“No presépio”, de Adélia Prado. Um poema em prosa

Adélia Prado: "No Presépio", um poema em prosa contra a "tristeza e seus requintes"
Adélia Prado, “Filandras”, Edit. Record, Rio de Janeiro, 2011.
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Se preferir, leia o texto ao lado.

NO PRESÉPIO*

Por Adélia Prado, poetisa e cronista mineira.

Minha alma debate-se, tentada à tristeza e seus requintes. Meu pai morto não vai repetir este ano: “Nada como um frango com arroz depois da missa”.
Minha irmã chora porque seu marido é amarradinho com dinheiro e ela queria muito comprar uns festões, uns presentinhos mais regalados, ô vida, e ele acha tudo bobagem e só quer saber de encher a geladeira com mortadela e cerveja.

Talvez, por isto, ou porque me achei velha demais no espelho da loja, sinto dificuldades em ajudar Corália. Queria muito chorar, deveras estou chorando, às vésperas do nascimento do Senhor, eu que estremeço recém-nascidos.

Estou achando o mundo triste, querendo pai e mãe, eu também. Corália disse: você é tão criativa! E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não posso.
Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São bonitos demais! À meia-noite o Menino vem, à meia-noite em ponto. Forro o cocho de palha. Ele vem, as coisas sabem, pois estão pulsando, os carneiros de gesso, a estrela de purpurina, a lagoa feita de espelhos.

Vou fazer as guirlandas para Corália enfeitar sua loja. A radiação da “luz que não fere os olhos” abre caminho entre escombros, avança imperceptível e os brutos, até os brutos, banhados. Desfoco um pouco o olhar e lá está o halo, a expectante claridade, em Corália, em Joana com seu marido e em mim, também em mim que escolho beber o vinho da alegria, porque deste lugar, onde “o leão come a palha com o boi“, esta certeza me toma: “um menino pequeno nos conduzirá”.

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Presépio – (c) da foto do website abaixo: http://www.culturamix.com/cultura/religiao/presepio-natal

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Fonte: PRADO, Adélia.
“Filandras”, Editora Record –
Rio de Janeiro, 2001, pág. 111.

“A vida Muda o morto em multidão” – Mudará?

DO VERSO DE FERREIRA GULLAR

há lições a serem retiradas (da) e cotejadas com a realidade atual…(FGullar recebeu o prêmio Camões, 2010, foto sem (c) indicado

O livro “Dentro da Noite Veloz”, poemas de 1962-1974,  é de 1975. O poema-título é de 24.07.69. Era a fase do poeta em oposição ao regime militar – estamos, portanto, diante daquele típico livro de combate…

“Dentro da Noite…” traz poemas diversos em que, mesmo tendo a poesia como arma de sobrevivência, não deixa de conter o estilo de José Ribamar Ferreira (Ferreira Gullar) que o levará à maturidade poética e como pensador e crítico da Cultura que chega a ser considerado “o rei” da poesia brasileira contemporânea (Piza, 1999).

‘Está fora

de meu alcance

o meu fim

Sei só até

onde sou

contemporâneo

de mim.’

Mesmo que o guerrilheiro argentino “Che” Guevara apareça como protagonista do poema datado “dentro da Noite”, o poeta não se esconde na militância – abdicando do verso que forjará o seu estilo com o passar dos anos…A doença do esquerdismo juvenil parece não perdurar na maturidade do poeta.

O  poeta preso na Vila Militar (1969) pensa na liberdade como “sons de uma porta que bate”, de “árvores sob as nuvens; não havendo como não ver em Poesia com a marca do tempo, do combate temporário, a poesia dita datada – como se só o tempo presente parecesse interessar ao poeta: “A poesia é o presente” – diz. Ou quando, impotente diante da estarrecedora realidade da ditadura, o poeta clandestino (e depois exilado em B. Aires) (con)cede diante da realidade aterradora um mínimo para a estética ou para a poesis, preferindo “o neo-concreto” – corrente literária que por fim será um dos ícones:

“o poema, senhores,
não fede nem cheira”.                                                        

Gullar_Nordeste© foto de onordeste.com

O Ferreira Gullar maduro é o poeta que, por mais uma vez, se bate contra a ditadura – agora a ditadura do PT, dos governantes de agora, prováveis parceiros de outrora…
E se antes denunciava a fome em seus poemas das décadas passadas, hoje alerta que “Lula comprou os pobres do Brasil”, pela barriga…mercadejando com a Fome dos Outros.

Gullar mostra-se antenado com o momento brasileiro e alerta-nos para os riscos da “táticas bolivarianas” postas em prática pelo governo do PT, como também o fez corajosamente a poetisa mineira Adélia Prado.

Os intelectuais estão ausentes… os ditos artistas, intelectuais de esquerda…essas pessoas se calaram”.

”Os que faziam o panegírico
do PT, não tiveram a humildade de dizer: ERRAMOS!”

O País está naquele estágio em que Jean Braudillard chamava de
transparência do Mal”…

Ele, o Mal, está por toda a parte, em todos os poderes da República, na vida do país.

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