão (esses tantos porquês) às vezes faz despencar do alto vôo em nossa pobre humanidade. Por certo, mesmo na escuridão da busca de entendimento, pode-se entender que uma coisa é do estado larval (a lagarta que sonha em alçar vôo) e o Poeta-pássaro capaz de vôos – “vôos eram fora do mundo”. Vôos que são a própria finalidade

– “Não há escuridão mais para mim.” Declara aquele que “compreende” com a “inteligência transfigurada em Cristo”.

Por isso mesmo, talvez, é que possa o poeta “transfigurado” afirmar:

“Opero transfusões de luz nos seres opacos”.

Eis-me opaco para tão alta compreensão, diria o leitor; para quem armar-se da mera inteligência (Razão) diante da Poesia é sempre pouco – tal como os apenas os sentidos o são para, depois de “decomposto e absorvido” transformar num caldo tão rico de místicos vôos…

É preciso mais ao poeta e sua “inspiração” em direção ao fecho do poema, a prece:

”Nada sou.
”Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!”
[Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo sua misericórdia infinita].

(*) No próximo post, a releitura do poema “Confissões, Lamentações e Esperança a Caminho de Damasco” e no terceiro da série falarei sobre os (b) De “Tempo e Eternidade”.
+++++
Fontes:
(1) LIMA, Jorge de. “A Túnica Inconsútil”, Edit. Aguilar, “Jorge de Lima: Obra Completa”, Rio de Janeiro, 1958, p. 425/6.
(2) REVISTA MAGIS – CADERNOS DE FÉ E CULTURA, Ed. 2006.
(3) The Catholic Encyclopedia – verbete Transfiguration.

Para Ler na Quaresma 2014*2019

Manuel Bandeira –

Poeta amado na minha juventude, foi por um tempo esquecido, até que Edson Nery da Fonseca me fez redescobrir seus poemas (dele, Bandeira), num volumezinho primoroso (como quase todos) da Editora Cosac Manuel BandeiraNaify.

Antes, confesso, na longa temporada em que passei lendo (e apreciando J.G. Merquior, apareceu-me um Bandeira diferente (o crítico) que escolhera o jovem Merquior como co-Autor da Antologia da Poesia Brasileira, 1963. Mas isso isso é assunto para outro post. Agora, para esta Leitura de Quaresma (2014), selecionei alguns poemas do volume e referência de um bom site, onde o leitor encontrará mais poemas de Bandeira.

UBIQÜIDADE

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)
Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

– Da seção Deus, p.9, vol. cit, vide Fontes abaixo*


SantasORAÇÃO A TERESINHA DO MENINO JESUS
(da seção As Santas, op. cit. ver fontes* – duas orações)

Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha…
Teresinha… Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.

Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No
Pelo sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!…
Santa Teresa não, Teresinha…
Teresinha do Menino Jesus.


ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DA BOA MORTE

Fiz tantos versos a Teresinha…
Versos tão tristes, nunca se viu!
Pedi-lhe coisas. O que eu pedia
Era tão pouco! Não era glória…
Nem era amores… Nem foi dinheiro…
Pedia apenas mais alegria:
Santa Teresa nunca me ouviu!
Para outras santas voltei os olhos.
Porém as santas são impassíveis
Como as mulheres que me enganaram.
Desenganei-me das outras santas
(Pedi a muitas, rezei a tantas)
Até que um dia me apresentaram
A Santa Rita dos Impossíveis.
Fui despachado de mãos vazias!
Dei volta ao mundo, tentei a sorte.
Nem alegrias mais peço agora,
Que eu sei o avesso das alegrias.
Tudo que viesse, viria tarde!
O que na vida procurei sempre,
— Meus impossíveis de Santa Rita, —
Dar-me-eis um dia, não é verdade?
Nossa Senhora da Boa Morte!


E por fim, um link para que você possa continuar lendo poemas de Manuel Bandeira, seleção do site A Voz da Poesia.
+++++
Cosac Naify(*) Fontes:
BANDEIRA, Manuel. “Poemas Religiosos e Alguns Libertinos”. Seleção e posfácio: Edson Nery da Fonseca. Título original: “Poemas de Manuel Bandeira com motivos religiosos. Texto do Prefácio da 1a. edição por Gilberto Freyre. 2a. ed. revista e ampl. – S.Paulo: Cosac Naify, 2007, 112 pp. 9 ils. ISBN 978-85-7503-581-8.
Ubiquidade é da pág. 9.
Oração a Nossa Senhora da Boa Morte, pág. 26.
Oração a Teresinha do Menino Jesus, pág. 50.